Apesar de toda a sua raiva, a 24 de outubro de 1995 Billy Corgan era apenas uma semi-estrela do rock, o líder um tanto ou quanto pomposo de uma banda grunge com potencial que, por essa altura, já tinha lançado meia dúzia de grandes canções, a começar pelos singles do disco anterior, Siamese Dream: “Cherub Rock”, “Today”, “Disarm” e “Rocket” seriam suficientes para deixar muito aspirante a estrela feliz para o resto da vida.

Mas a 24 de outubro de 1995, o mundo ouviu Billy Corgan cantar:

“Apesar de toda a minha raiva
Continuo a ser apenas um rato numa gaiola”

Nesse exato instante, Billy Corgan tornou-se uma mega-estrela do rock, um multimilionário, e os seus Smashing Pumpkins justos aspirantes a melhor banda do mundo daquele instante.

Há que reconhecer o que aconteceu ali, faz 25 anos: o grunge, um género marcado por guitarras sujas e rapazes brancos a berrarem sobre os seus traumas, era – como todos os géneros – razoavelmente paupérrimo e, à exceção dos Nirvana e Mudhoney, pouco se aproveitava.

Eis que do nada os Pumpkins dão um salto épico, recusam reduzir a sua música a apenas chinfrineira e oferecem ao mundo um duplo álbum conceptual em que, por entre as guitarras – que continuavam a ser a base – havia cordas, pianos, peças melancólicas, harpas, pop pura, como em “1979”, ainda hoje um exemplo de como criar uma tremenda canção com quase nada.

[“1979”:]

Ninguém esperava uma coisa assim, exceto o próprio Corgan, que várias vezes anunciara que um dia faria uma coisa assim – Corgan não queria ser visto como parte do grunge, achava-se musicalmente superior (e em termos técnicos era-o certamente) e nem sequer se revia nas influências que marcavam os Soundgarden e Alice in Chains desta vida: dizia Corgan que os Thin Lizzy ou os Cure tinham muito mais importância para si que qualquer banda punk dos 70s.

Um pouco de contextualização de Corgan e da época ajuda a perceber o que se passava aqui: há quase trinta anos, quando o grunge emergiu em força, sobretudo graças a Nevermind (Nirvana), Ten (Pearl Jam) e Siamese Dream (Smashing Pumpkins), essa foi a primeira vez desde o punk em que bandas independentes e agrestes invadiram as tabelas de vendas. Foi um daqueles momentos em que se pode falar em zeitgeist: uma geração de slackers (segundos os seus pais) revia-se em toda aquela violência, toda aquela raiva e acorreu massivamente a comprar os discos e deificar os seus heróis.

[ouça “Mellon Collie and the Infinite Sadness” através do Spotify:]

Regra geral, esses heróis eram uns desgraçados: ao contrário do que mandava a etiqueta rock, não faziam grandes declarações, não diziam que iam mudar o mundo; estavam, simplesmente, deprimidos, quase sempre agarrados à heroína e deficitários na saúde mental: Cobain suicidou-se cedo e, pelas décadas fora, outros sucumbiram à heroína ou aos seus demónios. Hoje sobram Corgan, Vedder e Mark Arm, o mais esquecido de todos.

Só que esta tipificação sociológica (grosseira, mas útil para efeitos deste texto) dos heróis do grunge falhava quanto a Corgan, que adorava declarações monumentais – ele sim, afirmava que liderava a maior banda do mundo, que os Smashing Pumpkins iam mudar tudo, liderar uma revolução da qual, presumivelmente, todos os pais seriam vítimas; algo de muito curioso no grunge é que toda aquela gente vinha de famílias destruídas ou destrutivas. Aliás, mais que um conceito musical, o grunge é um conceito identitário, extraordinariamente bem expresso no primeiro verso de “This be the verse”, do poeta inglês Philip Larkin, que certamente teria odiado o grunge:

“They fuck you up, your mum and dad”  

Nesse aspeto, Corgan era mais ou menos como os outros: os pais divorciaram-se, a madrasta abusou física e emocionalmente dele e, para piorar o cenário, quando o pai e a madrasta se separaram, as crianças ficaram a viver com a madrasta. Corgan tem ainda um meio-irmão e até hoje não sabe quem é, e a sua relação com o pai foi oscilando entre o inexistente e o péssimo.

