A revista Panenka destacava na semana passada os 56 grandes momentos da Bundesliga, o primeiro campeonato mais mediático a regressar na Europa – e que acaba por ser também uma espécie de guia para todos os outros que se vão preparando, Portugal incluído. Nessa reportagem eram destacados vários clubes que outrora chegaram a ser campeões mas que foram atropelados pelo crescimento de potências nacionais que retiraram espaço a quem ficou apenas como o dono do seu tempo. O Rot-Weiss Essen, que se encontra agora na quarta divisão do país, é exemplo paradigmático disso mesmo. Mas se existe algo que não tem escalão nem preço é a criatividade. E aí há vários títulos que podem ser atribuídos, qualquer que seja o nome, o peso ou o patamar do clube em causa.

Neste caso, o clube da Renânia do Norte, que na década de 50 andou mesmo nas provas europeias, encontrou uma forma original de atenuar o impacto económico provocado pela pandemia do novo coronavírus. Sem jogos, sem direitos televisivos, sem os apoios diretos necessários. Como? Vendendo bilhetes, cervejas ou cachorros “virtuais”. “A maioria dos clubes da terceira e da quarta divisão na Alemanha não vivem do dinheiro da TV mas sim de receber nos jogos em casa o maior número de adeptos possível, que consomem comida e bebida no estádio e compram produtos do clube”, explicou nessa altura o presidente, Marcus Uhlig, à ZDF-Sportstudio.

Não se sabia ainda nessa altura se o futebol voltaria ou não mas o negócio avançou. Se a pandemia fosse superada e os jogos voltassem ainda esta época, os adeptos poderiam reclamar aquilo que tinham adquirido; se a temporada fosse cancelada, como acabou por acontecer, as receitas ficaram como donativos para o clube. Em menos de duas semanas, tinham sido vendidos mais de três mil bilhetes a nove euros (preço médio), 2.500 cachorros a dois euros e meio e seis mil cervejas a quarto euros. Receita só até essa fase para o Rot-Weiss Essen? 57.250 euros.

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Também na Bundesliga houve bons exemplos para contornar um terceiro pilar básico do futebol que vai continuar confinado: os espetadores. Os jogadores voltaram, os árbitros voltaram, os adeptos continuam de fora, a seguir pela TV aquilo que foi construído à sua volta. Mas o Borussia Mönchengladbach, outro histórico que dominou os anos 70 com cinco Campeonatos, uma final da Taça dos Campeões Europeus e duas Taças UEFA em equipas onde estavam Berti Vogts, Jupp Heynckes, Allan Simonsen ou Günter Netzer antes de descer ao segundo escalão, deu o exemplo e encontrou uma fórmula original de recriar a parte que ainda não regressou nesta “nova normalidade”.

O primeiro bom exemplo veio do próprio plantel. Numa fase onde não se conseguia ainda perceber os contornos de uma pandemia que fez parar a Bundesliga 66 dias, jogadores e equipa técnica abordaram a administração do clube com uma proposta de cortarem parte dos vencimentos. “Nas próximas semanas e meses teremos de compreender que apenas a continuação da Bundesliga, mesmo que sem espetadores, permitirá aos clubes sobreviver economicamente. Os jogadores sabem o que se passa. É o trabalho deles, já se informaram e pensaram. A equipa ofereceu-se para renunciar ao salário se isso ajudar o clube e os funcionários. A equipa técnica juntou-se a nós, tal como a direção», contou Max Eberl, diretor desportivo, ainda na terceira semana de março.

A seguir, entraram em campo os adeptos – mesmo proibidos de fazê-lo, por paradoxal que seja. O Fanprojekt Mönchengladbach, grupo de apoio ao clube, organizou uma ação onde todos os fãs poderiam imprimir em cartões grandes plastificados uma fotografia que seria depois distribuída pelas bancadas do Borussia Park, ao preço de 19 euros cada e com a possibilidade de os detentores de lugares anuais ocuparem a sua habitual posição. Esta tarde, na receção ao Bayer Leverkusen, foram 13.000 mas já estão encomendadas mais 7.000 que, esgotando, fazem subir a receita da ação de 247 mil euros para 418 mil euros. O clube associou-se ao projeto e a verba, essa, servirá para pagar aos sete funcionários do Fanprojekt e o restante será doado à Fundação Borussia.

A iniciativa fez com que os próprios elementos do B. Mönchengladbach se sentissem de certa forma mais apoiados mas não serviu para evitar a derrota frente ao Bayer Leverkusen, que saltou assim para o terceiro lugar à condição enquanto o RB Leipzig não entra em campo (defronta este domingo o Mainz). E com a estrela do costume em plano de evidência, num jogo em que os visitantes conseguiram provar aquilo que já tinham mostrado no Dragão: com espaço para sair em transições rápidas, são uma das melhores equipas da Bundesliga e candidata à vitória na Liga Europa. Foi dessa forma que Havertz, logo aos sete minutos, inaugurou o marcador, no único golo no período inicial antes de uma segunda parte mais intensa em que o B. Mönchengladbach ainda chegou ao empate por Marcus Thuram (52′) antes de Havertz (57′, de penálti, num lance muito discutido pelos visitados em que houve intervenção do VAR para assinalar a falta na área) e Sven Bender (81′) fazerem o 3-1 final.