Belenenses SAD, Tondela, FC Porto, Sporting, Moreirense, Gil Vicente e Benfica. Sete adversários, nove jogos, oito vitórias e um empate, duas competições diferentes, um título conquistado. Todos os “três grandes” derrotados, dois deles por duas vezes, 20 golos marcados e sete sofridos. Foi com esta bagagem que Rúben Amorim, menos de dois meses depois de assumir o comando técnico do Sp. Braga, chegou a Glasgow na semana passada para enfrentar o Rangers. E foi depois de tudo isto, só depois de tudo isto, que Rúben Amorim sofreu a primeira derrota enquanto treinador dos minhotos.

Há uma semana, na Escócia, o Sp. Braga adiantou-se no marcador, aumentou a vantagem na segunda parte e viu Ianis Hagi, filho do mítico Gheorghe Hagi, assinar um bis que recolocou a igualdade no marcador. A um quarto de hora do apito final, Joe Aribo fez o terceiro dos escoceses e lançou Steven Gerrard numa corrida à la José Mourinho, garantindo a vantagem dos Rangers na eliminatória dos 16 avos de final da Liga Europa. Esta quinta-feira, porém, o Sp. Braga recebia os escoceses na Pedreira: e os dois golos marcados em Glasgow permitiam aos minhotos marcar apenas um e não sofrer para continuar o sonho europeu.

Durante a semana, e já depois da vitória perante o V. Setúbal que segurou o terceiro lugar da Liga, o Sp. Braga foi “desestabilizado” — nas palavras do presidente António Salvador — pelas notícias de que o Sporting está interessado em Rúben Amorim para a próxima temporada. Salvador rejeitou os rumores, Amorim nem sequer falou no assunto e o Sporting não comentou. Trocas, cláusulas de rescisão e jogos das cadeiras à parte, a verdade é que o Sp. Braga tinha esta quinta-feira a oportunidade de se tornar a primeira equipa portuguesa a carimbar o passaporte para os oitavos de final da segunda competição europeia. E esta quinta-feira, ainda antes do apito inicial, já era um dia histórico para o clube.

Há precisamente 12 anos, o Sp. Braga conquistou a extinta Taça Intertoto, naquele que é ainda o único troféu internacional do clube minhoto e que deixava adivinhar que o dia 26 de fevereiro poderia ser um bom augúrio para o grupo de Rúben Amorim. Contra o Rangers, o treinador português colocou João Palhinha e Trincão no onze inicial, sendo que Paulinho e Ricardo Horta formavam a dupla de ataque — o reforço de inverno Abel Ruiz, titular na Escócia e autor de um dos golos minhotos, era suplente, assim como João Novais, André Horta e Galeno.

O Sp. Braga arrancou, naturalmente, à procura do golo que o colocaria em vantagem na eliminatória. Os minhotos assentaram a primeira linha de construção praticamente na zona do meio-campo e alavancaram aí o ataque, tombando com mais frequência para o corredor esquerdo do que para o oposto. O conjunto português tinha mais posse, mais controlo e chegava com mais frequência à área contrária, jogando quase por completo no meio-campo adversário, mas falhava no último passe e na hora da decisão. Em sentido contrário, o Rangers estava totalmente confortável na partida, com um expectante bloco baixo que se desdobrava em velocidade quando tinha a bola para explorar a profundidade do trio ofensivo nas costas da defesa do Sp. Braga. Foi assim que a equipa escocesa acabou por criar as duas primeiras oportunidades do jogo, que poderiam ter deixado os minhotos em muitas dificuldades na eliminatória.

Primeiro foi Kamberi, a aproveitar uma desmarcação de Arfield para depois rematar, mas Matheus negou o golo com uma boa defesa (19′); dez minutos depois, foi a vez de Kent atirar ao lado, depois de Hagi roubar a bola a Raúl Silva, que não estava propriamente a ter uma tarde inspirada (19′). O Sp. Braga tinha mais bola mas pouco conseguia fazer com ela e acabava por cometer vários erros no setor mais recuado, o que deixava a equipa suscetível a um golo adversário que complicaria as contas da eliminatória. Os minhotos só conseguiram construir verdadeiras ocasiões de golo já perto da meia-hora, primeiro com um cabeceamento de Paulinho a obrigar McGregor a uma grande defesa (26′) e depois com outra tentativa de cabeça mas de Fransérgio, desta feita ao lado (30′). Ambas as oportunidades surgiram de cruzamentos de Sequeira, que ia sendo o elemento ‘mais’ da equipa ao desequilibrar na ala esquerda e aproveitar muito bem o jogo interior de Trincão, que procurava uma liberdade que não lhe estava a ser garantida.

Já em cima do final da primeira parte, quando as bancadas do Municipal de Braga já pensavam no intervalo, o árbitro da partida acabou por assinalar grande penalidade por mão na bola de Raúl Silva na sequência de um canto — o que voltava a sublinhar a tarde menos boa do jogador brasileiro. Na conversão, Matheus acabou por parar o remate de Hagi (46+1′) e segurou o nulo no marcador, levando o Sp. Braga totalmente dentro da eliminatória para a segunda parte.

Ao intervalo, Rúben Amorim tirou João Palhinha e lançou João Novais, naquela que era uma clara aposta no ataque e na procura pelo golo que poderia ser decisivo. O controlo do Sp. Braga intensificou-se na segunda parte, ainda que nunca com uma multiplicidade de oportunidades, e Amorim fez um all in parcial ainda antes dos dez minutos depois do intervalo ao trocar um apagado Raúl Silva pela velocidade de Galeno. Faltavam soluções ao ataque minhoto, que empurrava a defesa do Rangers para a própria grande área mas não conseguia encontrar espaços para chegar à baliza. Pouco depois da hora de jogo, numa transição rápida exemplar, os escoceses acabaram por dar uma machadada praticamente final na eliminatória.

O ataque do Sp. Braga perdeu a bola no meio-campo adversário e Hagi desmarcou Kent com um grande passe: o avançado inglês correu nas costas da defesa portuguesa e rematou à saída de Matheus, rasteiro e na diagonal, colocando o Rangers a ganhar e estabelecendo uma vantagem na eliminatória que obrigava o Sp. Braga a marcar dois golos para seguir em frente na Europa. Rúben Amorim reagiu ao golo sofrido com a última alteração, tirando David Carmo, um defesa, para lançar Abel Ruiz, mas os minhotos não conseguiram empatar o jogo nem reduzir a desvantagem na soma das duas mãos, apesar da intensa pressão que aplicaram nos instantes finais.

O Sp. Braga foi eliminado da Liga Europa pelo Glasgow Rangers, reduzindo desde já o contingente português na segunda competição europeia, onde ainda restam FC Porto, Benfica e Sporting. Em 12 jogos no comando técnico dos minhotos, Rúben Amorim sofreu duas derrotas, ambas com os escoceses de Steven Gerrard, e vê agora a temporada totalmente restrita à Primeira Liga.