A Allianz Arena estava vazia mas até mesmo sem público há qualquer coisa diferente para as equipas visitantes quando se deslocam a Munique e não está circunscrita às quatro linhas. Vendo as imagens televisivas do encontro e olhando para a zona da tribuna, há Karl-Heinz Rummenigge, há Uli Höeness, há Oliver Kahn, há Salihamidzic (no banco). Há uma estrutura de peso, que conta ainda com Beckenbauer por exemplo. Herbert Hainer, o ex-CEO da Adidas, pode ser o presidente mas o Bayern é mais do que um clube – é um projeto, uma ideia, um conceito. E aí entronca um dos principais segredos para a hegemonia da equipa na Bundesliga, com sete títulos consecutivos.

Lewandowski é capaz de escolher cinco “números 9” melhores mas nenhum consegue os golos que ele tem

Com a melhor estrutura e o melhor plantel (e Havertz, a estrela do Bayer Leverkusen, pode ser a médio prazo o próximo exemplo de como qualquer jogador que se destaque na Alemanha vai inevitavelmente parar a Munique), faltava ao Bayern esta temporada o melhor treinador, depois do arranque falhado de Niko Kovac. Aliás, depois da aposta em Pep Guardiola, que dominou por completo em termos internos mas não chegou à ambicionada glória europeia, o banco do conjunto da Baviera é um lugar complicado onde apenas Jupp Heynckes conseguiu passar de forma incólume. Por isso, Hans-Dieter Flick entrou como interino. Agora, comparam-no com os melhores.

Hansi, como também é conhecido, substituiu Kovac no início de novembro, no seguimento de uma derrota frente ao Eintracht Frankfurt por 5-1. O croata tinha ganho o Campeonato, a Taça e a Supertaça mas aquela goleada foi a última gota numa relação que já não era a melhor. Flick começou da melhor forma com dois triunfos expressivos com B. Dortmund e Fortuna Düsseldorf mas perdeu de seguida com Bayer Leverkusen e B. Mönchengladbach, fase em que as notícias da procura de um novo treinador eram constantes. Agora, são apenas coisas do passado.

Presidente do Bayern espera “mil milhões” de telespetadores na Bundesliga

Nos 16 encontros seguintes, entre Campeonato, Taça e Liga dos Campeões, o Bayern ganhou 15 e empatou apenas um, sem golos, com o RB Leipzig. Foi assim que saltou do quarto lugar para a liderança, com mais quatro pontos do que o B. Dortmund (o próximo adversário). E Flick, adjunto de Joachim Löw na seleção durante oito anos antes de saltar para diretor desportivo, tem números semelhantes a Guardiola e Heynckes com um recorde pelo meio de 50 golos marcados (e apenas dez sofridos) nos 16 primeiros jogos feitos na Bundesliga. “Mudámos um pouco o nosso estilo de jogo, a defender mais à frente com coragem. Como jogador [n.d.r. passou pelo Bayern entre 1985 e 1990] bastava apenas ganhar um 1-0, era igual. Agora isso não chega, temos de dar prazer aos fãs. No Bayern, ganhar a Liga e a Taça é obrigatório mas todos têm a ambição do triplete“, comentou o técnico.

Até aos 50 minutos, a receção do Bayern ao Eintracht de André Silva (titular) e Gonçalo Paciência (de fora) foi mais do mesmo: domínio total na posse e no terreno, grande mobilidade ofensiva, capacidade de recuperar a bola pouco depois de ficar sem a mesma. Goretzka (17′) e Müller (41′) marcaram os golos do 2-0 ao intervalo mas pelo meio ainda houve inúmeras oportunidades sobretudo de Lewandowski, com uma bola na trave ainda com 0-0. O polaco ameaçava mesmo com dois pensos no lado direito da cara a disfarçar o inchaço após um choque com um adversário e bastou um minuto do segundo tempo para aumentar a vantagem dos bávaros com um desvio na área.

Com mais um golo, o 27.º na Bundesliga, Lewandowski, que superou pela quinta época consecutiva a fasquia dos 40 golos numa temporada em todas as provas, igualou Ciro Immobile, da Lazio, na luta pela Bota de Ouro. Tudo apenas em 25 jogos, sendo que fez uma série de 11 jornadas consecutivas a marcar logo a abrir e só não festejou em cinco rondas da Bundesliga. Mesmo sem ter muitas vezes o destaque que os números merecem, é um dos melhores jogadores da atualidade e o segredo também pode passar pela dieta que cumpre com rigor e que é feita pela mulher, “uma nutricionista muito conhecida da Polónia”, como contou o companheiro Thiago Cionek.

“Ele tem sempre muita vontade de melhorar como jogador e para isso segue uma dieta especial. O Robert contou-me que a grande mudança na carreira dele, quando chegou ao topo no clube e na seleção, aconteceu muito por ter mudado radicalmente o que comia. Nas concentrações ele tenta transmitir esses benefícios aos outros jogadores. No dia dos jogos há muita proteína. Come atum ao pequeno-almoço e umas coisas meio doidas. Além disso, evita tudo que tenha glúten e lactose. Na véspera do jogo, depois do jantar, come um prato de arroz doce, para encher com hidrato de carbono e glicose. Na recuperação, muita verdura e abacate”, disse o central polaco nascido no Brasil em entrevista à ESPN, entre muitos outros elogios ao capitão de seleção.

“Todos os exames mostram que resulta até porque ele disputa mais de 50 partidas por ano e sempre ao mais alto nível físico. Recebo sempre alguns conselhos dele. E apesar de todo o sucesso que tem, e do facto de ser um dos maiores avançados do mundo, é um tipo simples e muito humilde. Está sempre disposto a ajudar e todos o reconhecemos como nosso capitão de uma forma natural. Nunca teve que forçar a liderança, é algo inato. Posso dizer que sinto-me um privilegiado por jogar com ele”, acrescentou o defesa dos italianos da SPAL.

Mais uma vez, o polaco fez a diferença mas aquilo que parecia ser uma goleada com números por apurar ganhou uma outra emoção com dois golos quase seguidos do defesa Martin Hinteregger (52′ e 55′), que reduziram a desvantagem à margem mínima e deram outra confiança a uma equipa do Eintracht Frankfurt a atravessar a pior fase da temporada, numa esperança que voltou a ser reduzida seis minutos depois com um golo do jovem prodígio canadiano Alphonso Davies, aproveitando um erro crasso na área de Gelson Fernandes. A equipa de Adi Hutter ainda esteve perto de fazer o 4-3 mas o Bayern voltou a agarrar o jogo e segurou de outra forma a vitória, chegando ao 5-2 que manteve os quatro pontos de avanço na Bundesliga com um autogolo de Hinteregger (76′).