Havia um grande negócio que poderia provocar um “efeito dominó” no mercado de transferências mas o PSG, sem Neymar nas próximas dez semanas, acabou por falhar as abordagens a Özil, Willian e Gueye, a quem terá feito mais do que uma proposta (a última de 30 milhões de euros). Havia um possível negócio surpresa que não deixaria de ser interessante mas a Juventus acabou por não contratar mais nenhum central (e Bruno Alves foi um dos nomes mais falados ao longo do dia). Assim, houve apenas mercado. Aquele mercado de entradas e saídas normal, de acertos nos plantéis, de equações e cortes na massa salarial, de garantias já a pensar na próxima temporada. Ainda assim, de Portugal às grandes ligas europeias, há dez ilações a retirar.

FC Porto assegura Loum, Benfica resolve “problemas”, Sporting à espera por Acuña: o último dia de mercado

Na Primeira Liga, os três “grandes” tiveram cada um o seu statement: o FC Porto reforçou o plantel para ter outra margem entre Campeonato, Taça de Portugal e Liga dos Campeões, onde defrontará a Roma nos oitavos; o Benfica tratou da situação de todos os jogadores que estavam a mais (assumindo com isso erros no verão), não contratou ninguém e mantém-se fiel a um projeto cada vez mais virado para a aposta nos valores saídos da sua formação; o Sporting, que pode ainda vender Acuña – porque o mercado russo não fecha esta noite –, tentou equilibrar o plantel, colmatou lacunas mas conheceu os seus limites que pareciam esquecidos depois de um ano negro de 2018. Pelo meio, também o Sp. Braga, sem contratar, atuou como um “grande”.

Lá fora, o Barcelona passou de vencido em 2017 para vencedor na temporada de 2018/19; em sentido inverso, o PSG ficou aquém e já se fala com insistência na possibilidade de Antero Henrique poder deixar de ser diretor desportivo. Ainda em França, o Mónaco de Leonardo Jardim começou uma nova era e com muitas caras conhecidas; em Itália, a Juventus teve uma semana “negra” em torno dos centrais e já soam alguns alarmes. Mas houve mais novidades: China e Estados Unidos também vendem, Newcastle bateu o recorde da maior transferência e houve um jogador que rendeu o dobro em seis meses… sem jogar.

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FC Porto reforça plantel a pensar no Campeonato… e algo mais

O FC Porto teve entradas e saída cirúrgicas no plantel mas ganhou outra robustez na abordagem à segunda metade da época, onde tem, além do Campeonato, uma importante eliminatória da Champions frente à Roma que pode valer o regresso da equipa aos quartos da Liga milionária, algo que aconteceu apenas uma vez nos últimos dez anos (2014/15): na defesa, Pepe veio permitir não só outra rotação entre os centrais como a possibilidade de adaptação de Éder Militão à direita, ao passo que Wilson Manafá foi o escolhido para dar “descanso” a Maxi Pereira e Alex Telles; no meio-campo, Loum é um jogador com características mais semelhantes a Danilo que faltava ainda no plantel e que obrigava muitas vezes Herrera e/ou Óliver a jogarem mais recuados quando o internacional português ficava de fora; no ataque, Fernando Andrade era a peça em falta que tão depressa pode cair numa ala como atuar como segundo avançado. Apesar das condicionantes financeiras conhecidas, os dragões não só garantem um maior equilíbrio das opções como começam a precaver a mais do que provável saída de algum (ou alguns) dos titulares no verão. Em paralelo, saíram jogadores que não contavam para Conceição: Sérgio Oliveira, Bazoer e Chizodie. E ainda houve uma surpresa na última listagem divulgada pela Liga: Kelvin foi inscrito pelos azuis e brancos.

