Uma conferência sobre exportação musical promovida pela plataforma Why Portugal, que tem como função apoiar a projeção da música portuguesa no exterior, decorre esta quinta-feira, 15 de novembro, e sexta-feira, 16, no teatro Miguel Franco, em Leiria. Junta músicos, promotores de concertos e festivais (nacionais e internacionais), pequenas editoras, associações do setor, redes de circulação de artistas na Europa, a nova ministra da Cultura, Graça Fonseca, deputados e uma agência estatal de apoio à internacionalização económica (a AICEP).

Se a presença de um número importante de agentes da música nacional (muitos dos quais, embora não todos, trabalham em estruturas independentes de pequenas e média dimensão) na convenção é relevante, a junção de agentes do setor com representantes de redes internacionais e instituições e personalidades públicas, como a ministra da Cultura, constitui mais um passo no crescimento da Why Portugal, que nasceu como um grupo de trabalho da Associação de Músicos Artistas e Editoras Independentes (AMAEI) e se tornou dela autónoma em 2016.

Atualmente, a plataforma funciona como gabinete de exportação da música (sobretudo, mas não só, emergente) portuguesa. Isto apesar de ter nascido fora da esfera pública . Em 2017, a Why Portugal trabalhou pela primeira vez com uma entidade de apoio económico do Estado, a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), numa missão que levou 21 músicos e bandas nacionais ao festival Eurosonic, na Holanda. O Eurosonic é uma das grandes montras de talento para os músicos que têm intenção de apresentar-se a programadores internacionais de concertos e festivais.

De 2017 para cá, a Why Portugal tem intensificado iniciativas de apoio à exposição internacional da música portuguesa, conseguindo apresentar este ano vários músicos nacionais no festival austríaco Waves Vienna (que dedicou a edição à descoberta da música portuguesa) e promovendo “workshops de capacitação, missões inversas” — porque as associações que promovem a circulação de músicos precisam, para ter sucesso, de ser tão “compradoras” como “vendedoras” de artistas — e ainda “prospeções e outras apresentações internacionais”.

A escolha da cidade que acolhe a conferência, Leiria, não é um acaso. O presidente da Why Portugal, Hugo Ferreira, é também fundador da editora de música independente Omnichord Records, sediada na mesma localidade. Nos últimos anos, os projetos musicais desta editora têm sido levados a vários festivais e salas de espetáculo internacionais, consolidando uma carreira fora de portas no universo da música independente. Os exemplos mais notórios e de maior sucesso são a multi-instrumentista Surma (Débora Umbelino) e o grupo First Breath After Comma. O objetivo de Hugo Ferreira e da Why Portugal é reforçar e estender essa projeção internacional de artistas a músicos e bandas de outras editoras e coletivos nacionais, de diferentes dimensões.

MIL e Westway Lab. Estes festivais querem vender Portugal, canção a canção

Os convidados internacionais

Dois anos depois do seu início como entidade autónoma de apoio à internacionalização em bloco da música portuguesa, a Why Portugal diz que é “a altura ideal para o setor fazer um balanço e definir estratégias”. Daí a reunião, em Leiria, dos profissionais da indústria nacionais com profissionais das indústrias musicais de outros países, e também da Why Portugal com instituições cuja atividade, referem em comunicado, cruza-se com (e beneficia de) “a promoção e exportação da música nacional”.

Entre as instituições internacionais que se fazem representar em Leiria nestes dois dias estão o gabinete de exportação da música francesa Bureau Export, a rede de circulação de artistas ETEP (European Talent Exchange Program), a associação que junta mais de 20 gabinetes de exportação musical de países europeus, EMEE (European Music Exporters Exchange), o programa Europa Criativa Eurosonic — iniciativa da União Europeia de apoio à exposição de talentos neste festival holandês — e as publicações musicais Gigwise (britânica) e NBHAP (alemã).

A estas instituições, juntam-se representantes da rede de promoção e cooperação europeia em festivais e concertos showcase (eventos que tentam dar a conhecer músicos emergentes) INES — Innovation Network of European Showcases e a rede de concertos de promoção de artistas europeus emergentes Liveurope por mais de 20 salas de espetáculo europeias (entre as quais está, por exemplo, a do clube lisboeta Musicbox).

A sala de concertos Musicbox, no Cais do Sodré, integra a rede de salas europeias Live Europe, destinada a promover a circulações de artistas europeus pelos vários países do Velho Continente

Os convidados nacionais (e os debates)

Entre as entidades nacionais, além da já referida AICEP (pública e tutelada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros), estarão representadas a Associação de Músicos, Artistas e Editoras Independentes (AMAEI), a Associação para a Gestão e Distribuição de Direitos do setor (Audiogest), a Câmara Municipal de Leiria, a Fundação Calouste Gulbenkian, a fundação artística GDA, os grupos parlamentares da Assembleia da República, o Ministério da Cultura e as estações públicas de audiovisual RDP/Antena 3.

