Há dor a mais e muito pouca glória em “Dor e Glória” de Pedro Almodóvar. Dor de costas, dor de cabeça, dor de garganta, dores de coração, dores existenciais e anímicas. Todas elas sofridas por Salvador Mallo, um célebre realizador à beira de fazer 70 anos, “alter ego” de Almodóvar interpretado por Antonio Banderas neste filme semi-autobiográfico, que se inspira muito na sua intimidade e no seu trabalho. Crivado de maleitas do corpo e de achaques da alma, Salvador vive confortavelmente mas sozinho e semi-recluso no seu belíssimo apartamento de Madrid (muitos dos quadros, livros e outros objetos são do próprio Almodóvar), tem uma empregada dedicada e uma fiel assistente que zelam por ele, mas julga ter deixado para trás os seus dias de glória. Não consegue sequer pensar em escrever um argumento ou enfrentar a rodagem de um filme.

[Veja o “trailer” de “Dor e Glória”:]

Como vários outros filmes de Almodóvar, “Dor e Glória” funciona por coincidências e associações, e num constante vaivém cronológico e emocional. Um encontro casual com Zulema (Cecilia Roth), uma amiga atriz, e a projeção, em cópia restaurada, na Cinemateca de Madrid, de “Sabor”, um sucesso que Salvador realizou nos anos 80, vão levá-lo a reencontrar-se com o volátil  Alberto (Asier Etxeandia), o intérprete do filme, com o qual tinha cortado relações após a tempestuosa rodagem deste. Alberto põe Salvador a consumir heroína, Salvador passa-lhe um texto muito pessoal para que este o encene e interprete, mas sem referir quem é o autor. Este encontro, e a peça, conduzem-no, por sua vez, a Federico (Leonardo Sbaraglia), um argentino, seu antigo amante dos tempos loucos e criativos da “movida” madrilena, hoje casado e pai de filhos.

[Veja uma entrevista com Pedro Almodóvar:]

A heroína que Salvador começa a consumir regularmente desencadeia uma série de “flashbacks” para a sua infância numa aldeia na província: a recordação da mãe ainda jovem (Penélope Cruz), e mais tarde já idosa e próxima da morte (Julieta Serrano); a primeira sessão de cinema; o primeiro contacto com o desejo carnal, e um tempo de pobreza e incerteza, mas também de felicidade, esperança e promessas, coisas a que hoje ele não pode aspirar, apenas recordar. Com as devidas distâncias e diferenças, “Dor e Gloria” está para “Fellini 8 ½” como Antonio Banderas está para Marcello Mastroianni neste filme. São duas ficções do “eu”, feitas por dois grandes cineastas em momentos importantes de introspeção existencial e criativa das suas vidas e carreiras, e que recorrem aos seus atores favoritos e de mais confiança para os representar.

[Veja uma entrevista com Antonio Banderas:]

Este filme outonal e gravemente introspetivo, com a sua parada de fantasmas do passado, de amores extintos, de recordações distantes, recriminações ainda vivas e aflições presentes, e assombrado pela memória permanente de uma mãe desveladíssima e queridíssima cuja morte Salvador não consegue superar, poderia, nas mãos de outro cineasta que não Pedro Almodóvar, ter resultado pesada e insuportavelmente narcisista e indulgente, sempre a esticar a mão para mendigar a piedade do espectador. Mas “Dor e Glória” é comovente sem ser sentimentalão, apesar de melancólico está cheio de afetuosidade e ternura, não é hemofílico da auto-condescendência nem se entrega à choraminguice exibicionista. Até tem fogachos esparsos de comédia, como na cena na sala de espera do consultório, em que Salvador se pergunta por que raio será tão popular na Islândia.

[Veja uma entrevista com Penélope Cruz e Julieta Serrano:]

A fita deve também muito aos velhos colaboradores de Pedro Almodóvar, do compositor Alberto Iglesias para a música ao diretor de fotografia José Luis Alcaine, passando por Antxón Gomez na direção de produção (a casa de Salvador, cheia das cores e dos contrastes vibrantes que faltam à vida de quem lá mora, vai passar a ser um dos grandes cenários dos filmes do realizador). E deve ainda, e acima de tudo, à interpretação primorosamente parcimoniosa (e premiada em Cannes em 2018) de Antonio Banderas num Salvador cinzento, mortiço e descrente de si mesmo, um “zombie” do prazer de viver e do entusiasmo de criar (as cicatrizes que vemos no peito do ator no plano de abertura na piscina, são mesmo dele e não maquilhagem: já fez duas operações de coração aberto). Banderas personifica Salvador como um homem que se apaga aos bocadinhos e em surdina, e não está minimamente preocupado com isso.

[Veja uma cena de “Dor e Glória”:]

“Dor e Glória” não termina em tom elegíaco nem em registo pessimista. Há ainda esperança para Salvador, e sumo criativo dentro dele. Antes de o anestesiar para a operação à garganta, o médico pergunta-lhe como se sente, e se está a trabalhar nalgum projeto, e ele responde: “Oh, doutor, sim, estou a escrever uma coisa.” E o plano final, do filme dentro do filme, da memória duplamente recriada, esclarece-nos que Salvador Mallo, tal como Pedro Almodóvar, ainda tem coisas para dizer.