Loum foi um dos destaques do Moreirense na primeira volta, tendo marcado na Luz frente ao Benfica (FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images)

Benfica arruma a casa e Vieira vai assumir a sua estratégia (que é um risco)

Quando criticou de forma dura a atuação de Fábio Veríssimo como VAR na meia-final da Taça da Liga com o FC Porto, Luís Filipe Vieira deixou uma mensagem de confiança na equipa para o que resta da temporada, falando não só na prestação no Campeonato mas também na Europa; antes, o presidente do Benfica já tinha destacado em diversas ocasiões que o projeto do clube passa pelo Seixal e pela produção de talentos para o conjunto principal, como aconteceu com Rúben Dias, Gedson Fernandes ou João Félix, falando dos casos de maior sucesso. Entre uma e outra intervenção, ficou uma certeza: Rui Vitória pode ter saído mas não foi por falta de qualidade no plantel que isso aconteceu. Este mercado de janeiro foi o reflexo de todas essas ideias: o conjunto agora liderado por Bruno Lage cedeu alguns jogadores com pouco espaço na Luz (Varela, Lema, Alfa Semedo, Ferreyra ou Castillo), não fez nenhuma contratação e abre espaço para o aparecimento de mais jovens como Ferro, Florentino Luís, Jota ou Willock. Por um lado, há de certa forma uma admissão da má abordagem ao mercado no último verão – à exceção do guarda-redes Vlachodimos, mais nenhum reforço “pegou”; por outro, o assumir de uma estratégia – que não deixa de ser sempre um risco mas que permite não só segurar as principais pérolas como em paralelo baixar a folha salarial do plantel.

Ferreyra foi aposta forte dos encarnados para o ataque mas acabou por falhar a adaptação à realidade da equipa (Carlos Rodrigues/Getty Images)

Sporting não fez o melhor mas chegou ao possível. Mas ainda falta Acuña

Mudou o presidente, mudou a administração da SAD, mudou o treinador, mudou a estratégia no ataque ao mercado. Frederico Varandas trabalhou com Marcel Keizer para corrigir aquilo que faltava ao plantel: um central (Tiago Ilori), um lateral esquerdo (Borja), um médio mais defensivo (Idrissa Doumbia), um médio ofensivo (Francisco Geraldes) e um avançado (Luiz Phellype). Frederico Varandas foi trabalhando com o scouting para perceber as oportunidades que poderiam surgir, fosse para uma aproximação maior à formação principal (Gonzalo Plata e Matheus Nunes), fosse para evoluir na equipa B (Ronaldo de Souza). Frederico Varandas tentou ainda trabalhar com o mercado a médio prazo, garantido para a próxima temporada Luís Neto entre abordagens que foi havendo para aferir a situação de outros internacionais portugueses lá fora – que não o “desmentido” Adrien. Não foi a melhor janela de mercado para o Sporting, foi a janela possível e assumida dessa forma em termos internos, numa fase de recuperação desportiva do clube. No entanto, deixou um “problema” que poderá ficar resolvido em breve: a saída de Acuña para o Zenit, a qual o presidente leonino não recusa mas apenas se chegar aos 20 milhões. Se houver negócio, a venda está “acautelada”; não havendo, fica a dúvida de onde poderá cair esse dinheiro que teria impacto na SAD.

Acuña já tem um sucessor no plantel (Borja) mas ainda não houve acordo com o Zenit (PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images)

Depois de um verão onde foi ultrapassado, Barcelona conseguiu ultrapassar

Primeiro foi a saída de Neymar para o PSG; depois, a novela criada em torno da renovação de Messi; por fim, os astronómicos valores pagos por Coutinho e Dembelé quando Mbappé poderia não ter ficado muito longe desses montantes – e já poucos têm dúvidas que o prodígio francês tem tudo para marcar uma era no futebol europeu. As duas janelas de mercado de 2017 foram tudo menos conseguidas para o presidente do Barcelona, Josep Maria Bartomeu. O líder percebeu e fez questão de inverter essa realidade, algo que ficou mais uma vez refletido neste mês de janeiro: além de ter ganho a corrida ao PSG pelo holandês Frenkie De Jong, médio do Ajax que chegará no verão por 75 milhões de euros (mais 11 de variáveis), assegurou dois reforços por empréstimo para equilibrar a equipa (o central Murillo e o avançado Boateng), negociou a chegada antecipada de Tobibo, médio francês do Toulouse que já tinha sido contratado para o próximo verão a custo zero; e garantiu a permanência de Rakitic, que estava a ser muito cobiçado. Para finalizar o dia, o negócio mais “estranho”: Emerson deixou o Atl. Mineiro para reforçar o Betis, fica em Sevilha até 2021 a troco de seis milhões e, nessa altura, o Barcelona – que paga também seis milhões por esta operação – ou recompra os 50% do conjunto da Andaluzia ou cede os seus 50% garantidos neste dia 31 de janeiro de 2019.

