Ninguém sabe nunca o prazo de validade de um disco, ou de outra obra de arte – uma canção pode surgir e num dado momento parecer fundamental, para depois desaparecer sem deixar rasto; um álbum pode ser editado discretamente e passar anos na penumbra antes de ressurgir como influência num sem número de outros discos, e ver o seu crédito aumentar a posteriori. Às vezes, o tempo produz efeitos estranhos – e um disco deixa de ser o mesmo disco.

I’m New Here, o último disco editado em vida por esse gigante pecador que foi Gil Scott-Heron, já não é I’m New Here – é We’re New Again. O subtítulo deste (A Reimagining by Makaya McCraven) dá a entender o que se passou: nove anos depois de I’m New Here, Makaya McCraven refez o disco – ao ponto de regravar partes novas – tornando-o outra coisa, curiosamente mais próxima do som clássico de Gil Scott-Heron, do qual ele se afastou no disco final, que nunca considerou seu.

We’re New Again – pela forma imaginativa como trabalha o jazz e as eletrónicas – soa ao futuro; em parte porque sabe exatamente como ancorar-se no passado, como homenageia e respeita Gil Scott-Heron.

Há poucas obras com tanta influência na música popular como a que Scott-Heron criou de 1970 a 1982, quando lançou impressionantes 13 discos em que abordava de forma crua a experiência de ser negro na América. O seu êxito surgiu cedo: aos 19 anos uma peça de spoken-word chamada “The revolution will not be televised” (subversiva e racialmente carregada), incluída no seu primeiro disco (Small Talk at 125th and Lenox), explodiu por entre a juventude. Quando Heron tinha 23 anos já editara dois romances e uma coleção de poemas, já gravara três discos – que lhe haviam valido culto – mas era essa peça de spoken-word, “The Revolution Will Not Be Televised”, que o tornava um nome famoso.

O facto de Scott-Heron, nos seus discos, “falar” mais que cantar valeu-lhe o epítome de “padrinho do hip-hop”. Heron costumava diminuir a sua importância: “Deve haver um padrinho, mas enganaram-se na pessoa”, dizia. Talvez; mas Heron tinha a coragem, tinha a voz, tinha a inteligência – e tinha também a cultura: Heron frequentou a Lincoln Universit, e foi lá que assistiu a uma atuação dos Last Poets em 1969. Abiodun Oyewole, um dos membros dos Last Poets, conta que no final do concerto Gil aproximou-se deles e pediu licença para começar um grupo como o deles.

Foi exatamente isso que fez: musicalmente os seus discos combinavam jazz e soul e funk – e por cima aquela voz carismática debitava verdades duríssimas sobre a América vista pelo prisma de um negro. Um dos seus temas mais conhecidos, “The bottle” (do álbum Winter In America, de 1974), parte de um funk muito blaxpoitation, com flautas e um groove infeccioso, para explorar o problema do alcoolismo; em “Angel Dust” (de Secrets, de 1978), um funk gordo e cool p’ra xuxu, Scott-Heron, com a sua voz de pregador, alertava:

“(Angel Dust) Please children would you listen:”
“(Angel Dust) Just ain’t where it’s at”
“(Angel Dust) You won’t remember what you’re”
“Missin’, but down some dead end streets”
“There ain’t no turnin’ back”

Scott era o revolucionário que liderava a América negra rumo à liberdade, que pregava a libertação, o acesso ao conhecimento, que desmascarava as injustiças – não admira que lhe chamassem “padrinho do hip-hop”. Em termos históricos o rap nasce no Bronx, entre as comunidades negras e jamaicanas, graças a DJs, muito particularmente Kool Herc – a música era baseada em samples e as histórias eram simples. Nesse sentido estrito, Gil Scott-Heron não foi um criador do rap.

Mas para a segunda e terceira geração de rappers ele era um herói: de Chuck D, dos Public Enemy, a Jay-Z, todos o admiravam e até o copiavam – não só quando o samplavam mas acima de tudo ao procurarem emular, nos seus temas, a complexidade das canções de Scott-Heron, em particular na questão da negritude.

