Título: “Revista de Museus”
Director: David Santos
Editor: Direcção-Geral do Património Cultural e Caleidoscópio
Páginas: 248
Preço: 20,00 €

Nova publicação, de periodicidade anual e contando com um conselho editorial constituído por sete elementos, Revista de Museus foi lançada pelo Ministério da Cultura com o propósito de “animar a reflexão pública sobre a prática e as realidades da nossa museologia”, a partir da “experiência contemporânea da vida dos museus, com particular atenção aos valores que sustentam a acção diária daqueles que neles trabalham”. Quem chegue pela primeira vez ao país e desconheça a insana precariedade das instituições públicas do sector — sem excepção! —, ficará encantado com tão aparatoso desígnio, tanto mais que no editorial de estreia é dito que a revista também quer “afirmar-se como objecto de sedução estética” (assim mesmo, sem tirar nem pôr…). Ficará sobretudo com a ideia de que há dinheiro a rodos, vertido de uma cornucópia ministerial exuberante que dá para tudo, o céu é o limite e etc. Antes fosse, mas não é de todo o caso.

Não há dúvida de que esta Direcção-Geral do Património Cultural dedica uma atenção especial à edição. Lançou consecutivamente boas e recentes teses sobre museus e museologia (as de Hugo Xavier, Emília Ferreira, Adelaide Duarte, e mais), retomou Monumentos (agora um número dedicado a Mértola) e criou a semestral Revista Património, para debate e reflexão teórica, e com a qual certamente esta Revista de Museus passa a conversar directamente. Tudo isso vem animar e estimular a comunidade (digamos assim, por grosseira simplificação) de historiadores de arte, conservadores, arqueólogos e outros elementos das instituições públicas implicadas — e colaboradores externos convidados — a discutir e aprofundar temas comuns de modo contemporâneo e dinâmico ou a prestar devida conta de trabalhos em curso, procurando que esse pequeno mas decisivo mundo se alargue para lá do círculo restrito dos colóquios e congressos académicos, e fazendo-o em publicações bilingues ou quase-bilingues que ajudem a colocar em circuitos internacionais o que se faz e diz por cá. Mas também importa perceber que esse acréscimo de consciência e conhecimento se fica por isso mesmo, pois na verdade as instituições em que tal benefício poderia ser directamente aplicado sobrevivem como podem — ou vão podendo… — ao garrote de precariedades antigas e de cativações cruéis e disparatadas. Iludir ou tentar iludir esse cenário bipolar é profundamente desonesto, mas — uma vez mais — isso não parece constituir problema para quem o pratica.

Esquizofrenia política, surdez empedernida perante queixas muito repetidas, especiosa forma de propaganda, ou o que seja, que julgue o que isto é quem tem — ou deveria ter — a seu cargo a crítica ou a oposição à má política do Governo neste domínio absolutamente crucial da vida do país.

Seja como for, este número inaugural da Revista debruça-se sobre “Museus e turismo”, um tema actual e de interesse evidente — pois que, ao fim das contas, é de turistas o grosso dos visitantes, fora as turbas escolares que de vez em quando enxameiam as salas expositivas com o som e a fúria do seu corrido desinteresse selvático (sendo óbvio que visitas de grupos pequenos e seleccionados seriam de bem maior proveito). A abrir e a fechar, duas colaborações estranhas ao meio museográfico especificamente considerado, mas que em geral convidam a pensar, as dos conhecidos geógrafo Álvaro Domingues e escritor Gonçalo M. Tavares, balizam — num pórtico desigual — os contributos de Alexandra Gonçalves, Teresa Ferreira, Graça Filipe, José Soares Neves, António Filipe Pimentel, Silvana Bessone, Ana Alcoforado, Paula Aleixo, Lígia Rafael, Joana Sousa Monteiro, Pedro Gadanho, Teresa Girão da Cruz e António Camões Gouveia, Adelaide Duarte, que ora debatem o tema proposto ora descrevem o património e a actividade das instituições em que trabalham e o efeito delas no contexto urbano em que se inserem, sempre com o público de viajantes ocasionais no ponto de mira.

