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A notícia surgiu esta segunda-feira: Mohammad Mirmohammadi, membro do Conselho de Expediência, órgão consultivo do Ayatollah Ali Khamenei, morreu aos 71 anos, vítima de infeção por Covid-19. Foi o dado mais recente sobre o impacto do coronavírus no Irão, país que enfrenta o maior surto fora da China.

É mais um caso de um responsável político no país infetado, depois de serem conhecidos outros sete ao longo dos últimos dias. E é a segunda morte de um desses responsáveis, depois de, na passada quinta-feira, ter morrido o antigo embaixador do país no Vaticano, o clérigo Sayyed Hadi Khoroshahi. Na semana passada, foi tornado público que a vice-presidente Masoumeh Ebtekar, que se senta a poucos lugares de distância do Presidente Hassan Rouhani no Conselho de Ministros, também está infetada. Ebtekar é uma figura bastante conhecida no país, não apenas por ser a mulher com o cargo político mais alto no Irão, como por ser conhecida como “Irmã Maria”, a porta-voz dos estudantes que invadiram a embaixada dos EUA em 1979 e fizeram dos trabalhadores norte-americanos reféns.

Também o vice-ministro da Saúde, Iraj Harirchi, está infetado com coronavírus. O caso só foi confirmado depois de Harirchi ter participado numa conferência de imprensa onde se garantia que o surto estava “quase estabilizado”, ao mesmo tempo que transpirava descontroladamente.

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Para além destes casos, de acordo com a contagem do New York Times há pelo menos outros quatro responsáveis do país infetados com Covid-19: Mojtaba Zolnour, deputado de Qom (cidade onde teve início o surto iraniano) e presidente do comité parlamentar de segurança nacional; Mahmoud Sadeghi, deputado de Teerão; Morteza Rahmanzadeh, presidente de uma autarquia em Teerão; e Mohamad Reza Ghadir, responsável pela gestão da crise de coronavírus em Qom.

O Irão tenta conter a epidemia pelos próprios meios, impedindo a entrada de pessoas vindas da China, fechando escolas e cancelando as orações de sexta-feira. Esta segunda-feira, o Wall Street Journal avança que o país está a utilizar drones para desinfetar as ruas e tem centenas de equipas a fazerem análises ao vírus porta-a-porta.

Mas todas estas medidas podem ter vindo tarde demais. Oficialmente, na sexta-feira Teerão reconhecia ter 388 casos de pessoas infetadas e 34 mortes registadas. Mas, no mesmo dia, o departamento iraniano da BBC avançava que o número de mortes já tinha atingido as 210, citando fontes hospitalares. E, tendo em conta que a taxa de mortalidade do vírus estimada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 2%, a taxa de mortalidade de 38% revelada pelos números oficiais do Irão destoa bastante, levantando dúvidas sobre se o número de casos não poderá ser muito maior.

É precisamente isso que estimam seis epidemiologistas canadianos, que publicaram esta segunda-feira um estudo, divulgado pela New Yorker, que calcula que o número de casos de infeção por coronavírus no Irão seja antes de 18 mil. “Tendo em conta o baixo tráfego aéreo que o Irão tem com países onde há casos de Covid-19 que tiveram origem no Irão (como o Canadá), parece provável que o Irão esteja atualmente a vivenciar uma epidemia de Covid-19 de tamanho significativo”, apontam os especialistas.

O facto de o Irão não ter encerrado os principais locais de peregrinação potencia a expansão do vírus. As cidades de Qom e Mashhad são locais sagrados para o islamismo xiita, que recebem centenas de pessoas. As autoridades desinfetam os santuários, mas tal parece insuficiente em locais onde os peregrinos têm por hábito beijar os locais sagrados. O representante do Ayatollah em Qom, Mohammad Saeedi, incentivou mesmo os peregrinos a continuarem a ir até ao local de culto: “Consideramos este santuário sagrado como um local de cura. Isso significa que as pessoas devem vir até cá para se curarem das doenças físicas e espirituais.”

O iraniano Amir A. Afkhami, psiquiatra especialista em história das doenças, relembrou num artigo publicado na Foreign Affairs que a subserviência das autoridades estatais às autoridades religiosas neste caso faz lembrar o que aconteceu durante a pandemia de cólera que atingiu o Irão em 1904, quando o maior Ayatollah da altura acusou as autoridades de estarem a ajudar os inimigos do país ao restringirem o acesso aos locais sagrados. “Muito à semelhança do atual governo de Rouhani, o primeiro-ministro e o seu governo, enfraquecidos, não tinham poder para se oporem ao sistema religioso”, escreve.

Desta vez, o Ayatollah Khamenei acusou os media estrangeiros de estarem a noticiar o surto mundial de coronavírus como forma de tentar “desencorajar” os iranianos de irem votar nas eleições parlamentares, que ocorreram a 23 de fevereiro, falando numa “propaganda negativa”. A situação, contudo, pode ser a inversa. Alguns especialistas especulam que, tendo em conta a taxa de mortalidade oficial no Irão e o elevado número de infetados entre os altos-responsáveis do país, podemos estar perante um caso em que a epidemia de coronavírus tenha chegado ao Irão muito antes, mas tenha sido mantida em segredo para não influenciar a participação nas eleições de 23 de fevereiro.

É isso mesmo que diz Kamiar Alaei, especialista iraniano em saúde pública, que destacou à New Yorker as eleições parlamentares e o aniversário da Revolução Islâmica, a 11 de fevereiro: “O governo não queria reconhecer que tinha em mãos um surto de coronavírus porque temeu que essa notícia tivesse impacto na participação dos dois eventos”, disse à revista norte-americana. “Portanto, durante semanas, houve um grande silêncio.” Opinião semelhante tem Asif Shuja, investigador do Instituto sobre o Médio Oriente da Universidade de Singapura, que afirma que o simples facto de o país ter anunciado as primeiras mortes por Covid-19 exatamente no mesmo dia em que anunciou os primeiros casos é um sinal que “pode convencer qualquer um de que houve um encobrimento”.

Independentemente da altura em que o surto teve origem no Irão, certo é que o número elevado de mortes aponta para uma incapacidade das autoridades iranianas em controlarem a epidemia no país. Algo que, como relembra a consultora Eurasia Group, pode ser agravado pelo facto de os responsáveis políticos “estarem provavelmente sem vontade de dar passos decisivos que poderiam perturbar uma população já de si sob imensa pressão por causa das sanções norte-americanas”.