Escrever sobre Johnny Weissmuller é quase como escrever sobre duas pessoas diferentes. Teve dois (ou mais) nomes, duas carreiras, duas possíveis nacionalidades. Nasceu num país e morreu noutro, a milhares de quilómetros de distância. No auge da sua carreira, os seus feitos correrem mundo; no final da sua vida, várias são as dúvidas sobre o que lhe aconteceu. Mas se muitos conhecerão o nome do austro-húngaro naturalizado americano como o mais icónico e notável Tarzan de todos os tempos, poucos saberão que, antes de enveredar pelo mundo do cinema, já brilhara nas piscinas como um dos maiores nadadores da história. Weissmuller bateu 28 recordes do mundo e conquistou cinco medalhas de ouro em Jogos Olímpicos, duas delas há 90 anos, em Amesterdão, 1928. Juntam-se aos metais arrecadados na natação um outro, este de bronze, ganho com a equipa americana de polo aquático, quatro anos antes, em Paris.

Johnny Weissmuller nasceu no Império Austro-Húngaro, em Szabadfalva (hoje, o território pertence à Roménia e Weissmuller teria nascido perto de Timisoara). A 5 de Junho de 1904, Peter e Elisabeth Weissmuller batizam o seu filho de Johann Weissmuller, três dias depois do seu real nascimento. Segundo o registo, ficou oficializado como János Weissmuller, nome que rapidamente se converteu em Johnny, influenciado pelo inglês, um ano mais tarde, quando a sua família chegou ao porto de Ellis Island, em Nova Iorque.

É já no estado da Pensilvânia, onde a família acabou por se fixar depois de uma passagem por Chicago, que nasce o irmão mais novo de Johnny, Peter. Apesar de apenas Peter ter nascido em território americano, nos censos de 1910, Johnny aparece como natural de Chicago, Illinois, algo que mais tarde o nadador clamaria ser verdade, numa tentativa de parecer 100% americano de forma a integrar a equipa de natação dos EUA para os Jogos Olímpicos. Mas já la iremos: Quando tinha nove anos, Johnny foi diagnosticado com poliomielite e foi a conselho do médico que se iniciou nas piscinas. 

Começou a nadar por recomendação do médico e acabou como um dos maiores de todos os tempos da natação olímpica (Créditos: Getty Images)

Foi para o Lane Technical College Prep High School, antes de desistir da escola e começar uma série de empregos, entre os quais o de nadador salvador na praia do Lago Michigan. Numa altura em que nadava como salvador do que nadador, ao mesmo tempo que trabalhava como operador de elevador no Illinois Athletic Club, o treinador William Bachrach viu-o em ação e sugeriu treiná-lo. Daí para a frente, Weissmuller deu as primeiras braçadas de uma curta, mas marcante carreira na natação mundial. Em agosto de 1921, venceu o seu primeiro campeonato nacional nas distâncias de 50 e 200 metros. Para competir deu o local  e data de nascimento do seu irmão, passando a contar como americano para os responsáveis da federação.

Um ano depois, quebrou o recorde do mundo dos 100 metros estilos, detido por Duke Kahanamoku, e colocando-o nos 58.6 segundos e baixando pela primeira vez a barreira de um minuto na categoria. No total, Weissmuller conquistaria 52 campeonatos nacionais americanos e bateria 28 recordes do mundo, mostrando ser o melhor nadador da sua geração e um dos melhores de sempre, sem par entre os seus opositores.

Foi sem surpresa que integrou a equipa de natação americana nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, mas foi com menos naturalidade que entrou na de polo aquático. Se sabia nadar, saberia marcar golos enquanto nadava. Pelo menos assim o pensaram os responsáveis americanos, que o colocaram na equipa de polo aquático e em boa hora, já que os americanos conquistariam o bronze nessas Olimpíadas. A esse terceiro lugar, Johnny juntou a medalha de ouro nos 100 metros estilos, onde pulverizou a concorrência de Duke Kahanamoku, e mais dois primeiros lugares nos 400 metros estilos e nos 4×200 metros estilos. Foram três primeiros lugares e uma história que começava a ser escrita: em toda a sua carreira, o Tarzan das piscinas nunca perdeu uma corrida. 

Johnny Weissmuller deu ainda algumas aulas de mergulho e natação ao longo da sua multifacetada carreira (Créditos: Getty Images)

Em 1927 bateria o seu próprio recorde dos 100 metros costas e colocaria a marca nos 51 segundos, registo que se manteve durante 17 anos como o melhor da categoria. Tornou-se ainda o primeiro atleta a colocar o tempo dos 400 metros estilos abaixo dos cinco minutos.

Os resultados eram cada vez melhores e o seu lugar na equipa americana era indiscutível, com Johnny a liderar a formação dos Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de 1928, em Amesterdão. Aí voltou a limpar a concorrência e arrecadou o ouro nos 100 metros e nos 4×200 metros estilos, totalizando os cinco primeiros lugares olímpicos da sua carreira, naquelas que seriam as últimas Olimpíadas da sua vida. Isto porque, se desportivamente nem foi a melhor competição de Johnny, em termos de notoriedade, a sua reputação rebentou: com um corpo de fazer inveja a qualquer culturista e resultados desportivos acima dos concorrentes, Johnny tornou-se uma celebridade, para além do nadador. Foi talvez o primeiro grande fenómeno, um galã, sem dúvida, que viria a transformar em ouro tudo o que tocava.

Assim foi, quando, já depois de de tornar vegetariano ao adotar a dieta de John Harvey Kellogg (sim, o que inventou os cereais, em 1894), enveredou pela carreira de ator. A MGM precisava de um novo protagonista para a saga de filmes Tarzan e Cyril Hume, que trabalhava na adaptação do filme, esbarrou com Johnny Weissmuller a nadar na piscina do hotel e viu no escultural corpo do nadador o perfeito saltador de árvore em árvore. Da ideia à prática foi um saltinho: Weissmuller tinha acordo com a BVD para ser modelo de roupa interior e fatos de banho, mas a MGM rapidamente chegou a acordo para colocar estrelas femininas no lugar do atleta e levou-o consigo para as gravações do filme. Com o rótulo de ‘o único homem em Hollywood que é natural em carne e osso e que pode atuar sem roupa’, Johnny esgotou as bilheteiras em três tempos e levou as fãs ao delírio. De tal maneira que a MGM convenceu o ator a divorciar-se da mulher a troco de 12.000 euros, tornando-o assim mais apetecível para o público feminino.

A saga foi um sucesso até 1942. Foram 13 anos na ribalta, 13 filmes do Tarzan e um legado deixado pelo mais icónico homem de tanga, criador do grito de liberdade mais famoso da história do cinema. Com a saga a decair nos interesses do público, a MGM deixou o filme cair, assim como o seu ator principal. Weissmuller ainda protagonizou outros filmes e sagas, como Jungle Jim, com 13 edições, mas acabaria por deixar o cinema. Mudou-se para Fort Lauderdale, na Florida, onde abriu o seu próprio negócio. Fez algumas aparições públicas até aos anos 70, mas mais tarde acabou por se mudar para Acapulco, no México, onde faleceu com 79 anos, em 1984. Dos seus últimos dias, pouco se sabe. Há quem diga que prolongou a fama de galã e morreu a fazer “pequenos Weissmuller”, enquanto o seu filho, Johnny Weissmuller Jr. escreveu no livro Tarzan, My Father que “ninguém da família soube do seu destino final”. Dois finais de vida possíveis para um homem que viveu como se fosse duas pessoas.