A tempestade pode não ter passado, mas os italianos olham agora com relativa distância para o pico de uma pandemia que, ainda em fevereiro, começou a paralisar o país, em particular a região da Lombardia, no industrial e próspero norte de Itália. Milão não escapou, pelo contrário. Foram semanas de confinamento, de ruas desertas e de vida suspensa que agora dão lugar a um respirar de alívio. Enquanto outros países da Europa se veem tão ou mais ameaçados pela segunda vaga do vírus — caso de França e Espanha –, Itália é agora apontada como caso de sucesso no controlo da Covid-19.

Em qualquer outra parte do mundo, medir o pulso de uma cidade (ou mesmo de uma região) através da moda seria imprudente. Mas falamos de Milão, a capital italiana da moda, e a determinação com que a passerelle se reativou nos últimos dias — apesar das flagrantes limitações no público nos desfiles e da opção por um evento híbrido que promoveu apresentações à distância — denuncia um ritual próprio de uma cidade que se reergue para dar palco a uma das suas grandes artes.

Os desfiles assumiram formatos muito próximos do convencional — vejam-se os eventos da Fendi, Dolce & Gabbana e Valentino, entre outros –, mas também estimularam génios criativos como Jeremy Scott a reinventar o momento que é tão crucial para uma marca de autor como a Moschino. O street style voltou às ruas e com a leveza da era pré-pandemia, a mesma com que a cidade voltou a respirar moda e a ver brilhar os seus maiores nomes.

Fendi - Runway - Milan Fashion Week Spring/Summer 2021

Desfile da Fendi © Vittorio Zunino Celotto/Getty Images

Na última semana, a celebração assumiu várias formas. Para Silvia Venturini Fendi, a quem coube dar o pontapé de saída da fashion week, voltar à passerelle exigiu um olhar para trás. Na origem dos estampados estão fotografias tiradas da janela do próprio quarto durante o período de confinamento — aperitivo digital numa coleção marcada pela manualidade do tricot e dos bordados sobre linho. E como em todas as celebrações, esta também se fez com velhos amigos. Eva Herzigova, Yasmin Le Bon, Karen Elson, Edie Campbell e Ashley Graham abrilhantaram o casting da Fendi.

Para Domenico Dolce e Stefano Gabbana, leveza e minimalismo são conceitos difíceis de assimilar. No centro de uma coleção garrida esteve a técnica siciliana de construir a partir de retalhos, numa nova ronda da dupla pelas artes e ofícios manuais italianos. Numa linguagem diametralmente oposta, a Prada apresentou a sua primeira coleção desenhada a quarto mãos. Raf Simons coassinou 40 coordenados juntamente com a anfitriã Miuccia Prada, que durante uma sessão de perguntas e respostas nos bastidores do desfile definiu a coleção recorrendo à expressão utilidade. Uma reação lógica à crise que o mundo enfrenta e que, no caso desta nova dupla, passou por conter o excesso própria da criatividade em nome de um pragmatismo necessário.

Para aquele que considera ser um novo mundo, a Versace mergulhou até ao fundo do mar naquela que considerou ser a metáfora perfeita para que também a moda possa adotar uma mensagem relevante no atual contexto de crise. “Les Trésor de la Mer”, coleção desenhada por Gianni Versace para a primavera de 1992, foi o ponto de partida para uma nova interpretação das profundezas do mar e dos seus motivos, desta vez com uma overdose de cor e numa apresentação mista (homem e mulheres), que contou apenas com funcionários da casa na audiência.

Num desfile imersivo, onde o cenário remeteu para a velha lenda de Atlântida, a cidade submersa, Donatella quis ainda projetar a Versace do futuro — “um exemplo de inclusão, de apoio mútuo e de aceitação dos que são diferentes de nós”, segundo referiu à Vogue. A mensagem tornou-se especialmente clara à passagem de manequins plus size. Alva Claire, Jill Kortleve e Precious Lee foram as silhuetas em destaque e fizeram sombra a estrelas da passerelle como Mica Argañaraz, Mariacarla Boscono, Joan Smalls e Irina Shayk.

Mas o atual contexto levou outros designers — um em particular — a desenvolver soluções mirabolantes para substituir o desfile convencional. Nesse campeonato, Jeremy Scott bateu todas as expectativas ao criar uma coleção à escala de pequenas marionetas articuladas. Ao serviço da Moschino, o criador não deixou nenhum detalhe de fora — foi montada uma sala, com caras bem conhecidas na primeira fila (de Anna Wintour a Edward Enninful), ainda que não passassem de representações inanimadas.

“Strings Attached” resulta da vontade do norte-americano de trazer para o pronto-a-vestir a nobreza da alta-costura. Ao mesmo tempo que é composta por materiais mais ricos e silhuetas solenes, as peças trazem visíveis elementos da sua construção, esqueletos de corpetes, assimetrias inesperadas, folhos e brocados. As mesmas figuras e as mesmas roupas em miniatura eram usadas pelos criadores franceses no final da Segunda Guerra Mundial. Serviam de mostruário, numa tentativa de salvar os ateliers em dificuldades. Por muito que o designer tenha proporcionado um momento de fantasia em tom de escape face à dura realidade que o mundo enfrenta, o paralelismo é inevitável.

Giorgio Armani, o homem que, em fevereiro, foi o primeiro a ceder à ameaça do novo coronavírus e a fazer um desfile à porta fechada, manteve a opção de há seis meses. Com transmissão televisiva, a coleção desenrolou-se sem surpresas ao longo de 99 coordenados. O pragmatismo foi, mais uma vez, o trunfo em cima da mesa — as peças de alfaiataria clássica atravessaram visuais masculinos e femininos (além de também terem sido concebidos para atravessarem o tempo), predominaram os tons sóbrios como os cinzentos e os azuis, ao mesmo tempo que as silhuetas surgiram predominantemente limpas de elementos acessórios.

Num momento de cedências, também a Valentino de Pierpaolo Piccioli teve de abdicar do seu já instituído desfile em Paris. Em vez disse, apoderou-se de um cenário industrial — uma antiga fundição de Milão –, com espaço suficiente para comportar uma plateia generosa, uma instalação de plantas do japonês Satoshi Kawamoto e ainda um palco onde o músico britânico Labrinth atuou ao vivo. Um banho de realidade, por um lado. Uma marca histórica que não abdica dos seus pequenos (e habituais) luxos.

O mesmo pode dizer-se da coleção apresentada, que conseguiu preencher praticamente todos os campos das atuais necessidades humanas — de uma versão prática e diurna do little black dress e das camisas e blazers oversized aos exuberantes estampados florais e aos longos vestidos cheios de movimentos, fruto da abordagem romântica que caracteriza o criador italiano.

Entre os que se moldaram à chamada “nova normalidade” e os que preferiram servir a moda enquanto experiência de evasão, Milão sobressaiu na vitalidade com que montou a sua primeira grande semana da moda em tempo de pandemia. Ao lado dos nomes referidos estiveram outros — Missoni, Alberta Ferretti, Etro, Boss, Emilio Pucci, Salvatore Ferragamo e mais. O último dia ficou reservado à moda portuguesa. Paris tem agora a responsabilidade de encerrar o circuito internacional, ainda com a gestão da pandemia numa fase bem mais crítica.

Na fotogaleria, veja algumas das imagens que marcaram a Semana da Moda de Milão.