É raro vermos Isabel II a quebrar o protocolo, mas nada como uma genial exceção para furar a regra. Recuemos ao ano de 2012 e a essa cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, que envolvia o sigiloso plano de incluir uma convidada de peso: a própria rainha. A informação chegou até ao braço direito da monarca no ano anterior, através do secretário particular Edward Young, e Angela Kelly não perdeu tempo nos preparativos, que resultariam num vídeo partilhado com o público que assistia ao arranque das provas. “Não podíamos simplesmente ignorar o pedido do realizador Danny Boyle. A rainha ficou muito entusiasmada com a ideia e aceitou de imediato. Perguntei-lhe se gostaria de dizer algo durante esse momento. Sem hesitação, respondeu-me: ‘Claro que devo dizer algo. Afinal de contas, ele vem salvar-me“.

Sua majestade, recorda a sua confidente e responsável pelo guarda-roupa, num exclusivo à revista Hello, referia-se então ao agente secreto 007, a segunda maior instituição do país depois de si própria, cujo novo título “Skyfall” se mostrava então ao mundo naquele evento. Para a história passou a deixa da monarca e fã da saga: “Good evening, Mr Bond“.

Este é apenas um dos muitos pormenores deliciosos que Angela Kelly revela em “The Other Side of the Coin: The Queen, the Dresser and the Wardrobe”, o livro que chega ao público esta terça-feira, 29 de outubro, e que contou com a bênção da principal protagonista destas páginas, sendo que Kelly não fica muito atrás em matéria de relevo no quotidiano do palácio. Afinal, falamos da profissional que secunda a rainha há 25 anos, tornando-se uma figura imprescindível, seja na preparação de Isabel II para uma ocasião formal, seja pelo modesto mas decisivo contributo de partilhar uma anedota para alegrar o seu dia.

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O volume conta com fotos inéditas, muitas delas da coleção particular da sua assistente pessoal e senior dresser, e passa em revista vários momentos de cumplicidade entre ambas, com Kelly a fazer a ponte ao longo dos anos com costureiros como Norman Hartnell, Hardy Amies e Ian Thomas, e ainda mestres chapeleiros como Simone Mirman e Freddy Fox, determinantes na composição do icónico uniforme real.

Do toque de Michelle Obama ao conforto do calçado real

Foi uma interrogação que pairou na cabeça de muitos espectadores daquele momento (ou das imagens que o cristalizaram), momento esse que ganhou uma informalidade extra à conta da abordagem descontraída da ex-primeira dama dos EUA. Quando a rainha recebeu os Obama na capital britânica, a etiqueta real ficou em suspenso e Michelle manifestou sem reservas o seu afeto pela interlocutora. Muito se especulou então sobre a inconveniência de tal postura, e se a rainha teria ficado desagradada com a abordagem. Segundo Kelly, nada mais afastado da realidade. “A rainha tem a capacidade de fazer com que toda a gente se sinta descontraída e por isso é quase instintivo tocá-la, tal como Michelle Obama demonstrou durante a visita de Estado com o seu marido, o presidente Obama, em 2009″, descreve Angela, acrescentando ainda que para a soberana o gesto de “afeto e respeito por outra grande mulher” foi de tal forma natural que “não deixou margem para qualquer protocolo”.

O momento em 2009 tornou-se demasiado táctil, mas Angela garante que a rainha gostou de corresponder @ John Stillwell/ PA Images via Getty Images

É exagerado dizer que Kelly sabe o que é ocupar os sapatos de uma rainha, mas é justo dizer que para lá caminha. No livro, revela como lhe compete experimentar os sapatos de Isabel II antes de um compromisso, missão que visa assegurar o seu conforto. “A rainha tem pouco tempo para si e para fazer este tipo de testes. Como calço o mesmo número que ela, faz todo o sentido que assim seja”.

Em 2008, Isabel II ocupava a primeira fila da semana de moda de Londres, acompanhada por Anna Wintour e por Angela, mais à direita, inseparável de sua majestade @ Getty Images

Mas não é para os pés que as atenções se viram quando ano após ano o desfile de chapéus volta a encantar Royal Ascot. De tal forma, que se tornou comum assistir à multiplicação de palpites e apostas sobre o tom do chapéu que a rainha elege para o primeiro dia de corridas. A assistente conta como decidiu adotar uma estratégia para evitar fugas de informação no castelo de Windsor quando soube que a parada já ascendia às 2 mil libras. Na manhã do grande dia, passou a dispor vários chapéus de diferentes cores na sua mesa de trabalho para baralhar as hostes. E chegou mesmo a pedir o compromisso de uma casa de apostas. “Tive uma reunião com o dono da Paddy Power e ele concordou em estipular uma hora para encerrarem as apostas sobre a cor do chapéu da rainha. Assim evitava batotas mas permitia que se pudesse ganhar algum dinheiro com isso”.

O azul foi este ano a cor escolhida pela rainha para o primeiro dia de corridas (e desfile de chapéus) em Ascot @ Getty Images

A responsável pelo guarda-roupa real confidencia ainda a mezinha usada para recriar uma réplica do fato de batizado Honiton, cujo modelo original nos devolve à era vitoriana, e que foi usado mais recentemente pelos bisnetos de Isabel II, incluindo o pequeno Archie, filho de Harry e de Meghan Markle. “Para parecer autêntico, mergulhámo-lo em chá do Yorkshire (o mais forte possível) (…) Fomos mergulhando parte a parte numa pequena tigela cheia de água fria, verificando regularmente até a cor estar perfeita. A cada passo do processo íamos partilhando com a rainha (…) Sua majestade estava muito interessada no desenvolvimento”.