A administração da CP assume que a demora na autorização do Governo para contratar trabalhadores para a Emef, empresa do grupo responsável pela manutenção dos comboios, teve um “forte impacto na operação” da operadora. Este impacto já foi sentido no primeiro semestre do ano, mas tem vindo a agravar-se nos meses posteriores, com falhas no serviço, supressões de comboios e redução da oferta.

No relatório e contas do primeiro semestre, a empresa diz que entre 2016 e 2017, a sua participada Emef  “fez vários pedidos de autorização para a contratação de trabalhadores. Contudo a mesma só se veio a concretizar em julho de 2018, para recrutamento de 102 trabalhadores. Essa autorização foi anunciada pelo ministro do Planeamento e Infraestruturas, Pedro Marques, mas a decisão também depende do Ministério das Finanças que reforçou as cativações de despesa para a ferrovia com a publicação do decreto lei de execução orçamental em maio.

Governo aumentou cativações na ferrovia em 20 milhões

A CP sublinha ainda que a “insuficiência de recursos humanos acabaria por limitar a capacidade de resposta das empresa (Emef) às necessidades dos seus clientes, nomeadamente da CP, com forte impacto na operação da mesma”. Para além de tardia, a decisão pode ainda pecar por insuficiente para compensar a saída de quadros experientes para a reforma. Só este ano, abandonaram a Emef 50 colaboradores, ou seja, quase metade dos novos contratados. Desde o final de 2010, a sangria de trabalhadores da empresa de manutenção da CP levou perda de quase 500 colaboradores.

Para uma operadora que tem uma frota envelhecida, o último contrato para compra de comboios tem mais de 20 anos, a capacidade de manutenção é uma ferramenta fundamental para manter operacional o material existente e assegurar a oferta para uma procura que até tem vindo a crescer. Até junho, o número de passageiros cresceu 3,2%, apenas o serviço regional perdeu pessoas. O aumento das receitas contribuiu para a redução dos prejuízos em 6% para 54,5 milhões de euros. Curiosamente outro fator que ajudou os resultados foi a diminuição dos gastos em conservação e reparação de material circulante, o que está a ter consequências negativas na qualidade do serviço da CP.

A empresa reconhece essa degradação e aponta para os vários constrangimentos que afetaram a qualidade do serviço: o agravamento das condições da infraestrutura, as greves ocorridas e o aumento da taxa de indisponibilidade do material por falta de capacidade produtiva da Emef.

Os alertas da administração da empresa, são conhecido uma semana antes da audição no Parlamento do presidente, Carlos Nogueira, e são reforçados pelo conselho fiscal no parecer às contas semestrais.

Para além da necessidade de apoio financeiro do Estado, face a prejuízos acumulados, a “continuidade e sucesso da atividade operacional do Grupo CP (…), mas também do impacto dos constrangimentos decorrentes do adiamento da concretização dos investimentos no rejuvenescimento do material circulante, na infraestrutura ferroviária, e do reforço da força de trabalho especializado dos diferentes níveis e áreas funcionais, em particular dos serviços de manutenção e reparação de material circulante”.

A CP aguarda também luz verde do Governo para lançar um concurso para a compra de material circulante que ainda não foi dada.

São ainda deixados avisos para as consequências da liberalização do transporte de passageiros e para a necessidade de contratualizar o serviço público de “forma a assegurar a sustentabilidade do grupo empresarial CP”. Mais um passo que o Governo que ainda não tomou.

O Estado até injetou 36,9 milhões de euros no capital da CP e vai realizar mais 18 milhões de euros em setembro, mas uma parte deste valor foi utilizada para financiar o serviço da dívida junto do próprio Estado, e pagar responsabilidades com os trabalhadores. Só uma parcela não identificada serviu para financiar investimentos.

A empresa revela ainda que teve de pagar os valores alfandegários devidos com tabaco rouvado, apesar de ter sido lesada neste processo.