Há 66 anos que as oficinas da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (FRESS) laboram sem parar. Lá dentro, no coração de Lisboa, ofícios como a marcenaria, a cinzelagem, a latoaria, a encadernação, a pintura decorativa e a passamanaria, entre muitos outros, ascendem ao estatuto de arte feita à mão. O principal ponto de venda, até aqui circunscrito ao Largo das Portas do Sol, cedeu lugar à Manufactum, loja que acaba de abrir portas a meio caminho entre o Chiado e o Cais do Sodré. “Sempre tivemos uma ótima localização, mas não do ponto de vista comercial, porque não é ali que passam os nossos clientes”, afirma Vanessa Salgado, administradora da fundação.

A abertura de uma loja mais bem posicionada era um projeto há muito na calha. Agora, em 75 m2 de “espaço ideal”, mostra-se o que a FRESS tem de melhor — se preferir, as joias da coroa de uma instituição que, segundo Vanessa, é única. “É a única instituição do mundo em que estes três pilares — o museu, a formação e as oficinas — operam sinergicamente”, recorda a administradora. Abre-se agora um novo capítulo na história da fundação. Já não são só os biombos palacianos, nem a bonheur du jour do século XVIII — legitimamente apelidada de Ferrari das oficinas de cinzelagem. O design contemporâneo tem uma palavra a dizer e, depois de décadas a dedicarem-se à conservação e ao restauro, bem como à produção de mobiliário de elementos decorativos de séculos passados, os mestres e artesãos uniram esforços com designers de renome nacional e internacional.

É uma réplica de uma bonheur du jour do século XVIII, mas também lhe pode chamar o Ferrari da FRESS © Francisco Romão Pereira/Observador

A nova loja é uma montra de tradição e modernidade. Resultado da criatividade do francês Emmanuel Babled, e pelas mãos dos mestres da fundação, o aparador Beverly é o cartão-de-visita perfeito e a peça que, a partir da montra, seduz quem passa. Composto por cinco madeiras nobres, uma obra-prima de encaixes e volumes, que já foi apresentada em Milão, Paris e Nova Iorque. “Foi um trabalho conjunto entre os designers, que desenharam as peças, e os mestres, que encontraram as soluções técnicas”, refere Vanessa Salgado. Nas 18 oficinas da fundação, trabalham 90 pessoas. Uma equipa multigeracional, que vai do mestre de 70 anos ao aprendiz de 22.

E se o estilo clássico pelo qual a FRESS é hoje conhecida dentro e fora do país conta já com 800 peças em catálogo, a nova linha de design contemporâneo nasce a pedido de uma nova geração de clientes. Logo ao lado, há peças de Filipe Alarcão, o primeiro nome a surgir nesta nova e fresca vaga. A secretária em madeira de choupo, as colunas de gavetas giratórias, inspiradas num desenho originalmente feito para a Altamira, e uma versão 2.0 de um contador exposto no Museu de Artes Decorativas Portuguesas partilham a assinatura do designer português, que começou a colaborar com a fundação em 2012. Mas o rol de novas peças não se esgota aqui. O francês Sam Baron, atualmente responsável pelo Departamento de Design da Fabrica da Benetton, tirou partido das habilidades da oficina de latoaria aplicando-as à luminária. A holandesa Marre Moerel pôs à prova a arte da gravação em couro, também para produzir candeeiros. Desenhada por Marco Sousa Santos, a “Cama de Ópio” completa a linha. Embora cada peça esteja limitada a sete exemplares, depois destes criativos virão outros.

Um dos candeeiros desenhados por Sam Baron para a FRESS © Divulgação

Mas voltemos ao Ferrari. A pequena escrivaninha usada em tempos pelas senhoras foi construída em pau-santo e pau-rosa e está cheia de detalhes ouro fino cinzelado à mão. Foram dez meses de trabalho até chegar à peça final, sete só para o cinzelador, cuja habilidade e resultado final reclamam metade do preço de venda ao público — 28.000 euros. Tem sido, aliás, a capacidade de restaurar, reparar e replicar peças de outros séculos que tem projetado a FRESS lá fora. A recente intervenção no Palacete Mendonça, sede do Imamat com abertura prevista ainda para este ano, é só uma pequena amostra do que estas equipas são capazes. A biblioteca do Palácio de Versalhes e um conjunto de igrejas coloniais no Brasil, que obrigaram à deslocação de profissionais portugueses para o terreno durante oito meses, são só alguns exemplos.

Para a Rua do Alecrim vieram outras joias da coroa, a começar por dois belos exemplares da família dos biombos — um é uma réplica de uma peça exposta no Palácio Nacional de Queluz, o outro é uma obra lisa, porém totalmente lacada a folha de ouro de 24 quilates. Ao museu e às oficinas, a fundação junta ainda a escola, de onde saem, em média, entre 60 e 80 alunos a cada dois anos. Os mais talentosos são absorvidos pela própria instituição, para garantir a continuidade dos ofícios, os restantes estão prontos a integrar outras equipas. “Formamos a nossa própria concorrência”, admite Vanessa.

Existem 18 oficinas na fundação, cada uma delas dedicada a um ofício. Além da produção de novas peças, também se encarregam de trabalhos de restauro e conservação © Divulgação

Em tempos, foram 300 os trabalhadores da fundação. Criada em 1953, ano em que o banqueiro Ricardo Ribeiro do Espírito Santo Silva doa o Palácio Azurara e parte da sua coleção ao Estado. “É muito caro manter os ofícios tradicionais e a manufatura”, assinala a atual administradora, evidenciando a perda do principal mecenas da fundação, o Banco Espírito Santo, há quatro anos. “O Governo reconheceu imediatamente o mérito e a importância desta instituição. O apoio foi unânime, da esquerda à direita”, continua. Atualmente, a FRESS tem no Ministério da Cultura, na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, na Ascendi e na Câmara Municipal de Lisboa os seus principais apoios.

Mas as dificuldades financeiras persistem. Às reduzidas margens nos preços das peças acresce a necessidade de modernizar algumas áreas dentro das oficinas e de fazer uma reestruturação nos recursos humanos, sobretudo no que toca à formação e à contratação de mão-de-obra especializada. Ainda assim, recentemente, a fundação fechou as contas com resultados positivos, pela primeira vez em 15 anos. “Mas ainda há um longo caminho a percorrer”, ressalva Vanessa Salgado. Espera-se que a nova loja, assim como a linha de design contemporâneo ajudem a alavancar a sustentabilidade financeira da FRESS. Atenção, nem tudo o que ali se vende tem preços astronómicos. Dos livros aos acessórios de moda, de pequenos objetos utilitários a artigos de papelaria, há opções para todos os orçamentos, que é como quem diz dos três aos 45.000 euros.

O interior da loja Manufactum © Francisco Romão Pereira/Observador

Nome: Manufactum
Morada: Rua do Alecrim, 79, Lisboa
Telefone: 21 347 1887
Horário: de segunda-feira a sábado, das 10h às 13h30 e das 14h30 às 19h