1999. Foi mesmo ali, na viragem do milénio, quando metade do planeta estava de olho no relógio e antecipava uma espécie de apocalipse tecnológico – máquinas de multibanco sem notas; semáforos sem cores; aviões a voar às cegas e vários outros desastres imagináveis desta distopia coletiva imaginária que ficou conhecida pelo vírus Y2K – que o cinema teve um dos seus melhores anos. Nada como uma crise, qualquer crise, para que o sangue circule e a energia criativa que invade o ar arrepie a pele dos contadores de histórias como uma comichão onde é irresistível passar as unhas. Já dizia Harry Lime, a personagem icónica de Orson Welles em “O Terceiro Homem”:

“Em Itália, durante os trinta anos em que foram controlados pelos Bórgia, tiveram guerra, terror, assassinatos e derrame de sangue mas produziram Michelangelo, Leonardo Da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, tiveram amor fraternal – 500 anos de democracia e paz e o que é que eles produziram? O relógio de cuco.”

(para quem quiser recordar essa histeria colectiva temporária, é obrigatório ouvir “Headlong: Surviving Y2K”, o extraordinário podcast de Dan Taberski)

Para um amante de cinema, 1999 foi um magnífico momento para se estar vivo. É uma opinião subjetiva e pouco original – são muitos os sites e revistas da especialidade que olham para o último ano do século XX com o saudosismo dos que, como referiu Martin Scorsese numa recente entrevista, não acham muita piada ao facto da Marvel ter transformado as salas de cinema numa montanha russa da feira popular. Mesmo não tendo nada contra super-heróis (com exceção do Hawkeye, não sei mesmo para que é que esse tipo serve), a verdade é que 1999 pode gabar-se de inúmeras obras-primas ou títulos que marcaram a História da cultura popular:

“Being John Malkovich”, de Spike Jonze
“Eyes Wide Shut”, o último Kubrick
“Matrix”, de Lana e Lilly Wachowski
“Magnolia”, de Paul Thomas Anderson
“Election”, de Alexander Payne.
“Toy Story 2”, de John Lasseter, Ash Brannon e Lee Unkrich
“The Blair Witch Project”, de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez
“The Limey”, de Steven Soderbergh
“Princesa Mononoke”, de Muyazaki
“The Straight Story”, de David Lynch
“Todo Sobre Mi Madre”, de Pedro Almodóvar
“Three Kings, de David O. Russell
“The Insider”, de Michael Mann
“After Life”, de Hirokazu
“The Iron Giant”, de Brad Bird
“American Beauty”, de Sam Mendes.

E “Fight Club”, escrito por Jim Uhls, que adaptou o romance de Chuck Palahniuk, realizado por David Fincher, com Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf e Jared Leto. A razão que nos trouxe cá.

“Ouçam, vermes. Vocês não são especiais. Vocês não são um lindo e singular floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria em decomposição de qualquer outra pessoa.”

[o trailer de “Fight Club”:]

Na primeira vez que vi “Fight Club” (e foram muitas) e ouvi Brad Pitt dizer a linha de diálogo transcrita em cima, pensei: “O que o Brad Pitt nos está a dizer é que nós não somos – e nunca seremos — o Brad Pitt”. É num momento em que Tyler Durden já está a treinar o seu exército de “macacos prontos a serem disparados para o espaço” e o nosso Narrador sem nome (Edward Norton) se revela cada vez mais impotente para impedir a insanidade da revolução anunciada: o Projeto Caos. Mas não é a primeira vez que Pitt/Durden nos confronta com essa distinção entre ele próprio e nós, os macacos espaciais:

“Fomos educados pela televisão para acreditarmos que um dia seríamos milionários e deuses dos filmes e estrelas de rock. Mas não vai acontecer.”

Diz o ator a quem isso aconteceu.

20 anos depois, basta substituir “televisão” por “redes sociais” e torna-se evidente que todos os temas do filme continuam (incrivelmente) atuais. Em particular no retrato de uma masculinidade tóxica que anda de novo – agora mesmo — a ganhar voz. Por isso, alguns críticos afiaram as penas com que acusariam “Clube de Combate” de ser um filme fascista sem entenderem que o interesse de Fincher e companhia era infiltrar-se num estado de espírito para depois – à semelhança do que o Narrador faz no final – o desconstruir e derrubar, como arranha-céus que caem ao som do “Where Is My Mind”, dos Pixies.

[a cena final do filme, ao som dos Pixies:]

O filme — cáustico e satírico e hilariante — antecipa o vazio existencial daqueles que, habituados a uma posição de superioridade apenas justificada por um enquadramento sistémico favorável, se revoltam contra a sua própria redundância. Durden pergunta-se:

“Somos uma geração educada por mulheres. Pergunto-me se uma outra mulher é mesmo a resposta que procuramos”.