Depois de Moving Target, de 1982, Scott-Heron só voltou a editar em 1994, com Spirits; em 2010 veio o último disco, I’m New Here. A morte chegou em 2011 – o que significa que em quase 30 anos, e após um início torrencial, Heron só editou dois discos. O que se passou pode ser considerado um choque para quem ouvia com atenção as letras: Scott-Heron não era apenas visto como um músico carismático, era um líder ideológico, um profeta – mas também um exemplo.

Em 1999, Monique de Latour, sua então namorada, obteve uma ordem de restrição que o proibia de se aproximar dela, após um caso de violência física sobre Latour; em novembro de 2001 Heron foi preso por posse de 1,2 gramas de cocaína, o que lhe valeu uma condenação de 18 meses de cadeira. O resto da década foi passado a entrar e a sair da cadeia, por problemas com drogas.

Anos mais tarde, Latour relatou aquilo em que se tornara a vida de Scott-Heron, com quem começou a namorar em 1997: ele fumava crack durante quatro ou cinco dias consecutivos, tendo uma vez fumado durante sete dias seguidos, sem dormir. Quando ele desaparecia, ela procurava-o nos seus hotéis preferidos, exceto no New Ebony, na rua 112th, de onde ele havia sido expulso, após deitar fogo ao quarto.

Quando Latour o encontrava num quarto de hotel, fotografava-o para depois lhe mostrar o estado em que ele ficava – mas ele recusava-se a olhar para as fotografias. Por vezes ele era preso por roubo ou por invasão de domicílio. Às vezes, quando a polícia o incomodava, ele dava o nome do irmão e uma vez o irmão foi preso à conta disso.

O crack tornava Scott-Heron paranóico – achava que estava a ser seguido ou ouvido, e fazia buracos nas paredes à procura de microfones ou câmaras. Quando o dinheiro dos royalties desaparecia, Scott-Heron marcava um concerto com banda alargada mas depois aparecia sozinho ou só com dois músicos. Quando sabia que ia receber um cheque, ele simplesmente passava os dias a dormir até receber o cheque – para depois o gastar em crack, entrar em paranóia e o ciclo recomeçar.

Não é exatamente certo quando o declínio de Scott-Heron começou – se ele já consumia drogas enquanto escrevia obras que alertavam para os perigos das drogas. Os problemas posteriores não diminuem a obra – talvez até tornem a mensagem que contém ainda mais pungente.

A primeira – e extraordinária – faixa de I’m New Here chamava-se “On coming from a broken home (Pt. 1)”, e talvez aí (e apesar do amor que ele mostra pela avó nessa faixa) se encontre a génese dos problemas que Heron viria a encontrar mais tarde e que vivia quando gravou o disco – um disco que Heron considerava ser mais de Richard Russell, o produtor que o convidara a gravar, que seu.

Mas I’m New Here era um achado: a voz de Heron ganhara a gravilha dos que viveram demais e em pecado, e ele encontrou nesse disco um tom confessional que, em conjugação com a eletrónica, tornava I’m New Here um disco único, uma espécie de cometa sem tempo e sem género.

Em 2011, Jamie XX refizera I’m New Here – e chamou ao disco We’re New Here. A operação de reescrita que o baterista e produtor Makaya McCraven leva a cabo ao pegar nas faixas de I’m New Here e refazê-las de cima abaixo está explicitada no título: We’re New Again. Não se trata apenas de homenagear a obra de Scott-Heron – trata-se de aproximar I’m New Here do que ele seria se o som estivesse mais próximo do som de Scott-Heron.

McCraven muniu-se de meia dúzia de músicos que são seus colaboradores regulares, inventou partes novas para o disco, samplou os seus músicos, retalhou o que eles criaram, retalhou a voz de Scott-Heron (a título de exemplo, On coming from a broken home está agora dividido em quatro faixas) e o resultado é um disco que oscila entre os blues sujo, o jazz espiritual, a soul, enfim, toda a música que constituiu a obra de Scott-Heron, só que atirada para o século XXI. Qualquer dúvida a este respeito pode ser retirada mediante a escuta dessa peça soberba que é, agora, “New York is killing me”.

Ninguém sabe o prazo de validade de uma obra de arte. I’m New Here já não é I’m New Here, é I’m New Here, é We’re New Here e é We’re New Again. E Gil Scott-Heron, morto desde 2011, está mais vivo que nunca.