Cansados, sem bateria nos telefones nem nos computadores e com uma série de propostas em cima da mesa ainda por aprovar, já com mais de seis horas de reunião. Foram os argumentos que bastaram ao PSD e ao CDS para abandonarem este início de noite de quarta-feira a reunião pública da Câmara Municipal de Lisboa, que não se realizava há já seis meses e à qual o presidente da Câmara, Fernando Medina, não compareceu.

A reunião começou pelas 15h e no seu início o vice-presidente João Paulo Saraiva explicou logo que Medina não iria estar presente por estar a acompanhar o primeiro-ministro, António Costa, numa reunião da Concertação Territorial. Uma ausência imediatamente considerada de mau tom, uma vez que 24 horas antes tinha caído parte do teto do túnel do Metro da Praça de Espanha e a oposição tinha perguntas a fazer sobre o ocorrido. “Fernando Medina devia esta presente e tinha uma explicação para dar à sociedade”, afirmou ao Observador o social democrata João Pedro Costa.

Ao Observador, fonte do gabinete de Fernando Medina diz que o presidente da Câmara esteve numa reunião do Conselho de Concertação Territorial, em representação da área metropolitana de Lisboa. “Era uma reunião importante onde se discutiam fundos e como a área metropolitana vai responder à crise, que investimentos vão existir”, afirma a mesma fonte. Medina fez-se representar na reunião pública da Câmara pelo vice-presidente da autarquia, João Paulo Saraiva, como prevê o regimento da Câmara.

Metro da Praça de Espanha deverá reabrir sexta-feira. O que já se sabe sobre o incidente que Medina diz ter sido um “erro grosseiro”

A reunião avançou com 37 propostas. A certa altura interrompeu-se a ordem de trabalhos para ouvir o público, que foi entrando um a um para cumprir as novas regras sanitárias, e numa outra vez para pontos extra-agenda do executivo. Já depois das 20h, e com uma série de propostas ainda por discutir e aprovar, o PSD e o CDS chegaram a tentar pôr fim à reunião e remarcar um outro dia para continuarem, mas o PCP opôs-se e os trabalhos prosseguiram. Mas quando chegou a vez de aprovar o primeiro plano municipal para a igualdade de género e o segundo contra a violência doméstica, a deputada do PSD Teresa Leal Coelho não se conteve.

Disse que o PSD iria aprovar, mas que estas propostas precisavam de dignidade na sua discussão”, contou a própria ao Observador.

Teresa Leal Coelho queixa-se de não ter conseguido apresentar algumas das propostas do seu partido, ora porque a apressavam, ora porque lhe tiravam a palavra. “Não aceitamos estar a discutir assuntos desta importância sempre a ser interrompidos. Não é compatível com a cultura democrática que temos que ter na cidade de Lisboa, não estamos ali para enfeitar”, disse ao Observador, acusando o executivo de ser “prepotente, arrogante” e de não conseguir “aceitar os direitos da oposição”.

Assunção Cristas, segundo o vídeo disponível no Youtube ,concordou. “Não acho que seja aceitável ou exigível que continuemos”, disse, quando o relógio bateu nas 21h e criticando João Ferreira, que entretanto se tinha ausentado — embora se tivesse oposto momentos antes, ao adiamento da reunião.

Já demos para este peditório hoje. São 21h30 não é aceitável continuarmos esta reunião”, disse.

Já João Gonçalves Pereira, também do CDS, disse ao Observador que quando o CDS e o PSD abandonaram a sala, já perto das 21h30, havia ainda mais de 15 propostas para votar. Mas como havia quórum, elas terão acabado aprovadas, mesmo sem CDS e PSD. “Tivemos uma ordem de trabalho atípica com um sem número de propostas”, constatou. “Isto é um desrespeito pelo órgão camarário. É preferível ter mais reuniões e mais curtas do que ter reuniões de 7 e 8 horas”, concluiu.

Sobre o volume de trabalho, fonte do gabinete de Fernando Medina diz que é comum que as reuniões de câmara sejam longas. “Quem colocou os temas no período antes da ordem do dia que ocuparam metade da reunião foram os partidos que se queixaram que a reunião demorou tempo demais, o PSD e o CDS”, aponta.