E tudo isso descorre entre a abundante exuberância — e em alguns casos, sem dúvida, a beleza excepcional — de imagens do arquivo fotográfico da Direcção-Geral do Património Cultural posto à disposição e ao bel-prazer da designer Vera Velez, que não se fez rogada e arriscou entremear os textos com uma série de justaposições ditas “cegas” entre antigo e moderno ou contemporâneo — pp. 24-25: frasco de água de cheiro do século XVIII diante de disco estrelado do pintor Pedro Casqueiro, 2008; p. 46: Ecce Homo renascentista ante Cabeça de Napolitana de Henrique Pousão, 1882-83; pp. 56-57: Mário Cesariny fotografado por Fernando Lemos confrontado com o quadro Retrato de Homem por Francia Bigio, século XVI; pp. 80-81: cabeça de sepultura do século XIV com motivo zoológico frente a fotografia de cabeça de vetusto boi do século passado; pp. 138-39 e 140-41: tsuba japonesa do século XIX e busto do imperador Vespasiano do século I, seguidos de nova tsuba do XVIII e outra pintura de Casqueiro, 2002; pp. 164-65: tabuleiro de jogo moçárabe em pedra, Mértola século X, e pintura bicromática de António Palolo, 1995; e, por fim, pp. 200-201: bananeiras na Madeira em fotografia de Manuel Perestrello, 1890, face à escultura Botânica de Vasco Araújo, 2012-14; etc.

Cabe dizer que todo este muito simpático exercício não seria viável para um editor privado — a menos que ele fosse um esbanjador tresloucado e snob, um improvável Charles Cosac português —, pois teria de pagar ao Estado um preço proibitivo (40 imagens de página inteira, com um desconto de 30 % pela quantidade, seriam 1470 €, iva incluído; ora, a revista contém 290 imagens, em diferentes tamanhos… é fazer as contas!), que em muitas situações — sei do que falo — o afasta de um património nacional que é de todos e a todos deveria ser comunicável com contrapartidas mínimas (a saber: a DGPC reclama 100 €, mais IVA 5 %, por imagem cedida para a capa dum livro…). Desta maneira, uma revista que “ousa apresentar-se também como objecto coleccionável”, nas palavras laudatórias de David Santos, seu director, surge-nos estribada no poder absoluto de uma posição tutelar discricionária, que enquanto distribui precariedade e incerteza a instituições patrimoniais dela dependentes exibe sem pudor um efeito de “ludicidade” (sic), criado estreitamente pelo privilégio — quase um monopólio — dum património iconográfico nacional posto à sua disposição, mas que a todos deveria pertencer de igual modo…

“A experiência turística no espaço museológico”, relato de Alexandra Rodrigues Gonçalves, apresenta um inquérito a visitantes e a directores de museus cuja data não é esclarecida (no universo dos inquiridos, 60 % são de residentes no estrangeiro, e houve 21 museus envolvidos; p. 32), mas conclusões e recomendações são de tal forma banais, superficiais e desconcertantes — sem apontar aos problemas concretos existentes —, que é de espantar como se gasta tempo e dinheiro para se chegar a isto (e depois se imprime): “a experiência turística e a experiência no museu são condicionadas fortemente pela pós-modernidade e por novos modos de produção, reprodução e representação da cultura e do património, que trespassam as paredes dos edifícios […] adoptando os museus práticas próximas de outros espaços de consumo massificados, pela introdução de merchandising nas lojas […] espaços de lazer e cafetarias, que em simultâneo se constituem como formas de prolongar a memória da visita e como formas de financiamento da sua actividade” (p. 44).

Depois, Teresa Ferreira vem falar-nos de palácios, museus e monumentos nacionais como “activos identitários relevantes”, “incontornáveis na nossa narrativa de diferenciação enquanto destino turístico” (p. 50), para defender que os “agentes turísticos [serão as agências?], enquanto intermediadores da experiência turística, também são um elemento fundamental na estruturação de produtos e serviços que respondam às expectativas do turista nessa “paisagem activa” de que é feito o destino”. A directora do departamento de desenvolvimento e inovação do Turismo de Portugal, que trata — também muito pela rama, sem sobre nada pormenorizar — de “qualidade dos serviços” e “melhorar a experiência proporcionada” — vem defender “um trabalho conjunto”, quiçá uma programação museológica sob medida, centrada num dos seus “desafios actuais e incontornáveis”, o de “conhecer os públicos” (para quê, não o diz); e com uma leviandade a toda a prova face a um problema de dimensões colossais propõe-se actuar para a “coesão territorial” e uma “mais equilibrada distribuição populacional”, movidas a “projectos-piloto no quadro de um plano concertado de actuação, tendo em vista a afirmação das identidades locais e regionais e a geração de novos fluxos para os territórios” (p. 53). Usando expressão cara a Raul Lino, dir-se-ia que ler isto tem o efeito sonoro de um prato de porcelana quando riscado pelos dentes de um garfo…