Mas o espectador já sabe a solução porque antes conhecemos Marla Singer (Helena Bonham Carter) e a sua alma e presença preencheram o ecrã e trouxeram luz – uma bizarra e alucinada luz, mas mesmo assim – a um mundo onde o excesso de testosterona fechou todas as janelas. Não é por nada que eles lutam em caves.

Grandes Temas à parte, “Clube de Combate” é uma das melhores comédias contemporâneas. Como já é por demais óbvio neste artigo, o filme é imensamente citável e pedirem-me para escolher uma parte preferida é como perguntarem a um pai de que filho é que gosta mais: há os frames de Tyler Durden colocados de forma subliminar no início do filme, tal como a própria personagem fazia editando imagens de pénis em desenhos animados; toda a sequência em que o Narrador se dirige a nós, os espectadores, apresentando Tyler e o seu hábito de urinar na comida que servia em restaurantes – e o “punchline”, mais tarde, quando Ed Kowalczyk, o vocalista dos Live que por alguma estranha razão faz de empregado de mesa pertencente ao Projeto Caos, diz ao Narrador que o melhor é não pedir o ensopado de marisco; Norton a espancar-se a si próprio em frente ao patrão; um final mais do que surpreendente que nos obriga a ver o filme de novo e a ficar maravilhados quando percebemos que tudo bate certo; Meatloaf com seios, o lindo Jared Leto a ficar desfigurado porque o Narrador quer “colocar um bala no meio dos olhos de todos os pandas que não são capazes de fazer sexo para salvar a espécie”; saber que Marla só diz:

“Não me fodiam assim desde o secundário”.

Porque os estúdios obrigaram a alterar o diálogo original:

“Quero ter o teu aborto”.

A realização de David Fincher é um saco cheio de truques, como um espectáculo de ilusionismo, sublinhando de forma brilhante todos os elementos meta-narrativos do guião de Jim Uhls. É um dos raros casos onde a adaptação é bem melhor do que o livro em que se baseia. Será um dos mais subversivos projetos alguma vez financiados por um grande estúdio americano e foi, naturalmente, um falhanço comercial. Numa ante-estreia, quando já se sentia o desconforto do público, Brad Pitt virou-se para Edward Norton e disse-lhe que nunca faria um filme melhor do que aquele. O tempo deu-lhe razão. “Clube de Combate” tornou-se um filme de culto, ajudado por uma magnífica edição em DVD com alguns dos melhores extras de sempre. Trailers, teasers e falsos catálogos do IKEA. Procurem na net. Vale a pena.

Brad Pitt e Edward Norton em “Fight Club”

Em 2002, quando vivia em Nova Iorque e acreditava que conseguiria pagar as contas a trabalhar como jornalista correspondente (acabei como empregado de mesa mas prometo que nunca urinei para a comida), consegui entrevistar Chuck Palahniuk, num texto que, se a memória não me atraiçoa, foi publicado do “Semanário Económico”. Antes, fascinado com Clube de Combate, li todos os seus livros, sentado no chão da Barnes and Noble da Union Square, decorando a cada dia o número da página onde tinha ficado para lá voltar logo que possível. Foi numa crítica ao seu trabalho no “Wall Street Journal” que alguém o comparou, na sua capacidade de encarar a realidade com um ácido e negro sentido de humor, a Don Delillo – agora, com mais vinte anos de livros e vida em cima, percebo que não há comparação possível entre Palahniuk e um dos grandes escritores americanos contemporâneos, mas também por isso, por me ter indicado o caminho para coisas melhores, “Clube de Combate” é um dos filmes da minha vida.

Mas falava da entrevista e de uma conversa pelo telefone da qual só me recordo de duas ou três respostas. Palahniuk contou-me que a ideia lhe surgiu quando trabalhava numa empresa de transportes: depois de umas férias onde tinha andado à pancada e ao regressar ao trabalho com o rosto esmurrado, ninguém lhe perguntou o que tinha acontecido, fingindo antes que não reparavam em nada; falou-me de como sentia que os críticos escreviam sempre como se alguém tivesse acabado de mijar nos seus sapatos (se sentem que Palahniuk tem uma apetência pela utilização de escatologia no seu discurso, têm razão) e, por fim, quando lhe perguntei se ele achava que alguma vez estaria em paz – ele, que viu o pai ser assassinado pelo ex-marido de uma namorada e cujo avô matou a avó, suicidando-se em seguida — o escritor respondeu:

“Ainda me lixo por dizer isto, mas espero nunca estar em paz até morrer”.

No final, quando o Narrador dá a mão a Marla e os prédios caem numa sinfonia de destruição, ele diz-lhe:

“Conheceste-me numa altura muito estranha da minha vida”.

E aquela energia nervosa continua no ar e ninguém parece estar em paz e todos os dias são uma altura muito estranha para se estar vivo.

A primeira regra era não falar do Clube de Combate. E não é por acaso que aqui estamos, 20 anos depois, a falar do Clube de Combate.

Tiago R. Santos é argumentista