O fim de semana do Grande Prémio do Bahrain de Fórmula 1 tinha praticamente tudo para ser perfeito para a Ferrari. Depois da desilusão no arranque da temporada na Austrália — os Mercedes conseguiram a dobradinha com Bottas e Hamilton e Verstappen roubou o último lugar do pódio –, a scuderia italiana teve boas notícias logo a meio da semana, quando anunciou que Mick Schumacher, filho mais novo de Michael Schumacher, vai realizar testes com o monolugar da Ferrari (e da Alfa Romeo) e estrear-se ao volante de um Fórmula 1. A alegria continuou com a primeira pole position de Charles Leclerc, que se tornou o segundo mais novo de sempre a ser o mais rápido numa qualificação, e a segunda posição de Sebastian Vettel.

No arranque do GP do Bahrain, a Ferrari tinha os dois primeiros lugares da grelha, Lewis Hamilton e Valtteri Bottas estavam logo a seguir e Max Verstappen fechava o top 5 do apuramento. Semáforos desligados, Mick Schumacher a assistir na box da Ferrari, grande arranque de Vettel e Leclerc a ter de puxar dos cavalos para não abrir espaço à ultrapassagem de Bottas. O jovem piloto da Ferrari, que na temporada passada correu pela Alfa Romeo Sauber e este ano substituiu o veterano Kimi Raikkonen como segundo carro da equipa italiana, perdeu a liderança para o colega de equipa durante os primeiros instantes da corrida, mas fez uso do DRS para voltar a agarrar o leme do pelotão. Em comunicação via rádio com a box, deixou um recado e explicou qual teria de ser a estratégia da Ferrari: “Estou mais rápido do que ele”, disse o piloto de 21 anos em referência a Vettel, para explicar que teria de ser ele a prioridade no ataque à vitória.

Mais atrás, Hamilton começou por deixar para trás o colega de equipa e ultrapassou depois Vettel, nunca chegando demasiado perto do líder Leclerc. Bottas, Verstappen e Ricciardo lutaram durante algumas voltas para permanecer perto dos lugares do pódio, mas os dois Ferrari e atual campeão mundial depressa se distanciaram e cavaram um fosso suficientemente grande para deixar o finlandês, o holandês e o australiano mais perto do restante pelotão do que propriamente dos três da frente. Charles Leclerc deixou em pista a razão de ter sido o escolhido da Ferrari para assumir o lugar de Raikkonen e ia somando segundos de diferença e vantagem a cada volta, com uma grande exibição e um domínio digno de alguém que já tem 20 anos de carreira — e não 21 anos de vida.

Vettel acabou por conseguir recuperar o segundo lugar através da implementação do DRS (Lewis Hamilton nem tentou defender-se e Toto Wolff, diretor da Mercedes, era na box a imagem da desilusão face à estratégia falhada da equipa) e era cada vez mais visível que as flechas de prata não iriam tentar qualquer ataque surpresa ou uma mudança de pneus que pudesse agitar as águas, conformando-se com o pódio de Hamilton e a dobradinha da Ferrari. A história mudou quando Vettel fez um pião ao discutir a posição com o piloto inglês e perdeu depois a asa direita ao bater em George Russell, sendo obrigado à terceira paragem da tarde que o forçou a regressar à pista no oitavo lugar. Hamilton assumiu a segunda posição, ainda que com mais de nove segundos de distância para Leclerc e Bottas agarrou o último lugar do pódio. Mas as coisas iam ficar ainda piores para a Ferrari.

Charles Leclerc, que parecia ter a corrida totalmente dominada, teve um problema mecânico a cerca de dez voltas do final e perdeu velocidade de forma progressiva, sem conseguir manter um ritmo competitivo. Lewis Hamilton passou, assumiu a liderança e venceu pela primeira vez esta temporada e até Bottas, que chegou a estar a mais de 20 segundos de distância, conseguiu ultrapassar o monegasco, que pode dar-se por satisfeito por sair este domingo do Bahrain com um lugar no pódio.

A scuderia italiana esteve muito perto de vencer o GP da Argentina, mas não só não conseguiu vingar a dobradinha da Mercedes na Austrália como perdeu uma corrida onde a estratégia que implementou foi superior em toda a linha à da principal rival — e tudo graças a um problema mecânico. Verstappen ficou em quarto, à frente de Vettel, que foi quinto, e Lando Norris fechou o top 6. Charles Leclerc, que havia dedicado a pole position a Jules Bianchi, amigo de infância que morreu depois de um acidente durante o GP do Japão de 2014, ao pai, e a Charlie Whiting, diretor de corrida da F1 que morreu dias antes do arranque da temporada, esteve perto de conquistar o primeiro Grande Prémio da carreira e perdeu tudo a menos de dez voltas do fim. O suposto fim de semana perfeito da Ferrari tornou-se num fim de semana para esquecer.