A volatilidade do futebol tem destas coisas. Há menos de um ano, em maio, Bruno Lage era uma espécie de entidade divina, motor da reconquista de um campeonato que parecia perdido quando Rui Vitória saiu do comando técnico do Benfica.

A unanimidade é raríssima — para não dizer impossível — e com o tempo começaram a sair críticos da toca: os maus resultados do Benfica na Liga dos Campeões denunciavam, diziam estes, que o treinador servia para consumo interno mas era mais uma das peças que, a par de muitos dos jogadores, não tinha competência competitiva para brilhar ao mais alto nível na Europa de futebol.

Nas últimas semanas, o que parecia um passeio do Benfica no campeonato, face aos sete pontos de vantagem de um FC Porto aparentemente débil — e que na Liga dos Campeões nem chegara à fase de grupos, caindo logo no playoff contra os russos do Krasnodar  — esfumou-se. Os sete pontos perderam-se em poucas semanas, a vantagem tornou-se desvantagem e a contestação ao técnico aclamado no final da última época subiu de tom.

Bruno Lage chegou ao comando técnico dos encarnados em janeiro de 2019

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A volatilidade do futebol tem estas coisas — e Jorge Jesus, o treinador que saiu do Benfica campeão mas não consensual (a alegada falta de aposta na formação, a utilização de Bernardo Silva ma posição de lateral-esquerdo num treino, o custo de um salário milionário), pareceu voltar a conquistar o coração de antigos críticos.

O bom desempenho de Jesus ao serviço do Flamengo e a boa relação do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, com o antigo técnico, motivaram rumores de que Jesus poderia estar de volta no verão e Bruno Lage na porta da saída. O atual técnico brincou com os rumores na conferência de imprensa de antevisão do jogo deste sábado frente ao Vitória de Setúbal: disse que “a Páscoa costuma ser em abril”, de modo que falar de Jesus só faz sentido “mais próximo da Páscoa”. Mas mesmo Lage saberia: depois de apenas uma vitória nas quatro últimas jornadas do campeonato, um novo mau resultado em Setúbal poderia ajudar a selar o destino da liga e o seu próprio no banco do Benfica.

O que aconteceu foi isso mesmo, um empate que pode deixar os encarnados com três pontos de desvantagem face ao rival FC Porto, caso os dragões vençam este sábado no Estádio do Dragão — que na verdade seriam quatro, dado que em caso de igualdade pontual, por vantagem dos azuis e brancos no confronto direto, o título vai para o FC Porto.

Com Jesus ou sem Jesus, com Páscoa ou sem Páscoa, o Benfica vitorioso precisa de ressuscitar urgentemente — até porque já não depende de si, mas de um ou dois maus resultantes do FC Porto (mediante o desfecho da partida deste sábado dos dragões), para reduzir a distância pontual e chegar ao título.

Uma primeira parte morna, aliás morníssima

O Benfica apresentou-se no jogo com um onze titular com duas surpresas: Julian Weigl, reforço sonante contratado ao Borussia Dortmund no mercado de inverno, e Rafa Silva, extremo internacional e figura preponderante na conquista do campeonato na última época, ficavam no banco para esta jornada.

Bruno Lage mantinha a aposta em Samaris, há muito pedida por uma franja significativa de adeptos, mas colocava Taraabt na posição de segundo médio, Chiquinho a número 10 e Pizzi e Cervi nos corredores, no apoio ao ponta-de-lança Carlos Vinicius. Na defesa, a partida trazia nova prova de fogo para Ferro e Tomás Tavares, na berlinda depois de alguns erros cometidos em jogos anteriores.

Do lado contrário, Velásquez apostava num meio-campo sólido e combativo, composto por Semedo, antigo defesa-central que em Setúbal ganhou estatuto de pedra basilar como médio-defensivo, e Carlinhos e Nuno Valente a garantir os equilíbrios à sua frente. A ideia parecia ser simples: dividir o jogo a meio-campo e libertar no ataque um tridente fisicamente poderoso, composto pelo talentoso Mansilla, por Zequinha e por um Ghilas regressado a Portugal, depois de uma boa passagem pelo Moreirense e um período pouco memorável ao serviço do FC Porto.

A primeira parte começou em toada morna: o Vitória de Setúbal, jogando à imagem do que defende o seu treinador Julio Velázquez, ia tentando construir jogo de forma apoiada, com passes curtos, desde trás. O Benfica pressionava alto, tentava roubar bolas aos sadinos e até o conseguiu, provocando erros no adversário, mas não foi capaz de aproveitar essas recuperações em zona ofensiva.

Numa primeira parte sem grandes motivos de interesse, o primeiro sinal de perigo veio dos sadinos: aos 27 minutos, o irreverente e canhoto Brian Mansilla fugiu pela esquerda, em um de vários lances que provocaram dores de cabeça ao jovem lateral-direito benfiquista Tomás Tavares, e cruzou para a área. Do lado contrário, ao segundo poste, o avançado português Zequinha — famoso por ter roubado um cartão amarelo a um árbitro num Mundial de Sub-20 — conseguiu dar resposta, mas rematou ao lado da baliza do guarda-redes grego Odysseas.

O Benfica respondeu ao susto e começou a tentar empurrar o Vitória de Setúbal para a sua zona defensiva, por volta da passagem da meia hora de jogo. Evidenciando dificuldades para desatar a teia defensiva do Setúbal — que sobretudo em zona central tinha os dois centrais e o médio-defensivo Semedo a bom nível, concentrados —, só de bola parada foi criando algum perigo. Ao intervalo, as equipas recolheram aos balneários com o resultado em 0-0.

Nem com duas grandes penalidades…

A toada da primeira parte não fazia prever um início de segunda parte eletrizante, mas a verdade é que aconteceu. Logo aos 46 minutos, Zequinha descobriu com um cruzamento o médio Carlinhos no interior da área do Benfica. Este, com classe, empurrou a bola para a baliza de Odysseas e adiantou o Vitória de Setúbal no marcador.

A resposta do Benfica foi pronta: depois de um lance entre Semedo e Rúben Dias na área dos sadinos, João Pinheiro apontou para a marca de grande penalidade e a decisão foi confirmada aos 49 minutos. Na conversão, Pizzi redimiu-se das duas grandes penalidades falhadas frente ao Moreirense — uma deu em golo, na recarga — e fez o empate.

O ritmo de jogo acelerou e começaram a aparecer mais oportunidades de golo, embora nunca a partida tenha sido especialmente bem jogada. O Benfica foi conseguindo ter mais bola, mas nem por isso traduziu essa posse em situações de golo. Depois de um remate sem grande perigo de Carlinhos aos 53 minutos e de um golo anulado a Carlos Vinicius aos 56, Lage fez a primeira substituição, fazendo entrar Rafa para substituir o desinspirado Chiquinho.

Rafa mexeu um pouco com o jogo, acrescentando rapidez aos ataques do Benfica, mas só aos 75 os encarnados viram nova oportunidade forte de se adiantarem no marcador: João Pinheiro voltou a assinalar uma grande penalidade, agora por ter visto mão na bola do defesa setubalense Artur Jorge. Pizzi, no entanto, acabou por falhar o 2-1, rematando ao lado. Daí em diante, e excluindo uma boa defesa de Makaridze a remate de Grimaldo aos 80 minutos e outra prova de atenção menos exigente quando defendeu um cabeceamento de Dyego Souza aos 88 minutos, não se registaram mais oportunidades.

O Benfica saiu do Bonfim com um empate que o igualou ao FC Porto na tabela classificativa, mas à condição: e em caso de vitória dos dragões, via a distância pontual aumentar de um para três, que na verdade seriam quatro (devido ao confronto direto) pontos de desvantagem. É o sétimo jogo do Benfica sem vencer nos últimos oito e mais uma partida sem vencer no campeonato — das últimas cinco, só ganhou uma.

A má fase está para durar, as contas do título estão-se a complicar, o futebol desinspirado não desaparece e, com Jesus ou sem Jesus, a crise já não é disfarçável. E este sábado, se o FC Porto vencer o Rio Ave no Dragão, as contas ficam mesmo muito negras.