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No desempenho a matemática, a ciência e a leitura o fosso entre estudantes de diferentes contextos socioeconómicos diminuiu nos últimos anos, embora de forma envergonhada, segundo o mais recente relatório da OCDE. Em Portugal, há boas e más notícias: somos um dos quatro países que conseguiu reduzir o fosso entre ricos e pobres quando se analisa o sentido de pertença à escola, mas, em contrapartida, 80% dos alunos de classes desfavorecidas não estão satisfeitos com a vida.

Na disciplina de matemática, Portugal foi um dos 15 países que melhorou a igualdade no desempenho escolar, mas não conseguiu fazê-lo a ciências. No entanto, nesta disciplina, é um dos seis países onde estar numa escola com ambiente cultural e social diverso ajuda os alunos desfavorecidos a melhorarem o seu percurso.

Estas conclusões fazem parte do mais recente relatório da OCDE sobre educação, “Equity in Education: Breaking down barriers to social mobility” (Igualdade na educação: derrubar barreiras à mobilidade social). A conclusão geral do estudo é que, embora com pequenos passos de cada vez, a igualdade na educação está a melhorar. No entanto, o cenário global está longe de ser positivo quando se comparam os resultados de diversos anos e Andreas Schleicher, diretor de Educação daquela organização, escreve no preâmbulo que “nenhum país no mundo pode reclamar ter inteiramente eliminado as desigualdade na educação”.

A igualdade na educação, tal como é analisada no relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico, refere-se a quando o sistema educativo promove oportunidades de aprendizagem idênticas para todos os estudantes. Não é sinónimo de dizer que todos os estudantes tenham no final as mesmas notas, mas antes que as diferenças de desempenho académico e os níveis de bem-estar social não estão relacionados com as circunstâncias de onde vêm.

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Um mundo um bocadinho melhor

No texto que assina no relatório, Andreas Schleicher começa por dizer que o documento da OCDE fornece “dados convincentes” sobre como as oportunidades educativas têm relação direta com as disparidades sociais desde muito cedo na vida.

“Apesar de tudo isto ser bem conhecido, em muitos países, o código postal de um estudante ou o da sua escola continuam a ser os melhores preditores da qualidade de educação que aquele estudante vai adquirir. É particularmente desapontante ver que tão pouco foi feito no sentido de dar oportunidades iguais de sucesso a todas as crianças”, escreve o diretor de Educação da OCDE.

Depois de olhar para o copo meio vazio, Schleicher debruça-se sobre o copo meio cheio e refere que nada é definitivo. “O facto de a origem social ter diferente impacto no sucesso académico consoante o país, mostra-nos que nada é inevitável”, escreve. “Os resultados da Estónia, Hong Kong, Xangai e Vietname mostram-nos que o estudante mais pobre de uma região pode ter melhores resultados do que o estudante mais rico de outra.”

Para ilustrar Andreaseste ponto de vista, Schleicher sublinha ainda que, na média da OCDE, “um em cada dez estudantes desfavorecidos estão entre os melhores alunos a ciências”.

No entanto, os avanços não foram, como diz Schleicher, significativos. Em 2006, no relatório PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), quando se olhava para as ciências, 14,4% da variação do desempenho era explicada pela origem socioeconómica do aluno. Em 2015, nove anos passados, a mesma média descia para 12,9%. Portugal esteve em contraciclo e subiu de 14,9% para 16,3%. Entre os países membros da organização, 11 melhoraram este indicador.

Quando se olha para a leitura, desta vez olhando para os PISA de 2000, 2009 e 2015, apenas 11 países melhoraram o indicador de forma constante (entre 35 com dados comparáveis) e Portugal não está entre eles, embora o balanço final seja positivo. Por cá, primeiro piora-se (sobe de 15,7% para 16,4%), depois melhora-se (13,5%).

Olhando para as médias da OCDE, no PISA 2000, 14,3% da variação no desempenho da leitura é explicada por diferenças socioeconómicas e, em 2015, a média desce para 11,9%.

Se não se distingue na leitura e nas ciências, Portugal consegue fazê-lo quando se analisa o mesmo indicador no desempenho a matemática, segundo os relatórios de 2003 e 2015. O país está entre os 15 estados que conseguiram reduzir a diferença de desempenho explicada pela origem do estudante, embora os valores ainda estejam abaixo da média da OCDE (baixa de 16,9% para 13,1%, Portugal fica nos 14,2% em 2015).

O bem-estar dos alunos desfavorecidos

A interferência da origem social dos alunos não fica pelo desempenho académico. Outros fatores, relacionados com o bem-estar dos estudantes também foram analisados.

Em média, só 26% dos alunos desfavorecidos (contra 33% dos favorecidos) estão satisfeitos com a sua vida, valor que em Portugal é bastante mais baixo: mais de 80% dos estudantes de classes sociais mais baixas dizem não estar contentes com a vida que levam. Do outro lado, estão a Finlândia, a Holanda e a Suíça com a maior percentagem de alunos satisfeitos ou emocionalmente resilientes, como lhes chama o estudo.

Outro fator analisado é o sentimento de pertença à escola. Tal como o indicador anterior, embora haja uma vantagem para os alunos de classes favorecidas, a diferença não é muito grande, aponta o relatório da OCDE. No PISA 2015, a média da organização mostrava que 77% dos alunos de classes sociais mais altas e 69% dos estudantes desfavorecidos dizem sentir que pertencem à comunidade educativa.

Este indicador só foi melhorado em quatro países: Portugal, Bulgária, Holanda e Japão.

As soluções apontadas pela OCDE

Com esta análise, o documento da OCDE diz haver várias lições para serem aprendidas. “A primeira é começar cedo e promover o acesso à educação na infância que pode ajudar as crianças a adquirir competências sociais e emocionais, principalmente as originárias de famílias desfavorecidas”, lê-se no relatório.

Por outro lado, aconselha os países a definir objetivos ambiciosos e a monitorizar o progresso de alunos de classes baixas, afetando mais recursos a estes estudantes, às escolas onde estes se encontram e, ao mesmo tempo, evitar a concentração de alunos de alunos desfavorecidos na mesma escola.

Por último, deixa uma nota para os recursos humanos: é fundamental, defende-se no relatório da OCDE, desenvolver as capacidades dos professores para identificar as necessidades dos alunos e saber lidar com a diversidade na sala de aula, ao mesmo tempo que devem encorajar os encarregados de educação a estar mais envolvidos na educação das crianças.