Em novembro do ano passado, no mesmo fim de semana, Jorge Jesus levou o Flamengo à conquista da Taça Libertadores e do Brasileirão. Ganhou um no sábado, o outro no domingo e escreveu a tinta permanente o próprio nome na história do clube brasileiro. Esta quarta-feira, no Maracanã, o treinador português tinha a oportunidade de voltar a fazer o que nunca tinha sido feito, de voltar a fazer história e de voltar a colocar esta equipa do Flamengo ao nível da de 1981, que tinha Zico como principal destaque.

Contra os equatorianos do Independiente del Valle, no segundo jogo da final da Recopa Sul-Americana, o Flamengo podia arrecadar o troféu pela primeira vez na própria história e ainda vencer o terceiro título em apenas 10 dias, depois da Supercopa do Brasil e da Taça Guanabara conquistadas já este mês. Ora, em 1981, precisamente com Zico e companhia, o Flamengo ganhou três troféus em 20 dias, o Campeonato Carioca, a Libertadores e o Mundial de Clubes. Ainda que o conjunto de vitórias de há quase 40 anos seja inegavelmente mais substancial e valioso, a verdade é que os três títulos em 10 dias aliados aos outros dois do ano passado garantiam a Jorge Jesus a confirmação de ser quase infalível em finais. Afinal, só falhou na do Mundial de Clubes, contra o Liverpool.

Mais do que isso, o treinador português tinha ainda a possibilidade de ser o responsável pela primeira conquista internacional do Flamengo em pleno Maracanã, já que o clube brasileiro nunca tinha vencido qualquer troféu que não interno no próprio estádio. Na antevisão do jogo decisivo, e depois do empate no Equador na primeira partida (2-2), Jorge Jesus voltou a fazer algo que já tinha feito na altura da Libertadores — explicou, para o público europeu, o que significava a Recopa Sul-Americana.

“É um jogo muito importante para o Flamengo e para todos os jogadores. É um troféu muito importante. Valorizamos muito isto na Europa, é igual ao jogo entre o vencedor da Champions e o da Liga Europa, a Supertaça Europeia. Nós vencemos a Libertadores, eles venceram a Sul-Americana. É um troféu que o Flamengo nunca venceu e pode vencer no Maracanã. O estádio está lotado e vai estar um ambiente fantástico. Queremos estar à altura”, disse Jesus, que não podia contar nem com o central Rodrigo Caio nem com o avançado Bruno Henrique, ambos lesionados no primeiro jogo com o Independiente del Valle.

O treinador português foi a jogo em 4x4x2, com Pedro no lugar do habitualmente titular Bruno Henrique e Arrascaeta, que falhou a primeira mão da final, a começar no início no corredor esquerdo. O Independiente procurou jogar de igual para igual, sem recuar demasiado e com um bloco médio que pressionava de forma intensa, algo raro no Maracanã. Ainda assim, o Flamengo acabou por conseguir chegar à vantagem ainda durante os 20 minutos iniciais, por intermédio de Gabriel Barbosa, que aproveitou um erro colossal da defesa equatoriana: Segovia tentou atrasar, a bola saiu com muita força, o guarda-redes Pinos tentou evitar o autogolo mas atirou contra a trave e Gabigol só teve de aproveitar o ricochete para inaugurar o marcador (19′).

Menos de cinco minutos depois do golo inaugural, porém, o Flamengo acabou por sofrer um forte revés, com Willian Arão a ver o cartão vermelho direto. O médio brasileiro atingiu Caicedo com um pontapé no peito — que, apesar de ter sido claramente inadvertido, não deixou de ser perigoso — e o árbitro da partida optou pela expulsão após consultar as imagens do VAR. Ainda que em vantagem, o Flamengo via-se reduzido a dez unidades a meio da primeira parte e desprovido de um dos elementos mais importantes da equipa. Jorge Jesus reagiu de imediato e sacrificou o avançado Pedro para lançar Thiago Maia e não perder o controlo do meio-campo.

O treinador português não contou com dois dos habituais titulares, Rodrigo Caio e Bruno Henrique, e viu Willian Arão ser expulso ainda na primeira parte

O Flamengo foi para a segunda parte em vantagem e o Independiente regressou alto inquieto do intervalo, sem conseguir assentar jogo e com escasso discernimento. Os equatorianos tiveram a melhor oportunidade para empatar num lance de Faravelli, com Diego Alves a fazer uma grande defesa (55′), mas acabaram por sofrer o segundo golo num lance de transição rápida. Gabriel Barbosa acelerou na ala direita, tirou um cruzamento atrasado já na linha final, a defesa do Independiente aliviou mas Gerson apareceu de trás a atirar já em esforço para bater Pinos (62′).

Mesmo com dois golos de vantagem e totalmente confortável na partida, o Flamengo continuou a limitar o espaço de construção à equipa de adversária e obrigava recorrentemente os equatorianos a recorrerem à bola longa, algo que raramente causava perigo na grande área brasileira. Até ao fim, o Independiente não conseguiu voltar a criar uma oportunidade de golo nem chegou a estar perto de reduzir a desvantagem — já que o clube brasileiro soube gerir a vantagem até ao apito final –, e terminou também reduzido a dez, com Cabeza a ser expulso depois de uma entrada muito dura já nos últimos cinco minutos. Já perto dos 90′, com assistência de Vitinho e depois de uma nova transição rápida, Gerson bisou e encerrou definitivamente as contas do jogo nos 3-0 (89′).

Depois da Supercopa do Brasil e da Taça Guanabara, o Flamengo conquistou a Recopa Sul-Americana em pleno Maracanã pela primeira vez na história do próprio clube, o terceiro troféu no espaço de dez dias. Depois de ter terminado a temporada passada em festa, Jorge Jesus começa a nova época com uma conquista atrás da outra e volta a escrever, novamente a tinta permanente, o próprio nome na história do clube do Rio de Janeiro, onde já levantou cinco troféus em menos de um ano.