A Orquestra Metropolitana de Lisboa atua no domingo no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e o concerto contará com duas estreias, de uma sinfonia de António Pinho Vargas e de um filme de Teresa Villaverde.

A convite do CCB, António Pinho Vargas compôs “Sinfonia (subjetiva)”, e Teresa Villaverde fez um filme para a obra “Six portraits of pain”, daquele compositor, e ambas as peças serão interpretadas pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a direção do maestro Pedro Amaral, com o violoncelista Pavel Gomziakov, como solista.

Em entrevista à agência Lusa, Teresa Villaverde contou que esta é a primeira vez que cria um objeto cinematográfico inédito para uma música já existente – feita por António Pinho Vargas em 2005.

O que é que nós vemos quando estamos a ouvir música? E eu pensei nisso muitas vezes e quando a música realmente nos diz muito, nós não vemos nada. Podemos gostar muito e a música leva-nos para outro lado, mas se a música está mesmo ‘a bater’ é como se nós desaparecessemos. Pensei: ‘Como é que eu agora faço um filme em que eu desapareci?'”, afirmou a realizadora à Lusa.

“Six portraits of pain”, o filme, é um objeto experimental, com imagens visualmente manipuladas a partir de recolhas no arquivo fílmico da realizadora, material de outros arquivos e imagens inéditas, em diálogo com a composição de Pinho Vargas.

“Na montagem, quando já havia uma sequência que podia conduzir o espetador a ver a música pelos meus olhos, eu cortei sempre isso. Tentei sempre não deixar seguir muito um fio, porque acho que isso era trair a música. O que eu queria era baralhar e tornar a dar. Dar pistas e tirar, para a pessoa não ficar agarrada às minhas imagens”, disse Teresa Villaverde à Lusa.

Aquela peça “contém na sua origem um conjunto de seis textos curtos retirados de poemas ou excertos de livros de poetas, escritores e filósofos [Gilles Delleuze, Anna Akhmátova, Paul Celan, Espinosa, Thomas Bernhard, Manuel Gusmão] sobre os vários modos nos quais se manifesta a dor dos humanos: a dor existencial, a dor da perseguição política, enfim, o desencanto do mundo”, escreveu Pinho Vargas na nota de intenções.

Eu ouvi a música e tive vontade de experimentar e tive uma conversa com o Pinho Vargas a dizer-lhe que ia tentar ao máximo não trair a música”, justificou Teresa Villaverde.

“Six portraits of pain” é exibido no CCB numa altura em que Teresa Villaverde finaliza a montagem de um filme encomendado pelo Centro Georges Pompidou, em Paris, no âmbito de uma retrospetiva em junho naquele pólo cultural.

O filme que Teresa Villaverde mostrará em estreia em Paris conterá imagens captadas este ano na escola de samba Estação Primeira de Mangueira, que venceu o concurso do Carnaval do Rio de Janeiro.

“Ouvi o maravilhoso samba da Mangueira deste ano do Carnaval, que é uma coisa de resistência política, revolucionária em relação a tudo o que se passa hoje no Brasil, é uma coisa a favor dos negros, dos índios, dos pobres, das mulheres, é uma homenagem a Marielle [Franco], assassinada há um ano, e eu consegui autorização” para filmar, contou.

Desse trabalho em campo, com uma equipa de filmagem reduzida, Teresa Villaverde filmou no morro da Mangueira, no meio dos participantes daquela escola de samba, registando os momentos da concentração antes do desfile e quando foi anunciada a vitória do concurso.

Acho que é das coisas mais bonitas que filmei na minha vida”, disse à Lusa.

A retrospetiva em Paris vai incluir todas as obras da realizadora portuguesa entre ‘curtas’ experimentais, ficção e documentário.