Rui Rio vai ser o centro do PSD para levar o PSD ao centro. No Porto Palácio, um local talismã na luta contra Montenegro, o presidente do PSD anunciou a recandidatura contra os que se movem pela “vaidade pessoal” e que querem um partido “ideologicamente vazio” e “iminentemente liberal”. Um partido ao centro, e centrado no seu líder que, segundo confirmou Rui Rio, vai assumir a liderança da bancada parlamentar até ao próximo congresso do PSD, em fevereiro. É o ‘riocentrismo’: Rio o presidente, Rio o candidato, Rio o líder parlamentar.

Rui Rio começou pelo que o levou até ali, as diretas, dizendo aos adversários, com as letras todas: “Estou disponível para disputar as eleições, liderar o PSD na oposição ao PS e conduzir o PSD nas próximas eleições autárquicas”. E com sacrifício pessoal. Se, na balança, escolhesse o que era mais fácil saía já do partido: “De um lado estava a parte pessoal, familiar e profissional, do outro os interesses do PSD e do país, que acabam por ser os mesmos porque se o partido ficar sem rumo isso não é bom para Portugal”, disse.

Isto porque acredita que o PSD corria risco de irrelevância eleitoral e acena com o fantasma do caos pós-Rio: “A minha não-recandidatura pode levar o partido a uma grave fragmentação de consequências imprevisíveis”.

Os críticos também não escaparam. Numa crítica velada a Luís Montenegro, Rio lembrou os adversários que se movem por “vaidade pessoal” e não percebem a “dimensão do que se propõe”. E lembrou o mau bocado que passou com as críticas internas. O presidente do PSD lembrou as deslealdades e permanentes boicotes internos” nos moldes em enfrentou em 2018 e 2019. Rui Rio recordou o “lamentável golpe” de janeiro de 2019, que comparou à forma como Costa afastou António José Seguro da liderança socialista: “Tentaram fazer no PSD o que se fez no PS em 2014 e que esses mesmos à data criticaram”.

Relvas, o primeiro crítico a falar após a noite eleitoral, também teve direito a referência direta do líder. O líder do PSD disse, com ironia, que Miguel Relvas “tem em parte razão” quando diz que Rio não gosta do partido. “Eu gosto muito do PPD e do PSD pelo que fez nos últimos 40 anos, mas não gosto mesmo nada do que vejo nos partidos políticos, incluindo o meu”, atirou, ouvindo aplausos dos apoiantes.

O presidente social-democrata já fala como se fosse ganhar as diretas e pede paz depois da disputa interna: “Num partido democrático e civilizado o normal é que depois das eleições internas se seja leal e se respeite a vontade dos militantes. As regras democráticas são estas e não a das vaidades pessoais”, disse, afirmando que tem “total desprendimento”: se ganhar, muito bem, se não ganhar tudo bem também.

Ainda visando os adversários — que, para já, são só dois, Miguel Pinto Luz e Luís Montenegro — Rui Rio diz que é preciso “encurtar o espaço de manobra dos pequenos interesses pessoais que comandam uma parte do PSD” e, numa alusão à maçonaria, atirou: “O PSD não se pode deixar tomar por grupos organizados de perfil pouco ou nada transparente”.

Rio será líder da bancada até fevereiro

Rui Rio assumiu ainda que será candidato a líder parlamentar e que ocupará o cargo até ao próximo congresso. “No que concerne à liderança da bancada do PSD, deverá estar em consonância com o presidente do partido entretanto eleito. Nunca farei aos outros o que me fizeram a mim e por isso irei assumir eu próprio a liderança da bancada“, garantiu o líder do partido. O objetivo é que “o novo líder seja apenas escolhido após a realização do próximo congresso nacional” e, a partir daí, marcará “presença nos grandes debates” no Parlamento.

Trata-se de uma “situação de exceção ditada pela proximidade do congresso”, explicou, afirmando que não fazia sentido o grupo parlamentar eleger agora um líder parlamentar, afeto a Rui Rio, e, depois, se Montenegro ganhar, não poder escolher outro líder parlamentar mais da sua confiança política. Foi o que aconteceu quando Rui Rio chegou ao partido e já Hugo Soares, conhecido crítico de Rio, estava a meio do mandato como líder parlamentar. Assim, Rio candidata-se ao cargo em regime de transição, havendo depois novas eleições após o congresso. A bancada foi escolhida pela direção de Rui Rio e, embora tenha vários críticos, não será difícil a Rio ficar bastante acima da votação que teve Fernando Negrão (apenas 39%).

Na plateia, na sala do Porto Palácio, estavam nomes como os membros da direção de Salvador Malheiro e Maló de Abreu, o deputado António Topa, Silva Peneda, Hugo Carvalho, deputado e cabeça de lista pelo Porto, o vice-presidente da JSD Joaquim José Gonçalves, Lina Lopes, das mulheres sociais-democratas, e Eduardo Teixeira, deputado eleito por Viana do Castelo.