O diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas defende uma maior coordenação entre hospitais para dar resposta aos doentes não Covid, lembrando que a pandemia pode ter efeitos devastadores na mortalidade destes doentes.

“É importante que a rede de cuidados seja reconfigurada e que as estruturas se adaptem aos momentos que vivemos”, afirmou José Dinis, lembrando que, neste momento, há unidades que não estão tão sobrecarregadas com doentes Covid e que podem ajudar na assistência aos outros doentes.

O responsável diz que a capacidade do Serviço Nacional de Saúde está longe de esgotar a resposta, que a pressão não é igual em todas as unidades e que os menos “stressados” devem ajudar os outros a dar resposta aos doentes não Covid, tal como acontece com os utentes Covid, dando o exemplo dos doentes transferidos para do Norte para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

O SNS está longe de esgotar a sua capacidade, mas é preciso passar esta potencial capacidade para o terreno e ver se é possível. Não sendo possível, (…) em tempo de emergência deixa de haver privados e Estado e somos todos saúde e os cuidados têm de ser prestados”, afirmou.

“Se há hospitais em stress por causa da resposta Covid e têm doentes oncológicos em atraso, (…) contactem os centros de referência dentro do SNS”, disse o responsável, dando o exemplo do IPO do Porto: “Não podemos dizer que estejamos sob stress. Mas é importante que haja separação do doente Covid e não Covid”.

A propósito da redução de novas consultas, por exemplo na área da oncologia pneumológica, uma questão levantada por especialistas da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, José Dinis afirma: “Tudo me preocupa na área da oncologia, mas preocupa-me mais os casos dos tumores que eram e são detetados numa fase perfeitamente curável e em que um atraso pode fazer baixar de forma drástica a sobrevivência”.

“Não é o caso do cancro do pulmão. Entre 70 a 80% já eram diagnosticados em estadio 4, não curável, na era pré-Covid”, acrescenta. José Diniz aponta, por exemplo, os doentes pediátricos, para os quais se consegue uma cura em mais de 80% dos casos, ou os casos de cancro de mama, em que o rastreio é fundamental.

“Um atraso de cinco, seis ou sete meses aqui por fazer aumentar o estadio da doença e isso vem a repercutir-se depois”, sublinha.

O responsável reconhece que os atrasos tanto no rastreio como nas consultas e cirurgias foram o resultado esperado da suspensão da atividade decidida na primeira vaga da pandemia de Covid-19, que afetou tanto o setor publico com os convencionados e o privado.

O [atraso] que estamos a ter era esperado. Não há novidade nenhuma. E isto vale seja as doenças oncológicas, seja as doenças cardíacas ou as cerebrovasculares. É uma consequência inevitável”, reconhece.

Sobre a recuperação da atividade na área da oncologia, o especialista remete os dados para o Ministério da Saúde, mas diz que há um “aumento progressivo” na resposta.

Contudo, os casos cujos diagnósticos dependem dos cuidados de saúde primários, por exemplo, dos médicos de família, como o cancro do colo do útero, José Dinis diz que estão “mais prejudicados”.

Estes casos estão mais prejudicados, pois os equipamentos que fazem diagnóstico estão desviados para o diagnóstico de Covid. Além do mais, [os utentes] precisam de consulta médica e os colegas dos cuidados de saúde primários todos sabemos as dificuldades que existem para acesso”, diz.

Adianta ainda que o medo dos utentes em ir aos cuidados de saúde, no caso dos IPO, já foi ultrapassado, pois as medidas tomadas deram segurança aos doentes, e que os surtos de que se ouviu falar podem sempre acontecer, mas “são situações muito esporádicas”.

“A lógica tem de ser vista a nível nacional pelas ARS e os hospitais são pontos de entrada. Se o ponto A está mais stressado, passa ao ponto B e ao C. É quase como a lógica militar”, afirmou o especialista, lembrando que o atraso nos doentes não-Covid pode ter uma repercussão devastadora em termos de mortalidade.