Graça Filipe trata de sustentabilidade e inovação em “Património e museus em interacção com o turismo”, cuidando do “empoderamento das populações nos seus territórios em regimes de desenvolvimento”. Atendendo à linguagem que usa, não surpreende que seja investigadora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mas lido todo o seu texto mal se percebe que o possa ser, de facto, tal o arrepiante alivião de banalidades, ditas sociológicas ou museológicas, polvilhadas com duas ou três citações institucionais e estrangeiras para efeitos de legitimação. “Recorrendo aos diagnósticos, à análise de tendências e à identificação de necessidades e prioridades numa relação directa com o território de intervenção, é indispensável uma planificação estratégica, multiescalar, a qual requer igualmente um estudo prospectivo e escolha de indicadores de sustentabilidade que permitam a avaliação dos processos, incluindo a gestão e a monitorização do património e dos produtos turísticos que se pretenda implementar” (p. 66). Toda uma pérola para uma elucidativa Antologia do Vazio…

O estoicismo exigido a um crítico é coisa legendária, mas ele sabe que mais cedo ou mais tarde será recompensado. “Os museus e o turismo: forças, oportunidades, fraquezas e ameaças” (pp. 98-111), de António Filipe Pimentel, director do Museu Nacional de Arte Antiga, é um verdadeiro manifesto — bem merece ser publicado em opúsculo, daqui a meses, com outras intervenções recentes do seu autor — como ‘estado da arte’ dos museus de rede pública portuguesa, que o fenómeno turístico veio interpelar de forma incisiva e pungente, ante a inércia satisfeita da tutela governativa: “só parcialmente renovada no plano físico, mas, sobretudo, depauperada em extremo do ponto de vista dos recursos humanos e ancorada em obsoleto modelo administrativo” (p. 105). Duas frases letais: “Afigura-se lógico que os recursos gerados pelo turismo sirvam, como em toda a parte, para alimentar a sua necessária reconversão, a fim de poderem, com eficácia, cumprir o seu papel de centros dinâmicos de produção de conhecimento, polarizadores do consumo cultural e activos dinamizadores da marca nacional”; “De outro modo quedaremos reféns de objectivas fraquezas e de claras ameaças, já impossíveis de ocultar. — E o momento actual, decerto irrepetível, quedar-se-á como oportunidade histórica perdida — não apenas para os museus; mas para o próprio e futuro destino do País como destino” (p. 106).

O dedo na ferida e a coragem para isso não são para todos, e a revista prossegue enunciando mansamente o que têm, ou distingue, os museus nacionais dos Coches e Machado de Castro, em textos das respectivas directoras, Silvana Bessone e Ana Alcaforado. Paula Aleixo, que dirige os serviços de Artes e Cultura da Misericórdia do Porto, apresenta “Um museu na centralidade turística do Porto”, referindo-se naturalmente ao Museu da instituição inaugurado em Julho de 2015, no edifício que lhe serve de sede há mais de quinhentos anos na Rua das Flores, uma artéria de grande trânsito pedonal, e o caminho — não livre de obstáculos — desde então trilhado para integrar em estadas de city-break mais largas e diversificadas numa cidade com variados pólos de interesse um museu entretanto premiado internacionalmente. Noutro âmbito, o dos territórios de baixa densidade, o caso singular do Museu de Mértola é-nos descrito por Lígia Rafael com especial atenção ao desenvolvimento local, pois “o Museu é a própria vila” (p. 155). Já o caso do Museu da Cortiça de Silves, melhor museu europeu em 2000, encerrado em 2009, mas que aguarda solução política que o faça renascer — para exibir a história e a fábrica de um dos mais creditados produtos portugueses, aliás em claríssima campanha de internacionalização, inclusive via design e arquitectura —, é prudentemente posto de lado, como indesejável incómodo num país só de maravilhas…

Lisboa está ainda representada por textos de Joana Sousa Monteiro e de Pedro Gadanho, director do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia.

