A Câmara de Coimbra vai retomar negociações com a família de Louzã Henriques para acolher e divulgar os espólios que o médico e etnólogo reuniu ao logo da vida, anunciou esta segunda-feira o presidente do executivo.

Manuel Machado prestou esta informação no início da reunião quinzenal do executivo, na qual foi aprovado por unanimidade um voto de pesar pela morte do antigo preso político Manuel Louzã Henriques, proposto pelo presidente da Câmara Municipal.

Devido à morte do psiquiatra no dia 29 de julho, com 85 anos, “infelizmente, não se concluiu esse processo”, disse Machado, naquela que foi a primeira reunião após o sucedido. “Vamos de modo adequado desenvolvê-lo”, acrescentou o autarca.

O socialista, que é também presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, salientou que Louzã Henriques, militante do PCP desde 1958 e oriundo da Serra da Lousã, tendo nascido na povoação do Coentral, concelho da Castanheira de Pêra, “foi um cidadão de Coimbra e da região, abnegado, batalhador e antifascista”.

A sua obra pública, designadamente nas áreas cívica e cultural, “é merecedora do reconhecimento da Câmara Municipal de Coimbra”, acentuou.

Também os vereadores Francisco Queirós (CDU) e Madalena Abreu (PSD) intervieram para reforçar a homenagem a Louzã Henriques e a importância das suas coleções, sobretudo de natureza etnológica, incluindo centenas de instrumentos musicais, e no domínio da arqueologia industrial, com um acervo que abrange máquinas de costura, máquinas de escrever e aparelhos de som de várias épocas, como grafonolas e rádios antigos, entre outros objetos.

Francisco Queirós propôs que “seja auscultada a vontade dos familiares” de Louzã Henriques tendo em vista “o reconhecimento público desde cidadão na toponímia da cidade”. O autarca comunista defendeu ainda que a autarquia deve conversar com os herdeiros do médico “para exposição pública do vasto espólio cultural de Louzã Henriques”.

Membro da República Palácio da Loucura, quando frequentava a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), foi preso várias vezes por razões políticas durante a ditadura fascista.

Em 1958, envolveu-se na candidatura à Presidência da República de Arlindo Vicente e, depois, com a desistência deste a favor de Humberto Delgado, apoiou o “General Sem Medo”.

Tinha também fortes ligações à Lousã, de onde era natural seu pai, Diamantino Henriques, que foi emigrante nos Estados Unidos da América, em cuja casa e quintal a Câmara local instalou o Museu Etnográfico Dr. Louzã Henriques, acolhendo coleções únicas em Portugal, designadamente de arados, cangas e carros de bois, propriedade do patrono e família.

Em 2013, para assinalar o 80.º aniversário de Louzã Henriques, nascido em 06 de setembro de 1933, a editora Lápis de Memórias, de Coimbra, publicou um livro sobre a vida e a obra do poeta e intelectual, intitulado “Manuel Louzã Henriques – Algures Com Meu(s) Irmão(s)”, baseado em entrevistas de Manuela Cruzeiro e Teresa Carreiro e com testemunhos de amigos.