Emerson foi protagonista do negócio mais “estranho” do dia 31, chegando a Espanha a meias entre Betis e Barcelona (Pedro Vilela/Getty Images)

O Real só pensa no futuro mas não sabe muito bem qual é o presente

A contratação de Brahim Díaz ao Manchester City, a única neste mercado de inverno, é o exemplo paradigmático do que é hoje o Real Madrid: um clube que se tenta renovar, que aposta em “sangue novo” para criar uma geração que esteja ao nível daquela que conquistou três Champions consecutivas mas que não sabe ao certo como será o seu presente. Santi Solari, que se tornou solução definitiva até ao final da temporada depois de ter subido da equipa B apenas como interino, sentiu a confiança de Florentino Pérez e deu início a uma espécie de “revolução silenciosa” no balneário – Isco deixou de ser opção em detrimento da aposta em Vinicius, Marcelo passou para o banco por troca por Reguilón, Casemiro chegou a perder lugar para Marcos Llorente e já se fala de um fim de linha para Sergio Ramos a médio prazo. É uma opção, lógica e válida, mas que também pode trazer erros de casting como aconteceu com Brahim Díaz, que custou 12 milhões de euros, jogou apenas 24 minutos desde o início de janeiro, continua fora das opções e não foi emprestado quando podia ter saído a custo zero no final da presente temporada.

Brahim Díaz, que era tido como grande promessa do Manchester City, não está a conseguir vingar em Madrid (Aitor Alcalde/Getty Images)

O início de uma nova era no Mónaco, o fim de uma era para Antero?

Duas realidades distintas mas com ligações a Portugal na Ligue 1. No Mónaco, que fez regressar Leonardo Jardim para o lugar de Thierry Henry com o objetivo de fugir à despromoção (depois de ter sido campeão em 2016/17…), houve o claro início de uma nova era, com nomes de peso para dar outra qualidade e estabilidade à equipa como Fabrègas, Gelson Martins, Adrien Silva, Naldo, Touré, Vainquer ou Georges-Kevin N’Koudou, quase todos por empréstimo. Não é propriamente um projeto a pensar no médio prazo, até pelas várias cedências temporárias, mas surge como “admissão” de uma estratégia que exagerou no número de vendas e mais valias em detrimento do plano desportivo, com os resultados conhecidos. Num outro plano, e apesar de ainda ter contratado Leandro Paredes, o PSG acaba por sair como grande derrotado do mercado (também pelas limitações impostas pelo fair play financeiro) e o lugar de Antero Henrique como diretor desportivo começa a ser cada vez mais colocado em causa. Özil, Willian e Gueye terão sido abordados esta semana, sem efeito. E já antes De Jong tinha assinado pelo Barcelona.

Antero Henrique foi uma forte aposta do PSG mas imprensa francesa diz que tem vindo a perder espaço (FRANCK FIFE/AFP/Getty Images)

Uma semana para esquecer no centro da defesa da poderosa Juventus

Vida e Bruno Alves foram apontados ao longo do dia como possíveis reforços da Juventus mas nenhum nome acabou por ter confirmação e existem já alguns alarmes na Vecchia Signora, até pela pesada derrota e consequente eliminação da Taça de Itália frente à Atalanta que levou mesmo a uma reunião esta manhã entre o presidente Andrea Agnelli e o treinador Massimiliano Allegri. Tudo porque foi uma semana negra a nível de centrais para a equipa: Benatia foi transferido para o Al Duhail, equipa do Qatar orientada pelo português Rui Faria, e chegou Cáceres, no regresso de um jogador polivalente que pode ser lateral, central ou defesa pela direita num sistema de três; depois, no jogo com a Lazio, Bonucci teve de sair ainda na primeira parte por lesão; agora, Chiellini foi substituído antes do intervalo também em dificuldades físicas. Do nada, um projeto sólido que ninguém questionava corre o risco de enfraquecer caso os problemas dos internacionais italianos obriguem a uma paragem mais longa.

