Estamos em Milão, uma das três principais cidades europeias da moda, e as tendências, o estilo e a irreverência estão ao virar da esquina. Mas nem só de roupa vive a cidade italiana em setembro, o calçado ganha protagonismo na 88ª MICAM, a maior feira de calçado e acessórios do mundo, que decorre até quarta-feira. São quatro dias, sete pavilhões colossais, organizados por categorias, e um recinto onde cabem 1400 expositores, vindos de 50 países dos quatro cantos do mundo.

Pelos corredores ouvem-se várias línguas, contam-se olhares curiosos junto das montras, catálogos de marcas debaixo do braço e painéis gigantes com publicidade. Tal como numa fashion week, aqui as compras são outras. Em vez de lojas, há expositores. Em vez de clientes, há buyers. Em vez de um dou dois pares de sapatos, compram-se às centenas. Há quem se descalce para experimentar vários modelos, quem toque num sapato várias vezes para sentir as diferentes texturas e quem os fotografe até à exaustão para partilhar as novidades.

As 81 marcas portuguesas trazem na bagagem as propostas para a estação primavera-verão 2020, onde as sugestões passam pela escolha de materiais alternativos ao couro e mais amigos do planeta, modelos cada vez mais confortáveis e desportivos e são algumas colaborações com artistas e jovens designers em coleções cápsula ou edições limitadas.

Adeus plástico, olá floresta

Depois do couro elástico e de palmilhas com efeito massagem, a Softwaves intensificou esta edição as técnicas da sua linha Green Ediction ao usar bio massa para fazer sapatos. “Em vez de reciclar plástico e depender da produção e consumo do mesmo, usamos bases vegetais, aproveitamos aquilo que é recolhido nas florestas para criar fibras de tecido”, explica ao Observador Marcelo Santos, o responsável. Desde 2005 que a marca produz calçado feminino, desta vez forros e palminhas podem ter origem numa folha orelha de elefante, que depois de um processo de curtimenta dá origem a uma pele de origem vegetal.

Softwaves

À primeira vista, a Gladz pode passar despercebida, mas a marca de Oliveira de Azeméis, dá-nos uma lição de estilo: menos é mais. Com um design minimalista e inspirada nas técnicas tradicionais japonesas, a Gladz lança este ano uma linha vegan com materiais biodegradáveis, da pele aos cordões, onde até os saltos altos são de madeira reciclada. “São modelos que retiramos da nossa coleção e que aqui atêm uma componente eco-friendly. Também as nossas embalagens sofreram algumas modificações, o papel é reciclado, não há cola nem tintas tóxicas”, diz Miguel Moreira, responsável em marca, em entrevista ao Observador.

A coleção para o próximo verão tem o futurismo como tema e modelos em tons pastel que vão dos sneakers às sandálias rasas, onde o verniz e em padrão cobra são novidades. Na MICAM, a Gladz já fechou encomendas com mercados novos como a Suíça ou o Canadá, sendo o mercado asiático o mais representativo. Ao contrário da maioria das marcas, esta tem apostado nos últimos meses no mercado português, abrindo seis pontos de venda, distribuídos por Chaves, Viana do Castelo, Porto, Lisboa, Penafiel e Caldas da Rainha.

Gladz

Conforto, arte e muita personalidade nos pés

Depois de assinar os figurinos para peças de teatro e ter colaborado com uma marca de joias, o stylist Nélson Vieira foi convidado pela marca Perks para desenvolver uma coleção cápsula, composta por três modelos masculinos e dois unissexo. “Tive carta branca, fiz o que usaria e o que acho que faz mais sentido acrescentar ao mercado”, revela em entrevista ao Observador.

Uma das novidades nas sugestões do stylist são as cunhas de cinco centímetros que encorpou nos sapatos masculinos, feitos em pele e disponíveis em preto, prata, azul e branco. Apostou nos clássicos com detalhes em chapa dourada e um tipo de pele que se transforma com a usabilidade, mas também em sneakers, cuja sola imponente dá nas vistas em moldes versáteis e casuais. Dos cordões aos tecidos, Nélson Vieira acompanhou todo o processo de confeção na fábrica da Perks, em São João da Madeira. “Dá-me gozo falar com as costureiras e, ao início, dizerem-me que as minhas ideias são impossíveis. No fim, conseguimos chegar ao resultado que pretendíamos.” Para o stylist, um casaco e uns bons sapatos fazem um look e esta experiência no calçado deixou rasto. “Criar uma marca própria não está fora de questão no futuro”, confidenciou ao Observador.