Billy Corgan, D’Arcy, Jimmy Chamberlin e James Iha: os Smashing Pumpkins em 1995

Cobain cresceu a ouvir uma dieta de bandas punk esteticamente irrepreensíveis e nunca deve ter dado um chuto numa bola; Corgan era um jock, um atleta, e a sua dieta musical, até descobrir os Cure era composta de pop azeiteira como os Queen ou os Boston. Essa dimensão mais gordurosa também esteve presente nos Smashing Pumpkins, que sempre foram vistos com desconfiança pelas outras bandas por não serem suficientemente punks.

O que nos leva de volta a 1995 e a Mellon Collie and the Infinite Sadness que, na altura, foi anunciado como um duplo-álbum conceptual. Duplos álbuns, para mais conceptuais, eram coisa de prog-rock, que Corgan fazia questão de dizer que adorava, nem que fosse para chatear os restantes músicos grunge.

Duplo-álbum, para mais conceptual, levava a esperar o pior – mas que raio pode interessar um rótulo desses quando havia riffalhada basta, como em “Ode to No One”? Que podia interessar isso perante a perfeição clássica e épica das cordas de “Tonight Tonight”? Que diferença fazia se o disco era conceptual ou não quando deparávamos com a pop quase psicadélica de “Thirty-three” (em que Corgan declara que “deep down I forgive everyone”) ou de “Farewell and Goodnight”.

[“Thirty Three”:]

Olhando, vinte e cinco anos depois, para trás não é difícil concluir um par de coisas: que se mais bandas grunge se tivessem dado ao trabalho de levar a sua escrita ao limite das suas capacidades, talvez hoje a maior parte daqueles discos fossem um bocado melhorzinhos; e que Corgan estava numa extraordinária forma, capaz de escrever uma grande canção, fosse em que estilo fosse – e ainda por cima com um inesperado bom gosto imaculado na escolha do fuzz das guitarras, em cada nota de um arranjo – não há nada de melhor para um melómano que um músico talentoso e ansioso por mostrar ao mundo as suas capacidades.

À época, Mellon Collie dividiu a crítica, que ora idolatrou o disco ora o considerou pomposo – e se é certo que Mellon Collie podia muito bem viver sem meia-dúzia de temas (a maior parte dos quais de grunge genérico) não é difícil de reconhecer, até para quem tem algum prazer em implicar com Billy Corgan, que o que aqui foi conseguido foi um feito: um disco de rock’n’roll à antiga, com tudo lá dentro e um fio a percorrer cada canção – o tal conceito.

Não é um grande conceito, diga-se. Chamar-lhe conceito é uma forma pomposa de dizer que Corgan escreveu um disco sobre achar que o mundo é bostinha, e se sentia vazio e perdido apesar de já ser um adulto e ter dinheiro e também tinha dúvidas sobre viver da arte de trocar dor (a dele) por dinheiro.

Com toda a honestidade, muito possivelmente nunca ninguém quis saber do conceito para nada, a maior parte das pessoas concentraram-se nos riffs e nas melodias. E foram muitas a concentrar-se: em 2012 o álbum ganhou o galardão de platina por vendas superiores a 10 milhões de unidades. Com toda a honestidade: é mais que merecido.

[Bullet with Butterfly Wings”:]

A carreira dos Pumpkins, a partir daqui, foi sempre a cair, de irrelevância pomposa em irrelevância pomposa, metade da banda saiu, voltou a entrar, voltou a sair. Há um par de dias eles anunciaram que estavam a completar o que seria a continuação de Mellon Collie e Machina/The Machines of God (2000), perfazendo uma trilogia. O álbum em composição tem já 33 faixas escritas.

Vamos evitar pensar nisso. Hoje é dia de aplaudir o ego de Corgan, que em 1995 foi capaz de escrever “To Forgive” ou “Bullet with Butterfly Wings, antes de colapsar e expulsar o talento.