Eu ainda sou do tempo em que o máximo de figura pública com o qual desejávamos cruzar-nos nas nossas rotinas era um actor de quinta linha que entrasse num anúncio a um banco. A minha versão de adolescente suburbana na Linha de Sintra nunca equacionaria que podia estar a passar na Reboleira e dar de caras com a maior estrela pop do planeta a ir deixar o filho ao treino de futebol. Nem sequer a minha versão de adulta, a ter a sua primeira casa alugada num bairro típico lisboeta (quando isso era barato, porque éramos só eu, velhotes e prédios devolutos), que num plano teórico podia agora cruzar-se com Madonna no Tejo Bar onde fui tantas vezes. Chamem-me parola, mas vou ao supermercado com outro alento, achando que posso encontrar a Material Girl a pedir para picar duzentos e cinquenta de vitela em promoção.

Nunca me cruzei com a minha vizinha de cidade, e tenho pena. Pena porque “Express Yourself” aos berros no Spotify ainda me salva um dia mau. E pena porque, lidas as gordas da entrevista à Vogue Itália, Madonna vive numa cidade muito diferente da minha. Na verdade, isto não me espanta nem chateia – há portugueses de famílias de renome, nascidos e criados cá, que vivem num palácio de ilusão e vidros fumados bem mais espessos do que aquela que é uma das pessoas mais famosas do planeta há décadas.

Uma vez tive uma conversa com o neto de uma dessas grandes famílias que volta e meia aparecem a representar Portugal na Forbes e contou-me que a maior aventura da sua vida era ter uma vez fugido para apanhar à socapa um comboio da CP da Linha de Cascais, só para ver como era. Achou “giríssimo” e disse não perceber porque se queixam os passageiros rotineiros porque aquilo até era com vista para o mar. Posto isto, ter a Madonna a comparar-nos com Cuba nem me faz levantar o sobrolho.

Madonna completa agora 60 anos (a 16 de Agosto), idade que leva as más línguas a classificá-la como velha. Velha mesmo, nem sequer é na categoria de Cota Enxuta, que essas são as que saíram agora dos trintas. O cruel culto da aparência, que é tão mais ancestral que os filtros de Instagram, acha que ela já devia ter parado de ser uma gaiteira há duas décadas. Ora Madonna tem apenas mais três anos do que George Clooney, uma das definições de dicionário de sexyness masculina. Mas isto dava outro texto. Este serve para assinalar o aniversário da cantora (e actriz, mas esqueçamos as coisas tristes), apesar de ainda agora ter ido à caixa do correio e ter constatado que, efectivamente, não me chegou ainda nenhum convite para a festa.

Ó Mads (posso tratar-te por Mads? Posso interpelar directamente a primeira cantora de quem gostei na vida?), eu nem sequer precisava de um dos teus polémicos lugares de estacionamento, que o 742 da Carris passa mesmo aí à porta. Mas olha, seguem sugestões de prendas que te podiam ajudar a dar respostas mais interessantes sobre Lisboa e Portugal da próxima vez que a Vogue te fizer perguntas.

“Os Meus Problemas”, livro de Miguel Esteves Cardoso

“Os Meus Problemas”, de Miguel Esteves Cardoso

A edição original deste livro de crónicas é de 1988, mas não te preocupes – as pedras basilares da portugalidade não mudaram muito desde aí, mesmo com mais autoestradas e estádios e restaurantes que servem comida em ardósias. É uma maneira enxuta e divertida de perceberes como é viver neste país e, suspeito, vai ajudar-te a perceber melhor porque é que estão demorar tantos dias a ir a tua casa colocar a tv por cabo. Podes também ir a uma Loja do Cidadão, mas é ligeiramente menos aprazível.

