À entrada para o jogo desta quinta-feira, Dínamo Zagreb e Benfica estavam na mesma posição naquilo que às competições internas diz respeito, estavam ambos na liderança. Ainda assim, existia uma diferença importante entre a liderança dos croatas e a liderança dos encarnados: se o Dínamo está no primeiro lugar da Liga croata com mais 14 pontos do que o segundo, o Benfica só chegou ao topo da tabela no passado sábado e tem apenas dois pontos de vantagem face ao FC Porto. Desta forma, se Nenad Bjelica pode poupar no Campeonato para apostar na Liga Europa — onde o Dínamo está a realizar a melhor campanha dos últimos 20 anos –, com Bruno Lage a tática é diametralmente inversa: é necessário gerir nas competições europeias para não escorregar cá dentro.

Assim, e assumindo de forma clara que a prioridade é o Campeonato, Lage não convocou André Almeida e Pizzi e o Benfica viajou até à Croácia ainda sem Jonas, que sentiu dores na região lombar no último treino no Seixal e foi aconselhado a ficar em Portugal. Samaris e Rafa começavam no banco, Corchia ocupava a direita da defesa, Gedson e Florentino eram titulares no meio-campo e Krovinovic estreava-se nas opções iniciais de Lage no regresso ao país de origem. Lá à frente, sem surpresas, a dupla composta pelo miúdo de 19 anos e o suíço: João Félix e Seferovic. O Benfica apresentava então um 4x4x2 que encontrava um 4x3x3 dos croatas, com o espanhol Dani Olmo, formado nas camadas jovens do Barcelona, enquanto principal maestro da equipa de Nenad Bjelica (que cumpria um jogo de castigo e via o jogo a partir da bancada, sendo substituído no banco pelo adjunto Rene Poms).

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Ficha de jogo

Dínamo Zagreb-Benfica, 1-0

Primeira mão dos oitavos de final da Liga Europa

Stadion Maksimir, em Zagreb, na Croácia

Árbitro: Michael Oliver (Inglaterra)

Dínamo Zagreb: Livaković, Stojanović, Théophile-Catherine, Dilaver, Leovac, Šunjić, Dani Olmo, Gojak (Moro, 78′), Oršić, Petković (Gavranovic, 88′), Kadzior (Situm, 84′)

Suplentes não utilizados: Zagorac, Rrahmani, Atiemwen, Peric

Treinador: Nenad Bjelica

Benfica: Odysseas, Corchia, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo, Florentino (Rafa, 59′), Gabriel, Gedson (Zivkovic, 70′), Krovinovic, João Félix, Seferovic (Cervi, 35′)

Suplentes não utilizados: Svilar, Yuri Ribeiro, Samaris, Rafa, Jota

Treinador: Bruno Lage

Golos: Petković (p, 38′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Leovac (68′), Stojanović (75′), Šunjić (83′)

Nos minutos iniciais, depressa se percebeu que o Benfica tinha viajado até à Croácia com uma dose valente de respeito. Apesar das poupanças no onze, os encarnados mostravam preocupação em manter a baliza inviolável e posicionavam todos os jogadores atrás da linha da bola sempre que o Dínamo Zagreb beneficiava de uma bola parada, fosse no próprio meio-campo defensivo ou já na metade do relvado defendida pelo Benfica. A verticalidade da equipa portuguesa, que tantos estragos tem causado nas competições internas, não estava a surgir e Krovinovic, de quem se esperava criatividade e coelhos tirados da cartola, esteve sempre demasiado ausente para conseguir ser influente.

Ainda assim, os encarnados foram os primeiros a criar perigo, com um pormenor de João Félix a deixar Grimaldo isolado na cara de Livaković (7′). O guarda-redes do Dínamo evitou o golo do lateral espanhol e o Benfica não voltou a beneficiar de uma verdadeira ocasião de golo. A equipa croata, com as linhas muito recuadas e o bloco francamente baixo, não permitia grandes espaços e dava a bola ao adversário, privilegiando sempre um ritmo mais lento e um jogo de transição, com Orsic e Kadzior, a jogar nos corredores, a procurar continuamente espaços mais internos e combinações com Dani Olmo: o médio espanhol, que realizou uma primeira parte de grande nível, criou várias oportunidades e o Dínamo poderia ter inaugurado o marcador com remates de Orsic (11′), do próprio Olmo (19′) e de Kadzior (29′).