Os temas discutidos durante os dois dias serão amplos. Esta quinta-feira, 15, decorreram painéis de discussão sobre “a música atual como cultura e indústria criativa: o peso económico da internacionalização e os apoios à internacionalização” (debatida por representantes da AICEP, Fundação GDA, Audiogest e Opium), sobre “a música como atração cultural” (debatida por representantes e programadores dos festivais Bons Sons, Jardins Efémeros, Tremor e SuperNova, pela agência Algarpalcos e por um porta-voz da associação de festivais Aporfest, entre outros) e ainda sobre “o futuro da internacionalização da música portuguesa”, que será alvo de debate entre Márcio Laranjeira (da editora independente Lovers & Lollypops), Ana Miranda (da organização Arte Institute), Sara Simões (Produtores Associados) e representantes de grupos parlamentares (não nomeados).

Houve ainda uma sessão em inglês sobre “a importância da música a nível europeu”, com o porta-voz do grupo internacional que reúne gabinetes de exportação de música de mais de 20 países (EMEE), Corinne Sadki, e com um porta-voz do festival Eurosonic e da rede de circulação europeia de músicos ETEP, Jildau Stoelwinder.

Na noite desta quinta-feira, vão ouvir-se os portugueses Surma, O Gajo, Vaarwell e GrandFather’s House em concerto. A escolha dos artistas “esteve a cargo de jornalistas internacionais de países como o Reino Unido e a Alemanha e de vários meios, nomeadamente a Gigwise [britânica] e a Nothing But Hope and Passion [alemã]”, refere a Why Portugal em comunicado.

Já na sexta-feira, 16 de novembro, discutir-se-á a importância dos projetos europeus no contexto da internacionalização musical. Haverá ainda uma mesa redonda com “managers e artistas” nacionais que irão debater a exportação do setor (esta conta por exemplo com a presença de Fernando Ribeiro, dos Moonspell, um dos grupos portugueses com maior projeção internacional das últimas décadas) e um debate sobre “as primeiras impressões” de jornalistas internacionais sobre a atual música portuguesa.

No final da conferência, a plataforma Why Portugal divulgará números referentes ao trabalho desenvolvido nos últimos dois anos, esperando-se ainda uma reflexão da ministra da Cultura Graça Fonseca sobre o peso e importância que a indústria musical, particularmente a independente, tem (ou não) para o país e para o seu governo. O acesso à conferência está sujeito a registo.

Programa de sexta-feira na íntegra:

10h00: A importância dos projectos Europeus no contexto da internacionalização

O Europa Criativa, actual programa Europeu de apoio à cultura, tem financiado vários projectos na área da música com parceiros nacionais. Neste painel abordamos a importância destes projectos Europeus no contexto da internacionalização.

Francisco Cipriano (Fundação Calouste Gulbenkian)
Pedro Azevedo (Musicbox / Live Europe)
Ricardo Freitas (Westway Lab / INES / ETEP)
Susana Costa Pereira (Europa Criativa)
Moderador: Sara Espírito Santo (Sara Does PR)

11h00: MMETA – Music Moves Europe Talent Awards Presentation

A Comissão Europeia lançou este ano as ações preparatórias “Music Moves Europe”, de forma a preparar o programa de apoio à Cultura, e especificamente à música, no próximo quadro pós-2020. Dentro das suas primeiras ações apresentam-nos o Music Moves Europe Talent Awards, que vem substituir os antigos EBBA awards: European Border Breaker Awards. Jildau Stoelwinder, do Eurosonic, apresenta-nos estes novos prémios.

Jildau Stoelwinder, Eurosonic

11h30:  Coffee Break

12h00: Roundtable de Managers e Artistas para o futuro da internacionalização da música portuguesa

Vários managers e artistas discutem as suas experiências, boas práticas e ideias para fomentar a internacionalização da música portuguesa.

Ana Paulo (Fado In The Box)
António Cunha (UGURU)
David Santos (Noiserv) 
Fernando Ribeiro (Moonspell) 
Rui Murka (Let’s Get lost)  
Moderador: John Gonçalves (The Gift)

14h30: Journalist Reviews: international journalists discuss first impressions about current portuguese music

Os jornalistas convidados pela WHY Portugal, que selecionaram os artistas da noite anterior, discutem as suas impressões sobre a actualidade musical portuguesa, com moderação de Luís Oliveira, que também acompanhou as missões da WHY Portugal no Eurosonic Country focus 2017 e no WAVES Vienna Country Focus. 

Cai Trefor (Gigwise, UK)
Norman Fleisher (Nothing But Hope And Passion, DE)
Moderador: Luís Oliveira (RDP / Antena 3) 

15h30:  Sessão de Encerramento com a apresentação de resultados pela  WHY Portugal e com a presença e intervenção da Ministra da Cultura, Graça Fonseca.

Nota — Numa versão anterior deste texto, a plataforma Portugal Music Export era apresentada como tendo sido “idealizada” por José Sócrates. Na verdade, foi um protocolado assinado pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), pela plataforma GDA (Gestão dos Direitos de Artistas) e pela Ministra da Cultura do Governo de José Sócrates, Gabriela Canavilhas. O fim do projeto, que teve curta duração, foi alvo de polémica e trocas de acusações políticas.