Casa cheia. Intensidade. Emoção. Grandes lances individuais. Algumas falhas coletivas. Em resumo, mais um grande jogo que, com sete golos em dez minutos da primeira parte, voltou a demonstrar o crescimento do futsal em Portugal como a maior modalidade de pavilhão. No epílogo da quarta final decidida entre Benfica e Sporting na “negra”, após o triunfo dos encarnados em 2012 e dos verde e brancos em 2013 e 2018, a vitória sorriu às águias, que ganharam na Luz por 4-3 e recuperaram o título três anos depois, evitando aquele que poderia ser um inédito tetra do rival leonino na história do futsal.

O “inferno” da Luz fez-se sentir ainda antes do início do encontro (tendo Cardinal como principal “alvo” dos adeptos da casa) e o Benfica deu-se melhor com esse clima a abrir, criando várias oportunidades de perigo junto da baliza de Guitta e praticamente secando as saídas rápidas do Sporting. Roncaglio, na primeira subida para fazer 5×4, deixou a primeira ameaça; Fernandinho, num grande lance individual a rodar na área, viu também o golo inaugural travar no guarda-redes brasileiro; e ainda houve mais tentativas de meia distância de Robinho e André Coelho. Em cerca de cinco minutos, em que só a entrada de Rocha conseguiu dar alguma frieza em ataque organizado aos leões, os encarnados já levavam 15 remates contra quatro do adversário. E Fábio Cecílio, por essa altura, ainda teve um desvio na área após lance de estratégia que bateu na trave e ficou nas costas de Guitta.

Faltava o golo que desbloqueasse o jogo e o mesmo surgiu em versão dupla por um herói improvável das águias: Raúl Campos, que tinha ficado de fora das opções pela aposta em Fits, inaugurou o marcador com uma grande trabalho a receber de pé direito e a fuzilar de pé esquerdo na área, a bola foi a meio-campo e, poucos segundos depois, isolado perante Guitta, aumentou para 2-0 com um chapéu de belo efeito ao guarda-redes brasileiro (8′). O Benfica ficava em vantagem, estava melhor e até ficou perto do 3-0 quando Fábio Cecílio, isolado, atirou a rasar a trave perante a desorganização defensiva dos leões.

Da mesma forma que os encarnados necessitavam de golos para materializar o melhor início, também o conjunto verde e branco precisava de um golo pelo menos para assentar o seu jogo e reentrar na partida. Também aconteceu, também foi em versão dupla: num remate de primeira após assistência de Deo, Cardinal reduziu para 2-1 aos 9′ (no seguimento do lance, o internacional português “pegou-se” com Roncaglio, ficaram ambos a mostrar marcas na barriga e saíram com amarelo) e Leo, num livre direto a 12 metros onde o guarda-redes visitado pareceu mal batido, empatou quatro minutos depois, numa altura em que o Sporting já estava melhor e a criar perigo mais em lances de estratégia do que em ataque organizado.

Os momentos de domínio iam rodando, à semelhança do que acontecera nos outros quatro jogos da final, e foi nas melhores fases de cada uma das equipas conseguiu voltar a marcar, num total fabuloso (e atípico) de sete golos em dez minutos: Bruno Coelho, numa segunda bola mal desviada por Guitta após passe longo, recolocou as águias em vantagem (14′); Raúl Campos, num lance onde levou com a bola na perna quando Erick queria soltar na frente e a mesma foi para a baliza aumentou a vantagem (15′); e Rocha, na recarga de um livre onde desviou de calcanhar em cima de Roncaglio, fez o 4-3 que se registava ao intervalo (18′), que chegou com um lance em que os jogadores leoninos ficaram a pedir mão na área de Fábio Cecílio.

Na segunda parte, até de forma natural face à intensidade do primeiro tempo e ao calor que se fazia sentir num Pavilhão da Luz com lotação esgotada, o ritmo acabou por baixar e os dez minutos iniciais tiveram menos oportunidades que, além de raras, foram aparecendo sobretudo no seguimento de remates de meia distância em ataque organizado ou lances de estratégia. Aliás, a esse propósito, se existe uma grande diferença em relação às finais de anos anteriores (não em 2018, mais afastadas) tem a ver com a intensidade com que se joga, de tal forma que passou a ser um cenário quase “impossível” realizar duas partidas em dias consecutivos como acontecia num passado recente. As pernas, ou a falta delas, ditavam o (pouco) que se jogava.

A menos de quatro minutos do final, Alex Merlim entrou para guarda-redes avançado e mudou por completo as características da partida, que tão depressa podia dar empate, como aconteceu no jogo 4 com um golo de Rocha a 32 segundos do final do tempo regulamentar, como o 5-3 que praticamente fecharia as contas do encontro e do título. Os cerca de 240 segundos em falta multiplicaram-se e por muito, perante as paragens para limpeza do piso e para acalmar ânimos, mas nada mais voltaria a mudar, até porque apenas por duas vezes o 5×4 gizado por Nuno Dias conseguiu superar a boa defesa da equipa de Joel Rocha com remates enquadrados com a baliza contrária bem defendidos por Roncaglio. A sete segundos do final, houve o canto de cisne: num livre bem trabalhado, Cavinato rematou forte ao poste e perdeu a derradeira oportunidade da partida.