A economia europeia e várias economias mundiais deverão sofrer bem mais do que o Fundo Monetário Internacional esperava há apenas dois meses, quando a generalidade dos estados já aplicava medidas de confinamento. Os dados publicados esta quarta-feira, na atualização do World Economic Outlook, ainda não têm novos números para Portugal mas, tendo em conta que os principais destinos das exportações portuguesas estão a ser alvo de fortes revisões, parece agora mais difícil que o FMI mantenha a previsão de 8% feita em abril.

O fundo monetário explica que “a pandemia de Covid-19 tem tido um impacto mais negativo na atividade no primeiro semestre do ano do que o esperado”, avisando ainda que a recuperação projetada deverá ser “mais gradual do que as anteriores previsões” antecipavam.

A zona Euro deverá ter uma queda do PIB de dois dígitos em 2020, menos 10,2% do que no ano anterior, o que representa uma retificação de 2,7 pontos percentuais (p.p.) — em meados de abril, o fundo previa uma quebra de 7,5%.

Só que os números — envoltos em grande incerteza, como sublinha o FMI — são potencialmente ainda mais problemáticos para as contas nacionais, tendo em conta que algumas das maiores revisões são feitas precisamente para os dois países que mais bens e serviços compram às empresas portuguesas.

Em apenas dois meses, Espanha, o maior cliente nacional — que em abril tinha uma previsão de recessão de 8%, igual à de Portugal —, vê as perspetivas de crescimento revistas em 4,8 p.p., para -12,8%. A confirmarem-se os cenários, será a pior queda económica nesta lista de países selecionados, a par de Itália (outro dos grandes afetados pela pandemia, que tem as contas revistas em 3,7 p.p.).

O contágio desta revisão espanhola deverá ser inevitável para Portugal, se levarmos em consideração que este mercado valia, até abril, quase 40% de todos os bens e serviços vendidos por Portugal à Zona Euro e 25% de todas as exportações nacionais.

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Com uma revisão das perspetivas ainda maior, França, o segundo mercado das exportações portuguesas, vê a quebra de atividade passar de 7,3% para 12,5%, uma diferença de 5,3 p.p. Entre os países escolhidos pelo FMI, apenas a Índia tem maior diferença face às previsões de abril do que França e Espanha (uma variação de 6,4 p.p., para uma recessão de 4,5%).

E não fica por aqui. A Alemanha, o terceiro maior cliente português, teve uma revisão de 0,8 p.p., para -7,8%; o Reino Unido, quarto mercado, vê a previsão revista em 3,7 p.p, para -10,2%; os EUA, quinto na lista de parceiros comerciais e principal motor da economia mundial, aparecem agora com uma possível recessão de 8%, uma revisão de 1,9 p.p.

As contas do FMI apontam agora para uma recessão de 4,9% em todo o mundo (-1,9 p.p.), com quase todos os países selecionados a terem fortes quebras de produção. Além das recessões europeias, destaque para as quedas de PIB na América Latina, com Brasil (-9,1%), Argentina (-9,9%) e México (-10,5%) em maus lençóis.

As exceções à quebra de atividade são o Egipto (crescimento de 2%) e a China, que não vai além de 1% — longe dos 6,1% registados em 2019.

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A recuperação em “v” é uma miragem no ocidente

Se tudo corresse de feição, as economias teriam uma recuperação em 2021 pelo menos tão forte como a queda deste ano, regressando, num ápice, ao nível de riqueza produzida em 2019. É isso que, apesar de tudo, o FMI ainda espera para a economia global: um crescimento de 5,4% em 2021, depois de uma quebra de 4,9% em 2020.

Só que, ao que tudo indica, este tipo de recuperações em “v” — com queda acentuada e recuperação total no ano seguinte — vai acontecer sobretudo a oriente. Entre os 30 países selecionados pelo FMI para esta atualização do World Economic Outlook, apenas Casaquistão, Coreia do Sul, Filipinas, Índia, Indonésia, Malásia, Paquistão e Turquia têm uma recuperação total dos níveis de produção. Fora destas contas estão a China e o Egipto, que não deverão perder riqueza em 2020.

Tudo o resto só vai recuperar totalmente, na melhor das hipóteses, um ano depois. Em condições normais, Paris entraria em êxtase com uma melhoria do PIB de 7,3% — o segundo crescimento mais elevado em 2021 entre os países selecionados, só ultrapassado pela China (+8,2%) — só que, na prática, o crescimento francês no próximo ano não chegará para repor o rendimento perdido em 2020, depois de uma recessão esperada de 12,5%. Por outras palavras, França terá de esperar por 2022 para, se tudo correr bem, voltar aos níveis de riqueza de 2019.

E com mais ou menos intensidade, o mesmo acontece nos restantes países europeus analisados. A Alemanha deverá crescer 5,4% depois de uma recessão de 7,8%; Itália e Espanha devem ambas recuperar 6,3%, após uma quebra de 12,8%; o Reino Unido também deve ver o PIB crescer 6,3%, sem conseguir recuperar totalmente da recessão de 10,2% prevista para este ano.

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Impacto da pandemia põe em risco redução da pobreza extrema

O FMI diz estar particularmente preocupado com o impacto negativo da crise nas famílias mais pobres, que “põe em perigo o significativo progresso feito na redução da pobreza extrema no mundo desde a década de 90”. Estão em causa pessoas que ganham menos de 1 dólar e 90 cêntimos por dia. A percentagem de famílias nestas condições caiu de 35% em 1990 para 10% nos últimos anos, mas este progresso pode agora ser posto em causa com a pandemia.

O fundo monetário deixa ainda um conjunto de recomendações aos governos, dependendo do momento que os respetivos países atravessam. Onde as economias estão a reabrir, o FMi defende que “os apoios direcionados deveriam acabar gradualmente à medida que a recuperação tem início”. E que os governos deveriam estimular o consumo, “incentivando a realocação de recursos” de setores que possam perder dimensão de forma consistente após a pandemia para outros em que haja maior procura.

Nos casos em que sejam ainda necessários confinamentos, os países “deveriam continuar a mitigar as perdas de rendimento das famílias com medidas consideráveis ​​e bem direcionadas, além de fornecer apoio às empresas que sofrem as consequências de restrições impostas à atividade”.

Na área da saúde, as sugestões são para todo o mundo. O FMI pede que seja assegurado o devido financiamento dos sistemas de saúde e insiste que a comunidade internacional “intensifique o apoio a iniciativas nacionais, incluindo através de assistência financeira a países com limitada capacidade de assistência à saúde e da canalização de financiamento para a produção de vacinas”.