A directora do Museu de Lisboa tenta ir mais além, fazendo um circuito pelas últimas décadas de turismo cultural na Europa, desde o “colapso do efeito Guggenheim de Bilbau” (quando a arquitectura com assinatura famosa parecia poder sobrepor-se, por si mesma, à qualidade dos acervos dos museus e das exposições temporárias), até ao efeito pernicioso das visitas-relâmpago típicas dos circuitos de cruzeiro, que sacrificam a “lenta fruição” dos museus e dos seus espaços de boa convivialidade ou “o descuido de certos elementos patrimoniais, por serem menos conceituados e turisticamente menos relevantes do que outros”. Na sua opinião, a pressão turística sobre os museus estimula “o aumento da competição positiva entre pares, com expressão na produção mais frequente de exposições e de actividades de mediação” (p. 169), e bilheteira amplificada por ela pode “acrescentar visibilidade ao investimento em investigação, conservação, remodelação de exposições e de espaços públicos”, mesmo que não quantifique nem especifique esse tão bondoso investimento (se é que ele realmente existe). Joana Sousa Monteiro também não nos diz por que teme, neste contexto, “a possível miopia causada pelo encantamento das receitas rápidas, que poderá toldar a visão de médio e longo prazo do desenvolvimento” (p. 171), mas reclama — sensatamente — que pensamento crítico sobre “a relação concreta entre museus e turismo no panorama local e nacional” se fundamente em dados credíveis recolhidos por um Observatório das Actividades Culturais que, tendo sido suspenso em 2013, todavia nunca foi reposto depois do fim da troika, no já longínquo (digo eu…) Maio de 2014.

Pedro Gadanho, pelo seu lado, defende a virtude da grande arquitectura para fazer atrair para a asperamente incompreendida (segundo ele) arte contemporânea um público adverso ou preguiçoso — e aqui a designer Vera Velez tem, na minha opinião, uma das suas intervenções mais certeiras, ao escolher para estas páginas Coluna de Colombo da dupla Gusmão e Paiva (2006; p. 176), face à perícia de equilibrismo necessária para se manter uma argumentação vertical em matéria de tanto melindre. E não é caso para menos: o director do Museu admite que aos abrolhos habituais (no nosso país, “a arte e a arquitectura contemporâneas não constituem factores culturais de eleição”, p. 179) se junta, ou se juntou já, irremediavelmente, a pecha dum desacordo com “os órgãos que garantem o financiamento e a administração das instituições”, conselhos de administração imbuídos — é todo um mimo — “de uma sensibilidade puramente gestionária em relação à criação e discussão cultural”, e à medida que nos aproximamos do fim do artigo mais chegamos à conclusão de que o director do MATT reconhece ter perdido o desafio de criar à beira-rio um projecto de food for thought, antecipando aqui uma explicação para a sua próxima saída do cargo.

Para o fim da revista ficou — mal, pois dá-se razão ao protesto em subtítulo… — “Turismo e património da ciência e natureza em Portugal: um nicho (ainda) na sombra”, um interessante “manifesto” da dupla Cruz e Gouveia em defesa do património edificado de laboratórios, observatórios, jardins botânicos, equipamentos académicos e hospitalares, colecções fotográficas e científicas, mas também observação de aves, sítios geológicos, etc. “Turismo e ciência comungam o desejo de descoberta e partilha de experiências” (p. 195) — todavia, sem uma cultura científica firmemente dissiminada e acolhida, perspectivas de futuro não parecem poder ser animadoras, apesar de ser “justificado considerar que Portugal tem um enorme potencial neste campo [turismo científico], maioritariamente por conhecer e explorar”, por ter “património científico e natural único no mundo” (pp. 185, 187). Nessa medida, a experiência do Instituto Inhotim em Brumadinho (Minas Gerais, Brasil), um projecto do empresário Bernardo Paz, cruzando arte contemporânea, botânica, arquitectura e educação, numa vasta paisagem natural exuberante e “de tirar o fôlego”, entre mata atlântica e cerrado, é sumariamente apresentado por Antônio Grassi, como caso exemplar do que experiências gratificantes podem fazer — ou começar a fazer — pelo bom hábito de visitar e conhecer museus. Onde for e por quem for.