CIP

Há leis para conciliar trabalho e vida familiar, mas trabalhadores têm medo de perder emprego e das críticas dos colegas

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Mais teletrabalho, maior flexibilidade do horário de trabalho ou benefícios para trabalhadores e familiares através da empresa são algumas das boas práticas recomendadas num estudo da CIP.

António Saraiva é presidente da CIP desde 2011.

MIGUEL A. LOPES/LUSA

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A falta de conhecimento da lei, o receio de perder o emprego ou de críticas por parte de colegas ou chefes estão entre as causas que inibem os trabalhadores de fazerem uso das medidas que existem para promover a conciliação entre a vida profissional e familiar, segundo um estudo desenvolvido pela Nova School of Business and Economics e produzido para a CIP — Confederação Empresarial de Portugal. O estudo, que é apresentado esta segunda-feira em Carcavelos, na Nova SBE, salienta que existem “atitudes e emoções negativas de resistência” à utilização das normas previstas na lei ou pela empresa “por insegurança pessoal, receio de repercussões (informais) de chefias e colegas, receio de perda de oportunidade de progressão na carreira ou de perda do próprio emprego”.

Em conversa com o Observador, na sexta-feira, o presidente da CIP, António Saraiva, apresentou o documento como parte da “missão de antecipar e participar” que deve ter a Confederação Empresarial e que surge na sequência de outros documentos sobre o futuro do trabalho e os impactos do Brexit nas empresas nacionais. Numa fase em que a “morfologia do posto de trabalho” está em mudança, António Saraiva entende que a forma “como se está no trabalho, em que a conciliação de vários aspetos, nomeadamente a família, têm de ser avaliados por forma a procurar as melhores soluções”, sobretudo num país em que “existem várias dimensões.

“Há empresas que já o fazem muito bem, outras estão a iniciar agora esta prática e outras ainda que têm de fazer este caminho“, diz o presidente da Confederação Empresarial de Portugal.

Este estudo concluiu que várias empresas nacionais disponibilizam já, formalmente, medidas de conciliação família-trabalho, enquanto outras, de menor dimensão, o fazem de modo informal, podendo essas medidas surgir de forma natural por parte das chefias, ou por obrigação, em setores de atividade mais “conflituosos”, tendo como exemplo as fábricas ou os call centers. Num país onde “o papel da liderança é fundamental para a bem sucedida implementação de políticas de conciliação“, António Saraiva concorda que em empresas com ADN familiar “essa dimensão ‘instiga’ a aplicação dessas medidas”.

Ideias como o fomento do teletrabalho, uma maior flexibilidade do horário de trabalho ou os benefícios para trabalhadores e familiares através da empresa são algumas das boas práticas recomendadas neste estudo e que estão a ser já aplicadas por algumas empresas portuguesas.

O presidente da CIP considera que “o caminho está a fazer-se naturalmente”, apesar de a cultura portuguesa “limitar, ainda, algumas valências”. Porém, o responsável acredita que, num momento em que existe uma forte necessidade de captar recursos humanos, questões como a da conciliação família-trabalho assumem um papel mais relevante “nesta ‘guerra’ por talentos, porque tudo isto é levado em linha de conta”.

Os jovens têm outro mindset, são a prova de que existem novas realidades. O salário conta, claro que conta, mas nem sempre é o principal”, conclui António Saraiva, sugerindo que sairão beneficiadas as empresas que apostarem mais em dar aos trabalhadores condições para que possam conciliar melhor o equilíbrio entre a vida profissional e familiar.

Os desafios e os bons exemplos

O documento refere que as empresas podem estar, “sem conhecimento e intenção, a impedir a adoção generalizada destas medidas” devido à “falta de comunicação interna e divulgação dos benefícios” ou à “falta de exemplos das chefias na utilização de certas políticas” e ainda devido à “falta de apoio e de incentivo”.

Para ultrapassar o problema, os autores sugerem colocar o tema na agenda da Concertação Social “e promover um diálogo menos extremado” com vista a serem definidos “incentivos às empresas e instituições que promovam a conciliação entre a vida profissional e familiar, designadamente pelo recurso à flexibilidade no horário de trabalho ou ao trabalho a tempo parcial”.

O estudo aponta seis desafios para construir um caderno de boas práticas — entre eles a evolução tecnológica, o papel das chefias e as questões de género na gestão familiar –, apontando já bons exemplos como os que são aplicados em empresas como a Aveleda (onde é oferecido um kit-bebé aos colaboradores com recém-nascidos), a EDP (que disponibiliza casas e pousadas para alugar nas férias) ou a Praxair (que às sextas tem uma jornada de trabalho reduzida), entre outras.

Estas três empresas integram o lote de sete que vão receber esta segunda-feira a certificação de boas práticas da Fundacion Más Família, onde se incluem também a Bel, a Fidelidade Assistance, a Morais Leitão e a XZ Consultores.

Na conferência de lançamento do estudo e de atribuição da certificação vai estar presente o Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, José Vieira da Silva. Para o presidente da CIP, “todos estes temas são assuntos que enquanto parceiros sociais e em concertação social, temos que discutir“, lançando desta forma o debate.

E porque “a implementação bem sucedida de medidas de promoção da conciliação família-trabalho pode ter efeitos positivos diretos, (…) mas também indiretos a vários níveis da vida pessoal, da equipa, da empresa ou da sociedade em questão”, a Confederação Empresarial de Portugal quer abrir a discussão junto das entidades patronais, para “encontrar as melhores metodologias para adaptar o tecido empresarial a esta realidade“.

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