O grupo parlamentar do PSD reagiu nesta quinta-feira à opinião expressa pela escultura portuguesa Leonor Antunes de que “não aceitaria” representar Portugal na Bienal de Arte de Veneza “se estivesse o PSD ou o CDS no governo”. Em declarações ao Observador, o deputado social-democrata José Carlos Barros disse que o partido “desafia a ministra da Cultura a clarificar publicamente que a representação portuguesa à Bienal de Veneza é feita, não em nome do governo, mas em nome do Estado português”. Se esse desafio não for aceite, o PSD “decidirá que outras medidas tomar”, acrescentou o deputado.

O Ministério da Cultura informou entretanto, através da assessoria de imprensa, que “não há mais nada a comentar” sobre este tema. Leonor Antunes também não quis tecer comentários.

A escultora tinha afirmado na quarta-feira de manhã, em Lisboa, em conferência de imprensa de apresentação do projeto expositivo que levará em maio à mais emblemática bienal de arte do mundo, que “a situação no mundo é bastante triste, com países que se estão a tornar regimes fascistas e populistas” e que “se tivéssemos um regime diferente, de direita, eu nunca teria aceitado o convite”. A seu lado estavam a ministra da Cultura, Graça Fonseca, o diretor-geral das Artes, Américo Rodrigues, e o comissário da representação portuguesa deste ano, João Ribas.

Minutos depois, em resposta aos jornalistas, Leonor Antunes concretizou preocupações com a presença da extrema-direita no parlamento alemão, país onde está radicada desde fins de 2004, e acrescentou:

“Sou uma estrangeira que vive em Berlim e não são esses os valores que quero dar à minha filha. Se estivesse o PSD ou o CDS no governo, eu não aceitaria. Embora sejam partidos democráticos, defendem valores em que não acredito. Defendo os valores da democracia, defendo os valores de esquerda. Se estivesse um governo de direita, não teria aceitado” representar Portugal em Veneza.

O deputado José Carlos Barros, eleito pelo círculo de Faro e membro da comissão parlamentar de Cultura, disse nesta quinta-feira que o grupo parlamentar do PSD “lamenta e não acompanha o entendimento” de Leonor Antunes, “para mais envolvida num projeto com financiamento público”, mas “não está em causa o direito da artista à liberdade de expressão”. “O caso da senhora ministra é diferente”, sublinhou.

“É inaceitável que que a ministra esteja em representação do Estado a presidir a uma cerimónia de apresentação pública da representação portuguesa na Bienal e que se venha a verificar que essa cerimónia se transformou numa espécie de comício”, afirmou José Carlos Barros. “A ministra não pode fazer de conta que não presidiu à cerimónia e tem de prestar esclarecimentos públicos.”

Ainda na quarta-feira, o eurodeputado Nuno Melo, cabeça-de-lista do CDS às eleições europeias, tinha declarado ao Observador que “é exigível neste momento que essa senhora deixe de ser a representante de Portugal” em Veneza e que “seja substituída por outra pessoa, de entre os muitíssimos artistas de grande qualidade que temos”, porque “está em causa uma representação portuguesa, não uma representação do PS”.

A escolha do comissário João Ribas e da artista Leonor Antunes foi conhecida há cerca de três meses e realizada através de concurso público e de uma comissão de apreciação, o que neste contexto se verificou pela primeira vez. “A Seam, a Surface, a Hinge, or a Knot” é o nome do projeto, com pré-inauguraão a 8 de maio no palácio Giustinian Lolin, junto ao Grande Canal.

A representação portuguesa é coordenada pelo Ministério da Cultura, através da Direção-Geral das Artes, em conjunto com o Ministério dos Negócios Estrangeiros. À hora de publicação, o gabinete do ministro Augusto Santos Silva não tinha respondido aos contactos do Observador.

A 58ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza decorrente entre 11 maio e 24 de novembro e tem como lema “May You Live In Interesting Times”, com curadoria de Ralph Rugoff, diretor da Hayward Gallery de Londres.