Bilhete para o festival Bons Sons

Bem sei que chego tarde com esta prenda, porque a edição deste ano já foi. Mas fica já para 2019, a não ser que tenhas nos planos trocar-nos por Madrid num futuro próximo. O festival tem apenas música portuguesa e é uma óptima oportunidade de veres o que se passa para além dos tais palacetes de Alfama onde te recebem com velas acesas (um perigo, cachopa, que um carro de bombeiros não cabe nas ruelas de Alfama). Este ano, por exemplo, teve Conan Osiris, Lena D’Água, Salvador Sobral, Linda Martini, Sara Tavares, Dead Combo, entre muitos outros. Além disso, passa-se na lindíssima aldeia de Cem Soldos, ali para os lados de Tomar, com um envolvimento único com a terra e a sua população.  A malta da Vogue ia-se passar da marmita.

DVD do filme “Aquele Querido Mês De Agosto”, de Miguel Gomes

Antes do resto, precisas de saber que o filme retira o seu título de uma canção do Dino Meira, que também devias ouvir, de preferência enquanto viras minis com um emigrante que veio passar o Verão a Vila Nova de Cerveira. O filme, que mistura ficção e documentário, é feito essencialmente por actores não profissionais – e todos tinham feito uma melhor Evita do que tu, lamento. O filme foi rodado durante os verões de 2006 e 2007, em aldeias de Arganil, Oliveira do Hospital, Góis e Tábua, durante as festas de Verão. Mostra o português naquele que é um dos seus mais fundamentais habitates naturais: as festas da terreola. E se precisas de alguma intelectualidade para abraçares que deves ver este filme, fica a saber que na altura estreou na Quinzena dos Realizadores, em Cannes. Fino!

CD “O Melhor de António Variações”

Nós tivemos a nossa própria Madonna nos anos 80, sabes? Alguém que também juntava um look próprio e camaleónico com canções pop tão orelhudas que até hoje ninguém o bate. A discografia é curta, mas ainda influente. Filho de camponeses de Amares, em Braga, foi balconista, caixeiro e cabeleireiro. Infelizmente, morreu muito cedo, com 39 anos. Mas ao menos não foi gozado por ser sessentão, como tu és agora.

“O Retorno”, livro de Dulce Maria Cardoso

“O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso

Sei que és uma grande interessada na música dos PALOP, da morna ao kuduro. Ora a nossa colonização não é um tema pacífico. Até o tal Museu das Descobertas está envolto em polémica. Não é fácil explicar o que se passou depois do 25 de Abril, mas este romance ajuda bastante. Conta a história de Rui, um adolescente retornado que vive durante mais de um ano com a família num hotel. Não, não é nada como quando tu ficaste na suite do Pestana enquanto procuravas casa.

“Os Maias”, livro de Eça de Queirós

“Os Maias”, de Eça de Queiroz

Não devo estar a ser original, porque de certeza que alguém já te disse que a tua humilde casinha é uma das que inspirou Eça a criar o Ramalhete, a casa onde moravam os Maias. O início do livro tem uma descrição especialmente detalhada da casa, que exauriu muitos estudantes de secundário ao longo das décadas, mas para ti deve ser giro. Ainda tiras umas ideias de decoração, como se fosse a Casa Cláudia.

“Caras Baratas”, antologia de Adília Lopes

“Caras Baratas”, de Adília Lopes

És uma feminista, algo que se percebe logo nas letras das canções. Mas às vezes falta-lhes alguma crueza, sabes? Sim, estou ciente do teu álbum “Erótica” – mas acho frouxo quando comparado com o poema da grande Adília “Meteorológica”, que termina assim: “um dia tão bonito e eu não fornico”. Se isto não é ser a maior…

Almoço no “Rui dos Pregos” de Mem Martins

Anda lá, que eu pago. Sim, eu sei que este restaurante também há nas Docas e em Belém, mas esta é a minha terra e tu também já és, na verdade, uma suburbana da grande Lisboa quando vais aos tais treinos de futebol da Reboleira. Aceita que dói menos. São dois pregos mal passados e dois panachê?

Se nada disto te aprouver, querida Madonna, tenho um conhecido ricaço que recomenda imenso uma viagem no comboio da Linha de Cascais. Podes usar o meu passe recarregável. Não tens de quê.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa