Em 1950, um ano antes de ter conquistado o seu primeiro campeonato do mundo de Fórmula 1 (que havia começado nesse mesmo ano), Juan Manuel Fangio era tão popular na Argentina, que fizeram um filme sobre ele, intitulado “Fangio, el Demonio de las Pistas”, em que o piloto se interpretava a si próprio. O seu compatriota Francisco Macri, realizador do documentário biográfico “Fangio: O Homem que Domava as Máquinas”, já disponível na Netflix, ou ignorava isto, ou achou que seria irrelevante referi-lo no seu filme. Também o rocambolesco rapto de Fangio por guerrilheiros castristas em Cuba, em 1957, onde ele tinha ido disputar uma corrida, merece apenas uma menção fugaz neste documentário.

[Veja Fangio a conduzir um Maserati em 1957:]

Macri está interessado, essencialmente, no Fangio piloto de dotes quase sobrenaturais e cinco vezes campeão do mundo de Fórmula 1 por quatro equipas diferentes (Alfa Romeo, Maserati, Ferrari e Mercedes-Benz) entre 1951 e 1957 (um recorde que só seria batido por Michael Schumacher em 2003), e por isso falta a este documentário o tempero de curiosidade que factos como o citado filme ou o rapto lhe trariam. “Fangio: O Homem que Domava as Máquinas” é um trabalho detalhado, cheio de informação e feito com muito zelo, mas sem trazer nada de particularmente novo sobre o que já é conhecido do lendário “El Maestro” e que os ferrenhos de automobilismo já sabem de cor e salteado.  

[Veja o “trailer” de “Fangio: O Homem que Domava as Máquinas”:]

Mesmo assim, e além de imagens de arquivo pouco vistas, como as das heróicas corridas de “Turismo Carretera” em que Fangio se iniciou nas competições automóveis na Argentina dos anos 30, “Fangio: o Homem que Domava as Máquinas” revela um estudo feito em 2016 na Universidade de Sheffield, que procurou demonstrar cientificamente porque é que Fangio foi o maior piloto de Fórmula 1 de todos os tempos. As conclusões fazem todo o sentido: um talento transcendente para a condução, aliado a uma superior e consistente preparação física, emocional, estratégica e mecânica antes de cada corrida, e à qualidade das equipas em que correu, bem como uma excelente relação humana e de entendimento técnico com os seus membros.

[Veja Fangio com Ayrton Senna no pódio do GP do Brasil de 1993:]

Sir Stirling Moss, Sir Jackie Stewart, Carlos Reutemann (que estiveram entre as pessoas que transportaram o caixão de Fangio no seu funeral, em 1995), Alain Prost, Nico Rosberg, Mika Hakkinen, Fernando Alonso, Hans Hermann ou Toto Wolff, encontram-se entre as figuras da Fórmula 1 e do automobilismo, que aparecem a falar com admiração e respeito sobre Fangio, a elogiar as suas qualidades de piloto e de homem, e a comparar os carros e as corridas dos seus respetivos tempos (tanto Moss como Hermann correram com Fangio e foram seus grandes amigos). O filme recorre ainda ao muito arquivo existente do próprio Fangio a discorrer sobre a sua vida nas pistas, o seu profundo conhecimento de mecânica e a sua filosofia de piloto de elite.

[Veja Fangio no circuito de Monte Carlo:]

“Fangio: o Homem que Domava as Máquinas” tem o extra de nos transportar para a perigosa e exigentíssima, mas também espantosa “pré-história” da Fórmula 1 e das corridas de automóveis em geral. Uma era cavalheiresca e épica em que, no meio de um Grande Prémio, um piloto podia abdicar do carro e passá-lo ao colega de equipa que se tinha despistado ou tido uma avaria (Peter Collins fê-lo a Fangio em Monza, em 1956, permitindo-lhe ser Campeão do Mundo e perdendo ele o título), havia pilotos que corriam como independentes ou para pequenas equipas, algumas das quais eram pouco mais do que oficinas particulares, e aristocratas como o Príncipe Bira do Sião, o primeiro asiático a guiar na Fórmula 1, se deslocava no seu avião particular de corrida para corrida.

Que diferença para a Fórmula 1 de hoje, infinitamente mais segura e sofisticada do ponto de vista mecânico e tecnológico de que nos tempos de Juan Manuel Fangio, mas dominada pelo dinheiro e cada vez menos competitiva, onde os pilotos são painéis publicitários ambulantes e os carros naves espaciais com quatro rodas controladas por computador das boxes.

“Fangio: O Homem que Domava as Máquinas” já está disponível na Netflix