A ideia de uma tábua sobre rodas com a qual podemos atravessar quase todo o tipo de terreno pode ser assustadora. Mas é, talvez por isso, que existe um magnetismo. Porque por entre o medo e a recompensa, entre a dor e a superação, o skate é do mais próximo que temos como metáfora da vida. Manobras à parte, para quem já experimentou o chão depois de uma pedra, um buraco, um desnível ou simples falta de equilíbrio terem contribuído para isso, sabe que há formas mais seguras de ir do ponto A ao B sem ser de skate.

“E se fizermos um skate com suspensão?”, perguntou Miguel Morgado, cofundador da startup Hunter, a Pedro Andrade, outra peça desta equação, da qual fazem ainda parte João Gomes, diretor de comunicação e Duarte Lino, responsável pelas operações da empresa. “Os problemas ficavam resolvidos, as pessoas tinham mais estabilidade e o risco era reduzido como consequência”, explica Pedro. A ideia já vinha a ser fermentada desde 2017.

“Começámos a trabalhar na Hunter há três anos, porque o Miguel [Morgado] estava a desenvolver uma mota elétrica de competição e tinha de testar a parte eletrónica num veículo mais pequeno. Então surgiu o skate elétrico”, disse.

Totalmente feita de alumínio espacial – e comparada tecnologicamente à Tesla por publicações como a The Verge ou a Input Mag – com o peso de 9kg, a Hunter Board tem uma velocidade máxima de 55 km/h, 38 km de autonomia, sendo que a sua bateria é removível (se o utilizador ficar sem bateria pode facilmente trocar a vazia por uma suplente cheia). Vem também equipada com travões regenerativos, capacidade para subir colinas com 30% de inclinação e 3.600 Watts de potência e é resistente à água.

Hunter Board tem uma velocidade máxima de 55 km/h e 38 km de autonomia

Além disso, as boards chegam com seis modos de circulação — Eco, Calm, Sport, Custom e Rain — e este último, o modo chuva, promete tornar a viagem bastante mais segura em piso molhado. Além disso, vem com quatro suspensões independentes e um sistema que permite curvar em ângulos de 25 graus. Junta-se a todos estes o facto de que todas as pranchas são personalizáveis.

Nenhum dos fundadores era, no entanto, profissional de skate. “Andávamos quando éramos miúdos”, conta, mas Pedro já conhecia as cordas do ofício de construir ideias. As passagens por projetos como a Craft Wallet ou Forall Phones carimbaram a experiência que a gestão de marketing no ISCTE, em Lisboa, já antecipava. Ajustou, com Miguel, a ideia, começaram os protótipos, perceberam o que queriam da Hunter. “Procurámos investimento em 2019 e conseguimos 150 mil euros da Olisipo Way e da Ideias Glaciares”.

Avançaram com a construção de uma fábrica no Carregado, quartel general do desenvolvimento e um dos pontos de que Pedro mais se orgulha. “É uma forma muito mais rápida e eficiente de aplicarmos o feedback do produto e, além disso, mantemos a produção em Portugal. Fazer um projeto destes em Portugal é muito importante para nós”, acrescenta.

Os fundadores estão a construir os skates numa fábrica no Carregado

Este sábado, 26 de setembro, pelas 20h00, serão lançadas e vendidas as primeiras 50 unidades da Hunter Board, um número bastante abaixo da lista de espera da empresa, que ultrapassa já os 3000 pedidos. Porquê 50? “Porque estamos a produzir um produto novo e, por experiência, vamos procurar manter as coisas numa escala mais pequena para ser mais fácil resolver problemas”, esclarece Pedro. Os skates vão custar 1.665 euros e podem ser pagos em prestações de 275 euros por mês sem juros.

“Fizemos mais de 80 protótipos, experimentámos muita coisa e fomos ajustando o que era preciso. Neste momento estamos a fazer a waitlist [lista de encomendas] crescer e as coisas têm corrido bem”. De seguida, serão recolhidas reservas de 100 dólares para a production run [produção] de 2021 e a comercialização generalizada do produto”, acrescenta.

O plano passa por seduzir mercados maiores como o norte-americano, o australiano e o do norte da Europa, principalmente do Reino Unido, uma estratégia que Pedro justifica como parte de uma mentalidade global necessária. “Se apontássemos para o mercado português não compensava. Um dos problemas das startups portuguesas é o tamanho do nosso mercado, que faz com que, desde o primeiro dia, tenhamos de ter um mindset [mentalidade] global. Nós estamos a criar uma marca global”, conclui.