Cáceres voltou a Turim na semana em que a Juve perdeu Benatia, vendido, Bonucci e Chiellini, estes por lesão (Emilio Andreoli/Getty Images)

A China e os Estados Unidos já não são apenas um El Dorado para os excedentários

Fellaini deslocou-se para a China no final deste mercado de inverno para acertar as condições e fazer exames médicos na equipa do Shandong Luneng, depois de ter acordado os valores da venda com o Manchester United. E ainda houve esta quinta-feira o caso de Léo Baptistão, avançado brasileiro do Espanyol que passou pelo Atl. Madrid e que assinou pelo campeão da Segunda Liga chinesa, o Wuham Zall. Ambos vão ganhar uma fortuna em termos salariais mas começa a existir uma nova tendência confirmada também nesta reabertura de transferências – as movimentações de lá para cá, não só no caso da China mas também nos Estados Unidos: Wu Lei, internacional que foi o melhor marcador do Shanghai SIPG de Vítor Pereira na caminhada para o título, assinou pelo Espanyol, ao passo que Miguel Almirón, paraguaio que se sagrou campeão pelo Atlanta United, assinou pelo Newcastle naquela que foi a maior transferência de sempre do clube (cerca de 24 milhões de euros) depois de Michael Owen.

Wu Lei, reforço do Espanyol, marcou 27 golos em 29 jogos do Campeonato chinês pelo Shanghai SIPG (PAU BARRENA/AFP/Getty Images)

A Premier League continua a dominar. E o maior exemplo veio do Newcastle

Não foi um dia propriamente agitado entre os principais clubes ingleses, com pequenas exceções como a contratação a título de empréstimo com opção de compra de Denis Suárez ao Barcelona por parte do Arsenal (além do negócio milionário do Chelsea com Pulisic, que sairá apenas de Dortmund para Londres no verão), mas as movimentações entre as equipas da Premier League confirmam que se trata do país que mais dinheiro consegue gerar no futebol – por uma questão histórica, pelas receitas que consegue gerar, pela exploração de outros mercados como o asiático ou pela centralização dos direitos desportivos, explicações não faltam. O Newcastle acaba por simbolizar esse poderio britânico, por ter completado no último dia de mercado a sua maior transferência de sempre: cerca de 24 milhões de euros pelo paraguaio Miguel Almirón, ex-Atlanta United.

Miguel Almirón é descrito pelo The Guardian como um dos maiores talentos de sempre saídos da Liga americana (Elsa/Getty Images)

É possível fazer dinheiro com um jogador que nunca jogou? Sim, até o dobro

Foi um dos primeiros negócios do último dia de mercado, foi provavelmente um dos negócios mais pitorescos do último dia de mercado a par da contratação de Emerson ao Atl. Mineiro por Barcelona e Betis: a contratação de Jonny Castro Otto. O lateral espanhol de 24 anos, que tanto pode alinhar à direita como à esquerda, fez quase toda a formação no Celta de Vigo, onde se estreou pela equipa principal em 2012 até ao último verão; aí, foi contratado pelo Atl. Madrid por um valor não confirmado em termos oficiais mas que foi apontado aos oito milhões de euros, assinando por seis temporadas; depois, acabou emprestado ao Wolverhampton, onde não só agarrou o lugar como deu nas vistas ao ponto de ser chamado à seleção. Agora, o conjunto liderado por Nuno Espírito Santo avançou com a compra do passe do jogador por um valor entre os 18 e os 20 milhões de euros. Ou seja, confirmando-se o preço de aquisição ao Celta, os colchoneros ganharam dez milhões… sem minutos de utilização.

Jonny Otto convenceu nos primeiros seis meses pelo Wolverhampton, que investiram 18 a 20 milhões no seu passe (Lynne Cameron/Getty Images)