Para os mais puristas que cingem os problemas do Sporting ao quotidiano do futebol, foi ali, em Espanha, que começou de forma mais visível o início da derrocada que eclodiu numa das maiores crises institucionais de sempre do clube. Nove meses e meio depois, o presidente é outro, o treinador é outro, metade da equipa é outra (juntando baixas por lesão, mudaram oito jogadores da formação inicial). Até os adeptos, sendo os mesmos, não pensam propriamente da forma que pensavam. Mas essa acabou por ser uma metamorfose assumida, num presente a cortar com o passado para projetar um futuro em que poucos acreditavam. Com a casa em cacos, os responsáveis agarraram nas poucas partes mais ou menos intactas e começaram a tentar criar um novo edifício, com um resultado que está longe de ser visto de forma unânime. Também foi essa a ideia de Keizer.

Depois de um início a todo o vapor do holandês, no mesmo 4x3x3 mas a dar maior largura e profundidade ao setor ofensivo da equipa para sete vitórias consecutivas com muitos golos à mistura, o modelo começou a esgotar. Esgotou porque, naturalmente, os adversário começaram a conhecer as dinâmicas coletivas. Mas também esgotou porque, em termos físicos, a equipa não estava preparada para jogar dessa forma de quatro em quatro dias – e as limitações no plantel para ir rodando jogadores são notórias, assumidas até pelo próprio presidente. E esgotou porque, em determinados compromissos, a ideia para aquele jogo em específico era demasiado distante da identidade que estava a ser criada, levando a que o conjunto leonino andasse perdido em campo. Por isso, o holandês começou a trabalhar um novo sistema tático, tal como já acontecera quando era técnico do Ajax e os resultados começaram a não aparecer. A primeira experiência, contra o Sp. Braga no domingo, foi um sucesso.

Olhando para o que se passou no último triunfo, para o Campeonato, o Sporting conseguiu arrancar a exibição mais consistente desde que Keizer chegou a Alvalade. Tudo porque, mantendo algumas dinâmicas e criando outras, os leões disfarçaram um telhado que foi sempre de vidro desde que começou a temporada – a defesa. O ataque, as manobras ofensivas e as transições atacantes nunca foram propriamente um problema. Por norma, até corriam bem; e quando isso não acontecia, percebia-se que era algo conjuntural. Em sentido contrário, as dificuldades nas transições defensivas foram sempre evidentes. De uma assentada, a formação verde e branco perdeu William Carvalho por venda e Battaglia por lesão. Elas continuam, agora com o aspeto bom de deixar menos exposta a defesa. Mas não foi por aí que os leões saíram da Liga Europa.

Imagem da confusão entre jogadores no lance que valeu a expulsão a Jefferson no início da segunda parte (PAU BARRENA/AFP/Getty Images)

Ponto prévio: o Sporting, em 15 jogos em Espanha, nunca tinha ganho (o melhor foram três empates); as equipas portuguesas, neste caso Benfica e FC Porto, também nunca tinham ganho no El Madrigal (um empate, uma derrota). Portanto, em termos históricos, já não era uma deslocação fácil. Depois, outro registo – apenas por uma vez os leões conseguiram dar a volta numa eliminatória em que começaram com uma derrota em casa (2010, Bröndby). E para completar ainda mais esse denso labirinto de dificuldades, um facto que chegou do jogo: nem um único toque na bola dentro da área adversária. Perante isto, pensar-se-ia que era impossível o conjunto nacional passar aos oitavos da Liga Europa. No entanto, e durante 50 minutos, o que jogou mostrou foi que a equipa leonina era tudo menos de cerâmica, a palavra incontornável na cidade de Villarreal (o próprio estádio, conhecido por El Madrigal, chama-se Estádio de la Cerámica); depois, Jefferson foi expulso por acumulação de cartões amarelos. E esse foi o lance que colocou o rótulo de material frágil num coletivo que merecia, pelo menos, cair de outra forma.

Ficha de jogo

Mostrar Esconder

Villarreal-Sporting, 1-1 (2-1 no agregado)

2.ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa

Estádio de la Cerámica, em Villarreal (Espanha)

Árbitro: Pavel Kralovec (Rep. Checa)

Villarreal: Andrés Fernández; Mario Gaspar, Funes Mori, Ruiz; Llambrich (Cazorla, 71′), Javi Fuego (Iborra, 63′), Trigueros, Pedraza; Fornals, Raba (Ekambi, 57′) e Moreno

Suplentes não utilizados: Asenjo, Álvaro, Morlanes e Quintillá

Treinador: Javier Calleja

Sporting: Salin; Tiago Ilori, Coates, Borja; Ristovski (Luiz Phellype, 83′), Gudelj, Wendel, Jefferson; Bruno Fernandes, Diaby (Raphinha, 77′) e Bas Dost

Suplentes não utilizados: Renan, André Pinto, Thierry Correia, Miguel Luís e Jovane Cabral

Treinador: Marcel Keizer

Golos: Bruno Fernandes (45+1′) e Fornals (80′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Jefferson (35′ e 50′), Bruno Fernandes (44′), Tiago Ilori (51′) e Moreno (51′); cartão vermelho por acumulação a Jefferson (50′)

Houve um pormenor curioso quando faltava ainda mais de uma hora para o arranque do encontro. Ao contrário do que é normal na Liga portuguesa, onde os onzes são conhecidos a 60 minutos do apito inicial (e está bem melhor porque houve tempos em que estavam no aquecimento e não se sabia quem jogava…), na UEFA é costume haver a entrega das equipas pouco depois da chegada ao recinto. Mais uma vez, esta noite, foi isso que aconteceu. Mas, no caso do Sporting, isso criou complicações: primeiro, ao invés do que acontecia com o Villarreal, não havia disposição tática; depois, havia um 4x3x3 onde Borja seria o lateral direito, Jefferson jogaria como central, Ilori ficaria na esquerda e Ristovski seria um médio interior. Marcel Keizer, que surpreendeu nesse 3×43 de sucesso com o Sp. Braga que há algumas semanas andava a ser trabalhado, repetia a mesma fórmula em Espanha.

