Cerca de quatrocentas pessoas manifestaram-se esta terça-feira na capital da República Centro-Africana (RCA), Bangui, contra uma petição de deputados que visa a destituição do presidente do parlamento, Karim Meckassoua, testemunhou a AFP.

“Meckassoua deve continuar!”, gritavam os manifestantes, entre os quais numerosos habitantes do PK5, o bairro onde está a maioria dos muçulmanos em Bangui.

A manifestação partiu do PK5 até ao quartel-general da MINUSCA [Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana].

Esta terça-feira, a petição já tinha sido assinada por 95 dos 140 deputados. Meckassoua é deputado pelo terceiro círculo de Bangui, que inclui o PK5.

Segundo o regulamento do parlamento, depois da receção da petição, deve ser feita uma votação sobre a destituição, que será aprovada se recolher dois terços dos votos, o que significa 93. Várias fontes indicam o dia de sexta-feira como o mais provável para a votação ser feita.

O presidente da República Centro-Africana, Faustin-Archange Touadéra, é cristão e Meckassoua muçulmano, pelo que a eleição deste para a presidência do parlamento, em 2016, foi lida como um sinal de reconciliação, depois dos confrontos entre milícias — Seleka e antiBalaka –, que usaram o fator religioso para se legitimarem.

Mas, neste país onde a influência política permanece comunitária em parte, as relações entre os dois homens nunca foram boas.

Em 2017, circularam rumores de golpes de Estado, com próximos de Touadéra a acusarem publicamente Meckassoua.

Em março, um próximo de Touadéra foi eleito vice-presidente do parlamento: uma vontade, segundo os observadores na altura, de minar a autoridade de Meckassoua.

A petição e a tentativa de destituir Meckassoua parece serem dirigidas pela presidência centro-africana, que desejaria colocar um dos seus apoiantes a dirigir o parlamento, segundo vários deputados questionados pela AFP.

Mathurin Dimbélet Makoé, o segundo vice-presidente do parlamento, na sexta-feira, em declarações à imprensa, acusou Meckassoua de ter “confiscado dossiers essenciais para os deputados” e evocou uma “opacidade na gestão financeira” da Assembleia.

Em 01 de outubro, durante o reinício dos trabalhos parlamentares, Karim Meckassoua fustigou as tentativas em curso para o destituir: “Isso seria um golpe, uma tentativa de desestabilização de uma instituição relevante e uma violação da Constituição”.

E avisou: “Não me vou deixar conduzir ao altar dos sacrifícios sem lutar”.

A República Centro-Africana caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por vários grupos juntos na designada Séléka (que significa coligação na língua franca local), o que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-balaka.

O conflito neste país, com o tamanho da França e uma população que é menos de metade da portuguesa (4,6 milhões), já provocou 700 mil deslocados e 570 mil refugiados e colocou 2,5 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda humanitária.

O governo do Presidente Faustin-Archange Touadéra, um antigo primeiro-ministro que venceu as presidenciais de 2016, controla cerca de um quinto do território.

O resto é dividido por mais de 15 milícias que, na sua maioria, procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão, bloqueio de vias de comunicação, recursos minerais (diamantes e ouro, entre outros), roubo de gado e abate de elefantes para venda de marfim.

Portugal está presente no país desde o início de 2017, no quadro da MINUSCA.

No início de setembro, o major-general do Exército Marco Serronha assumiu o cargo de 2.º comandante da MINUSCA.

Aquela que já é a 4.ª Força Nacional Destacada Conjunta no país é composta por cerca de 160 militares e iniciou a missão em 05 de setembro.

Portugal também integra a Missão Europeia de Treino Militar-República Centro-Africana (EUMT-RCA), comandada pelo brigadeiro-general Hermínio Teodoro Maio.

A EUTM-RCA, que está empenhada na reconstrução das forças armadas do país, tem 45 militares portugueses, entre os 170 de 11 nacionalidades que a compõem.