O Patriarcado de Lisboa partilhou na sua página de Facebook uma publicação em que é feito um apelo ao voto no CDS, no Basta ou no Nós Cidadãos, a propósito da posição que estas três forças políticas têm em temas como o aborto ou a eutanásia.

Questionado pelo Diário de Notícias, o gabinete de comunicação do Patriarcado de Lisboa admitiu que aquela publicação “foi uma imprudência” e acrescentou: “Para o Patriarcado, é essencial que toda a gente tenha a possibilidade de discernir o seu voto”. O post acabou por ser retirado, cerca de duas horas depois de ter sido feito.

A imagem em causa foi elaborada pela Federação Portuguesa pela Vida (FPV) e, de acordo com o que se pode ler na sua legenda, as informações ali dispostas resultam tanto da leitura dos programas como das respostas que os partidos àquela associação sobre cada um dos temas em questão.

Na imagem, são colocados lado a lado nove partidos que concorrem às eleições europeias, agendadas para 26 de maio, e faz-se um resumo da posição de cada uma daquelas forças políticas em sete temas, desta forma elencados: “Vida por nascer”, “Rejeição eutanásia”, “Liberdade de educação”, “Oposição ideologia de género”, “Proibição barrigas de aluguer” e “Combate à prostituição”.

Naqueles parâmetros, e de acordo com a avaliação feita pela FPV, há três partidos que defendem todas as causas acima citadas: o CDS, o Basta e o Nós Cidadãos. Pelo contrário, o PS, o Bloco de Esquerda e o PAN surgem como sendo contra todas aquelas bandeiras da FPV. Algures pelo meio estão o PSD, o Aliança e a CDU.

Embora não seja feito um apelo literal ao voto, o facto é que a imagem conta ainda com a inclusão de duas hashtags que não deixam margem para dúvidas quanto ao pendor daquela publicação: “#euvotoprovida” e “avidaem1lugar”.

Fora da imagem ficaram partidos como o Partido Democrático Republicano (PDR), o Livre, o Partido Nacional Renovador (PNR) ou o Iniciativa Liberal (IL), entre outros. Questionados sobre essas ausências — mais concretamente sobre a do PNR —, a página de Facebook Caminhada Pela Vida (onde o post original foi feito e cuja página é afeta à FPV) respondeu num comentário que não aparecem no quadro “todos os partidos sem assento parlamentar que não responderam ao questionário que lhes foi enviado”.

Em comunicado enviado às redações, a Federação Portuguesa pela Vida garantiu que “o quadro não constituiu uma indicação de voto nem um apoio a qualquer partido, é apenas uma informação sobre a posição dos partidos relativamente à agenda pró-vida”.

José Maria Seabra Duque, dirigente da federação, ressalva ainda que “os temas apontados não são os únicos para decidir o voto, são apenas aqueles sobre os quais a Federação, no seu trabalho político, se debruça”. E diz ser “falsa” e “bastante ridícula” a “colagem entre a federação e uma coligação concreta”.

CDS: “Nós não somos o Patriarcado”

Questionado sobre a polémica publicação do Patriarcado de Lisboa no Facebook, entretanto retirada, o candidato do CDS às Europeias foi taxativo: “Nós não somos o Patriarcado”. “O CDS não é o Patriarcado, não pode responder por ele, e não tem que achar coisa nenhuma”, disse Nuno Melo aos jornalistas em Évora, à margem de uma visita à Embraer, sublinhando que no seu entender nenhuma entidade deve fazer apelo ao voto, ainda que, notou, os partidos do “centrão” estão sempre a ser beneficiados com apelos indiretos de entidades e nunca ninguém se chateou por isso.

Na publicação, a Igreja apelo ao voto no CDS, no Basta ou no Nós Cidadãos, por serem as três forças políticas com uma posição semelhante à da Igreja em temas pró-vida, como o aborto ou a eutanásia. Mas quando questionado sobre se o incomodava aparecer ao lado do partido de André Ventura nestas temáticas de consciência individual, Nuno Melo chutou o argumento da democracia: “Em democracia, isso equivale a perguntar se incomoda os partidos estarem todos juntos no boletim de voto, a democracia é assim mesmo”.

Mais: “O que me incomoda é, por exemplo, os Jesuítas, que, dentro da Igreja até são vistos como progressistas, terem questionado todas as candidaturas sobre as medidas que propõem em relação aos refugiados e poucos partidos responderam”, contra-atacou. O CDS, claro, respondeu.

No PSD, o candidato Paulo Rangel nota que “pelos vistos, foi um engano, um lapso que foi corrigido” e que, portanto, “não merece que se dê mais importância do que isso”. “Devemos passar à frente”, disse o candidato, em curtas declarações aos jornalistas.

Basta: “Foi Deus que me colocou nesta luta”

André Ventura, cabeça de lista do Basta, indicou que ficou “pessoalmente feliz” com a publicação do patriarcado, por ser um “católico de formação”. “Eu acho que foi Deus que me colocou neste espaço e nesta luta. Por isso sinto-me bem por a Igreja validar a minha posição”, afirmou ao Observador.

“Se a Igreja afirma  permanentemente que os cristãos têm o dever de participar na vida pública, de trazer o cristianismo para a pólis, de participar na política, então temos de ter a capacidade de defender valores cristãos também na política”, continuou André Ventura, lamentando que se tenha gerado após a publicação “uma pressão política e social muito grande”, que levou a que a mesma fosse apagada.

Mais, Ventura sustenta que achou a publicação correta por “não haver apelo direto ao voto” e se “basear num estudo com dados empíricos”. Reconhece, ainda assim, que é questionável o momento em que é partilhada a mensagem, devido à proximidade de um ato eleitoral, apesar de os católicos terem “maturidade para perceber a diferença entre a religião e a política”.

A coligação Basta reúne o Partido Popular Monárquico (PPM), o Partido Cidadania e Democracia Cristã (PPV/CDC), o movimento Democracia 21 e o Chega (presidido por André Ventura).

CDU: “Retirada do post e reconhecimento do erro resolvem a questão”

O cabeça de lista da CDU às europeias, João Ferreira, reagiu ao polémico post de Facebook do Patriarcado de Lisboa assegurando que “a retirada do post e o reconhecimento do erro resolvem a questão”. “O fundamental é que todos, crentes e não crentes, tenham total liberdade de voto”, destacou o candidato comunista.

João Ferreira sublinhou ainda a proximidade entre algumas ideias da CDU e a Igreja Católica. “Estou certo de que as preocupações que a CDU tem vindo a expressar no plano da situação social, da necessária resposta a situações de injustiça social, no plano da melhoria na distribuição dos rendimentos, na promoção da igualdade, vai ao encontro daquilo que são as preocupações de muitos católicos e não católicos”, disse, acrescentando: “Portanto, a questão essencial, para nós, está arrumada”.

A mesma posição na caravana do PS. Pedro Marques quis desvalorizar o caso considerando que o assunto encerrado, tal como Marisa Matias, a última a reagir à polémica. “Lamentamos que o patriarcado tenha feito essa publicação mas registamos que a retirou, considerando-a imprudente”, disse. A eurodeputada bloquista falava à saída de uma visita à Unidade de Saúde Familiar de Cruz de Celas, em Coimbra. Perante a insistência dos jornalistas na questão, a candidata não cedeu e repetiu a mesma afirmação, mais palavra menos palavra. “Lamentamos que o tenham feito, mas registamos que o tenham retirado”.