Ao contrário da primeira mão, onde o Sporting apresentou algumas alterações, agora só não repetiu o último onze que ganhou o último encontro porque Jefferson teve de entrar para o lugar do castigado Acuña. De resto, tudo igual nos nomes, muita coisa diferente no jogo: desde cedo que o conjunto espanhol assumiu o controlo da partida, foi criando mais perigo sobretudo através das ações de Pedraza (marcador do golo em Alvalade) pela esquerda e ameaçou a baliza de Salin por Llambrich (de cabeça, à figura, aos 9′) e Fornals (com um remate forte perto do poste, aos 16′). Pouco depois do meio da primeira parte, Moreno ainda chegou a marcar mas o lance estava há muito anulado por fora de jogo, depois de uma tentativa inicial de Raba (26′).

O Sporting tinha dois grandes problemas com a mesma génese estrutural e epicentro: a natural falta de rotinas nos movimentos da zona do meio-campo. Por um lado, e sobretudo pelo lado direito, Ristovski esteve sempre demasiado sozinho a jogar 1×1 e sem a agressividade sobre o portador que poderia ter caso Gudelj fizesse deslocações de maior aproximação, permitindo que saíssem muitas vezes por ali os cruzamentos quase sempre cortados por Coates, um patrão no eixo defensivo. Por outro, e na perspetiva mais ofensiva, como o Villarreal fazia uma pressão imediata que não permitia que Gudelj e Wendel rodassem com bola para iniciarem ações ofensivas na construção, criava-se um buraco no corredor central que obrigava Bruno Fernandes a vir buscar jogo quase ao pé dos centrais ou a passar ao lado de tudo quando se aproximava mais de Diaby e Bas Dost.

Ainda assim, há sempre um jogador neste Sporting que às vezes parece funcionar como a própria equipa. E foi esse jogador, o do costume, que voltou a equilibrar aquilo que por si só estava visivelmente desequilibrado: sem que os leões tenham tocado uma vez que fosse a bola na área do Villarreal durante 45 minutos, Bruno Fernandes conseguiu ver aquilo que mais ninguém sonhava, aproveitou um mau passe de Mario Gaspar quando todo o corredor central dos espanhóis estava destapado, aproveitou a autoestrada que entretanto se criou, acelerou e, antes da portagem da área, rematou colocado para o 1-0 (45+1′).

Da bancada para o relvado, ficou claro para todos que a desvantagem mexeu com os visitados. Não que tivessem feito um grande jogo na primeira parte mas, ao mínimo deslize, estavam a perder e contra uma equipa a dar prioridade à organização defensiva. No entanto, esse alento acabou por não ser aproveitado da melhor forma pelo Sporting, que hipotecou as suas reais aspirações quando Jefferson viu o segundo amarelo e foi consequentemente expulso (curiosamente, e na primeira mão, também tinha sido o jogador naquela posição, Acuña, a levar vermelho). E passando ao lado do primeiro amarelo, que foi mais para segurar o jogo do que propriamente pela falta, o árbitro checo errou numa de duas formas: ou considerava que o pisão do brasileiro em Llambrich tinha sido involuntário, e como tal não merecedor de sanção, ou, achando que foi propositado, teria de exibir o vermelho direto. O meio termo acabou por permanecer, naquele que foi o momento de viragem no resto do encontro.

Javier Calleja foi lançando ases de trunfo a partir do banco (Ekambi, Iborra e Cazorla, três indiscutíveis da equipa), o Sporting acantonou-se cada vez mais com o recuo de Gudelj e a passagem de Borja mais para a esquerda a fazer um corredor que tinha o seu fim na linha de meio-campo, Coates foi somando cortes atrás de cortes perante a pressão espanhola, Salin foi defendendo o possível (com esse pormenor de ser também o jogador leonino com mais passes longos feitos, o que mostra bem o estilo de jogo que o conjunto de Keizer teve de assumir) mas, a dez minutos no final, num lance muito consentido pela defesa verde e branca, Ristovski perdeu o tempo de interceção após passe de Cazorla, Ekambi viu bem Fornals isolado na área e o avançado atirou para o 1-1, quebrando um jejum sem marcar que já durava desde outubro (num total de 22 jogos).

Keizer, que já tinha lançado Raphinha, abdicou de Ristovski para lançar Luiz Phellype, arriscou tudo num jogo mais direto onde, no final, ainda se juntou Coates, mas o resultado não mais voltaria a mexer, apesar da grande oportunidade desperdiçada por Bas Dost no terceiro minuto de descontos quando, após um cruzamento largo de Bruno Fernandes ao segundo poste, desviou para fora num lance onde não teria já o melhor enquadramento. Além de manter a senda de jogos sem vencer em Espanha (16), o Sporting ficou também de fora da Liga Europa. E, além da segunda mão da meia-final da Taça de Portugal com o Benfica que se joga em abril, fica até ao final apenas com o Campeonato onde está no quarto lugar a quatro pontos do Sp. Braga…