Rafael Leão foi esta quinta-feira apresentado em conferência de imprensa como jogador do Lille para as próximas cinco temporadas. O jovem português chega ao 17.º classificado da Ligue 1 da temporada passada depois de rescindir com o Sporting na sequência dos incidentes ocorridos na Academia dos leões, em maio deste ano, e de se recusar a voltar ao clube de Alvalade alegando falta de condições, nomeadamente, no que à segurança pessoal diz respeito.

“Sou jovem, preciso de jogar, preciso de aprender todos os dias e o projeto que o Lille me apresentou era muito bom, não podia recusar esta oportunidade”, começou por dizer o avançado de 19 anos, que no clube francês encontrará os compatriotas Edgar Ié e José Fonte. Até aqui, tudo bem: Rafael Leão chega a França, elogia as metas que o clube que o contratou se propõe a atingir e retribui a confiança em si depositada pelos responsáveis franceses.

“Jogar na liga francesa é muito bom porque é uma liga que está a crescer. As condições do clube são muito boas, espero fazer uma grande época”, lançou de seguida, dando continuidade a um discurso coerente, típico de quem chega a um clube que pouco conhece e pretende cair nas boas graças dos adeptos. Mais uma vez, até aqui, tudo normal.

O senão no discurso de Rafael Leão acabou por chegar já depois do ex-Sporting assumir ser fã de Cristiano Ronaldo: “A meu ver, a violência não leva a lado nenhum e decidi sair“. E é aqui que tudo estaria normal, caso a decisão de Leão tivesse sido outra. Ou melhor, bastava mudar o destino – é que os adeptos do Lille, em março deste ano, invadiram o seu próprio campo após uma partida para bater nos atuais companheiros de Rafael Leão. 

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Tudo aconteceu depois de um empate a uma bola frente ao Montpellier, no Estádio Pierre-Mauroy, casa do Lille. Jogava-se a 29.ª jornada da Ligue 1 e o Lille estava com 28 pontos na penúltima posição da tabela classificativa. Os resultados desportivos não eram bons, a desilusão dos adeptos era compreensível, mas, lá está: a violência não leva a lado nenhum. No final da época, o clube campeão francês por três vezes (a última aconteceu em 2010/11), até se livrou da despromoção por apenas um ponto, mas da fama e das imagens de violência já não consegue fugir. Tal como Rafael Leão parece não fugir dos cenários que o preocupam. Pelo menos, vai ter aulas de francês, o que, segundo o próprio, poderá “ajudar na integração”.

Também o caso de Daniel Podence é caricato nesse aspeto. O internacional Sub-21 português foi outro dos elementos que se sentiram sem condições para continuar em Alvalade, depois dos incidentes de Alcochete e perante a manutenção de Bruno de Carvalho como presidente do Sporting. O líder destituído era apontado como uma das causas de instabilidade do clube na carta de rescisão por justa causa apresentada pelos jogadores verde e brancos e parecia não cair nas boas graças dos atletas, que se queixavam de críticas constantes e incentivos à violência por parte de Bruno de Carvalho.

Livre do vínculo com o Sporting, Podence decidiu assinar pelo Olympiacos, presidido por Evangelos Marinakis. O grego não tem propriamente bom feitio, nunca teve e nem sequer o tenta esconder. Os treinadores, consigo, têm pouca margem de manobra, a ganhar ou a perder. Veja-se o casos dos portugueses que por lá passaram:  Leonardo Jardim esteve sete meses no banco e saiu; Paulo Bento não resistiu a três derrotas seguidas; Marco Silva, apesar do título de campeão que deixou no clube do Pireu, também sairia; Vítor Pereira nem acabou o defeso de verão e seguiu viagem para outras paragens.

Na temporada passada, Evangelos Marinakis elevou as suas atitudes e decisões a um outro nível: a quatro jornadas do final do Campeonato, já com o Olympiacos eliminado da Taça da Grécia e em segundo da principal prova, a seis pontos do líder AEK, o presidente grego perdeu a cabeça e decidiu mandar os jogadores de férias. Sim, de férias.

“Vou reconstruir o Olympiacos de uma ponta à outra. Será a equipa com que sempre sonhámos, eu e os adeptos. Já vos tolerámos que chegue, vão-se embora hoje”. Foi assim que começou a conversa pós-jogo no balneário do Olympiacos, num momento privado mais tarde tornado público. Como continuou o diálogo? “Pago milhões e milhões para que vocês tenham tudo. Por vossa causa já contratei três treinadores. Mas, no fim, acho que vocês é que têm a culpa. Acho que pensam mais mais nas casas lindas, nos carros, do que no clube”. Para além disso, cada atleta foi multado em 400.000 euros…