Por volta da meia hora, os encarnados perderam Seferovic devido a uma lesão muscular (entrou Franco Cervi) e o setor ofensivo, que já estava algo lateralizado e sem a quota necessária de risco, tornou-se ainda mais passivo. João Félix passou a fazer de Seferovic e perdeu a capacidade de desmarcação com o objetivo de servir o colega do lado, função em que Cervi e Krovinovic estão alguns pontos abaixo. Com mais posse de bola, mas a ser goleado em remates, o Benfica acabou por sofrer o primeiro golo através de (mais) um lance de transição de Dani Olmo, mas não de bola corrida. Rúben Dias parou o médio espanhol em falta e já no interior da grande área, Michael Oliver não hesitou, assinalou de imediato grande penalidade e Petkovic na conversão bateu Vlachodimos, que ainda tocou na bola. Depois de sofrer um golo a sete minutos do intervalo, os encarnados não conseguiram criar perigo até ao final da primeira parte e estiveram mais perto de sofrer o segundo, com um lance de Gojak já nos descontos, do que propriamente de empatar. Vlachodimos, mesmo batido no penálti, era o melhor elemento da equipa de Bruno Lage e ia evitando males maiores. Na ida para o descanso, esta era apenas a terceira vez que o Benfica chegava ao final da primeira parte sem golos marcados desde que Bruno Lage chegou ao comando técnico da equipa.

No regresso para a segunda parte, Bruno Lage não fazia alterações e o Dínamo Zagreb voltava a entrar com mais faro de golo, com Orsic a fazer mais um remate perigoso logo ao terceiro minuto do segundo tempo. A partir daí, porém, a equipa croata fez aquilo que já havia feito na primeira parte: entregou a bola ao adversário, recuou no terreno, encurtou o espaço entre setores e blindou os corredores. O Benfica, num jogo de paciência demasiado lento para aquilo que se exigia mas a trocar a bola alguns metros à frente daquilo que tinha feito nos primeiros 45 minutos, não conseguia desequilibrar nos corredores, com Krovinovic com muita vontade mas pouca cabeça, Cervi com critério escasso, Gabriel a realizar uma exibição sofrível depois de ter sido um dos melhores até ser expulso no Dragão e João Félix perdido em terrenos que não são os seus.

Gedson e Florentino, ainda que muito discretos, eram os melhores elementos encarnados e asseguravam a estabilidade do meio-campo enquanto base para lançar o ataque — ação que, contudo, não tinha consequência. Florentino, que liderou em desarmes, recuperações de bola e eficácia de passe durante todo o tempo que esteve em campo, acabou por ser o sacrificado por Bruno Lage para fazer entrar Rafa, numa tentativa de dar velocidade e energia a uma equipa progressivamente apática e desconcentrada. O Dínamo Zagreb, apostado em defender, estava cada vez mais tranquilo na partida e aproveitava todas as faltas de posicionamento dos encarnados para lançar desequilíbrios e garantir que Ferro e Rúben Dias permaneciam acordados.

Aos 65 minutos, o Benfica não rematava desde o minuto 20 e Bruno Lage começava a perceber que talvez tivesse colocado em campo um onze mais defensivo do que aquele que se pedia. Depois de tirar Florentino para lançar Rafa, o treinador encarnado substituiu Gedson por Zivkovic, esgotou as alterações e sacrificou, de forma inequívoca, os dois jogadores com maior rendimento para procurar o empate que deixaria a eliminatória totalmente em aberto para a segunda mão na Luz. A entrada do sérvio, porém, foi em tudo semelhante à do internacional português: pouco ou nada fizeram, não só por culpa própria mas também por incapacidade dos colegas de equipa para os servir.

Até ao final da partida, o Benfica não criou perigo, não assustou a defesa croata e não engendrou verdadeiras oportunidades de golo. Na verdade, foi o Dínamo Zagreb que ficou mais perto de voltar a marcar, já na reta final do jogo, com duas ocasiões que apanharam a defesa encarnada totalmente desprevenida e desposicionada. A necessidade de marcar pelo menos dois golos na segunda mão na Luz não impeliu a equipa portuguesa — tal como a fúria de Bruno Lage na linha técnica não o fez –, e o Benfica permaneceu totalmente inofensivo e sem ideias para furar o bem organizado bloco defensivo croata, com uma reação inexistente à desvantagem que surpreende pela negativa. Seferovic, homem de área que foi substituído por elementos que jogam curto, com menos experiência em jogo de costas para a baliza e sem tanto faro de golo, fez muita falta aos encarnados e é, provavelmente, a maior preocupação de Bruno Lage nesta altura.

O Benfica perdeu pela segunda vez na era Lage, fez a pior exibição desde que o treinador chegou ao comando técnico dos encarnados e vai ter de anular a desvantagem croata na segunda mão na Luz (onde o Dínamo não pode contar com Leovac e Šunjić, por acumulação de amarelos). Bruno Lage procurou poupar, deixou de fora André Almeida e Pizzi mas pagou a fatura do jogo com o FC Porto através de João Félix, Seferovic e Gabriel, que estiveram muitos pontos abaixo do rendimento habitual. O Dínamo Zagreb aproveitou um erro de Rúben Dias para se colocar em vantagem e beneficiou de um Benfica passivo e apático — algo que, para infelicidade encarnada, não se via desde que o comando técnico mudou de mãos.