Easy Walk Experience

Numa outra ponta da feira encontramos um stand de paredes brancas, mas cheio de cor. A Easy Walk Experience, uma marca recente que surgiu em parceria com a veterana Arcopedico, é especialista na arte de fazer calçado confortável, respeitando a anatomia do pé. “Esta assinatura tem um cariz mais jovem, divertido e arrojado, relacionado com a criatividade e até mesmo com a arte”, explica Sílvia Santos, uma das responsáveis, ao Observador.

Graças a uma técnica de construção exclusiva, estas bailarinas desportivas, batizadas de Lolitas, pesam 120 gramas, graças a um material elástico, são completamente maleáveis e possíveis de lavar na máquina. Depois de uma edição básica composta por 20 cores em sola branca e em sola preta, seguiu-se, há um ano, uma parceria com a Swarovski, em que cada sapato é coberto por cristais da marca, combinados de três formas, representando diferentes constelações.

Depois de em julho ter sido premiada no European Product Design Award pelo seu design inovador, a Easy Walk Experience convidou a artista plástica inglesa Julie Edmunds para desenvolver uma edição limitada, que estará à venda no próximo verão. Conhecida pelas suas peças em mosaico coloridas, os seus desenhos e composições serviram de inspiração para uma coleção de onze modelos limitados, dos quais quatro têm cristais incluídos. “Decidimos desafiá-la a reproduzir os seus padrões e adaptá-los ao nosso calçado. É ter uma autêntica obra de arte nos pés”, sublinha Sílvia Santos.

Patrick de Pádua x Ambitious

O casamento entre a Ambitious e o jovem designer Patrick de Pádua começou quando, em outubro do ano passado, o criador pediu à marca sapatos para o seu destile na Moda Lisboa. Ambos têm em comum o estilo sportswear, o foco no universo masculino e a vontade de inovar. Nascida em 2009, com fábrica em Guimarães, a Ambitious criou recentemente uma linha – Ambitious X – dedicada a colaborações com artistas e designers. A primeira parceria tem a assinatura de Patrick de Pádua em 11 sneakers em pele, onde saltam à vista as solas imponentes, as redes e cores como o amarelo ou o vermelho.  Ao mesmo tempo, a marca aventurou-se pela primeira vestuário e lançou, também em conjunto com Patrick, uma linha de streetwear com t-shirts, bombers, camisas e acessórios, como mochilas, bonés ou cintos. “A nossa ideia é criar um look total com produtos da marca”, realça Pedro Santana, responsável pela comunicação da Ambitious.

Quem também é fã de calçado confortável e já pensa em ter uma marca usável dos pés à cabeça são os gémeos manequins Jonathan e Kevin Sampaio. Deux Sampaio é o nome da marca de sneakers que lançaram este ano e que estará à venda online no final deste mês. O primeiro passo da dupla no universo do calçado centra-se numa variação de cinco modelos desportivos, alguns com cano alto, em tons que variam entre o branco, preto e cinza, onde os forros têm cores mais vibrantes. Dentro do sapato lê-se “made in heaven”, uma expressão que remete para “o paraíso” que, para os gémeos, é mesmo Portugal.

Kevin e Jonathan nasceram em França, mas chegaram a Portugal aos cinco anos e adotaram Felgueiras como a sua terra-natal. É lá que foi confecionada a sua primeira coleção de sapatos, cujo desenho é fiel ao gosto pessoal de cada um. “Não somos designers, não seguimos tendências, mas sabemos bem o que gostamos e o que nos fica bem”, explica Kevin, em entrevista ao Observador, o gémeo que conheceu Madonna nas filmagens do seu videoclip. Com modelos disponíveis do 38 aos 45, o calçado assinado pelos manequins é unissexo, uma das grandes tendências no setor.

O Observador viajou para Milão a convite da APICCAPS.