O cientista iraniano Mohsen Fakhrizadeh-Mahabadi, um dos principais cientistas nucleares do país, tido como o mentor do programa nuclear iraniano, foi assassinado esta sexta-feira nos arredores de Teerão. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano aponta o dedo a Israel, embora não existam informações oficiais sobre quem foram os autores do ataque — que terão sido mortos depois de atacarem o veículo onde seguia o cientista, segundo a agência noticiosa iraniana FARS, que cita testemunhas oculares. A promessa de vingança já foi feita por um conselheiro militar do líder supremo do Irão e outros altos responsáveis do país.

“Hoje, terroristas assassinaram um eminente cientista iraniano”, escreve o ministro Javad Zarif no Twitter. “Esta cobardia — que tem sérias indicações de ser de responsabilidade israelita — mostra o desespero belicista dos perpetradores.” O ministro dos Negócios Estrangeiros apela ainda à comunidade internacional e em especial à União Europeia “para acabar com seus vergonhosos” dois pesos e duas medidas e “condenar este ato de terrorismo”.

O ataque aconteceu na cidade de Absar, condado de Damavand, 40 quilómetros a leste de Teerão, capital do país. As ruas daquela zona repleta de casas de férias estavam mais vazias do que o normal, já que a pandemia de Covid-19 obrigou o país a um novo confinamento.

Segundo a agência FARS, o veículo onde o cientista de 63 anos seguia foi primeiro atingido por uma explosão e, em seguida, por disparos de metralhadoras.

Mohsen Fakhrizadeh-Mahabadi foi transportado para o hospital, mas acabou por morrer. Um comunicado do Ministério da Defesa iraniano avança que “após um confronto entre os terroristas e os guarda-costas, Fakhrizadeh ficou gravemente ferido e foi levado à pressa para o hospital”, mas “a equipe médica não conseguiu reanimá-lo”.

A agência de notícias privada iraniana Tasnim adianta que o cientista chegou de helicóptero à unidade de saúde e que a carrinha onde seguiam os atacantes estava carregada de explosivos, escondidos debaixo de madeira. Depois de uma explosão perto do veículo onde seguia Fakhrizadeh, os atacantes dispararam várias balas contra o veículo. Um dos guarda-costas do cientista terá sido baleado quatro vezes. Fakhrizadeh sofreu ferimentos na explosão e de balas que se revelaram fatais.

Top Iranian nuclear scientist Mohsen Fahrizade killed in terror attack

ataque aconteceu na cidade de Absar, condado de Damavand, 40 quilómetros a leste de Teerão

“Israel está a tentar provocar uma guerra”

Outro dedo que já apontou na direção de Israel foi o de Hossein Dehghan, conselheiro militar do líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei: “Nos últimos dias de vida política do seu aliado no jogo, os sionistas procuram intensificar e aumentar a pressão sobre o Irão para travar uma guerra. Vamos descer como um raio sobre os assassinos deste mártir oprimido e faremos com que se arrependam das suas ações.”

As declarações do militar — visto como favorito na corrida às presidenciais de 2021 — são citadas em vários jornais iranianos. Dehghan verbaliza assim a ideia que está na mente de muitos iranianos e que se lê repetidamente nas redes sociais: Israel quer provocar um confronto aberto com o Irão enquanto ainda é Donald Trump que ocupa a Sala Oval.

Israel não fez, até agora, quaisquer comentários à morte do cientista nem reagiu às acusações que lhe são feitas.

Do lado dos Estados Unidos não houve qualquer declaração oficial sobre o sucedido. O presidente Donald Trump limitou-se a republicar notícias do assassinato, sem acrescentar mais nada — e isso foi o bastante para alguma imprensa local, como a Mehr, escreverem que ao republicar um texto do “jornalista sionista Yossi Melman” o presidente norte-americano “confirmou implicitamente o envolvimento do regime sionista no assassinato do cientista nuclear iraniano”.

No seu tweet, Melman escreve que a morte do cientista nuclear é um “grande golpe psicológico e profissional para o Irão” e que há vários anos era procurado pela Mossad, os serviços secretos de Israel.

Vingança “severa” prometida por Teerão

Segundo a FARS, não faltam altos responsáveis iranianos a prometer vingança pela morte do cientista nuclear. Entre eles contam-se Mohammad Baqer Qalibaf, porta-voz do parlamento iraniano, e o chefe do Estado-Maior e general das Forças Armadas Iranianas, Mohammad Hossein Baqeri.

“Vingança severa para os terroristas” e para os que ordenaram o ataque foi a promessa feita pelo porta-voz do parlamento que também deixou acusações a Israel: “O ataque terrorista ao proeminente cientista e elite de defesa do país, o mártir Dr. Mohsen Fakhrizadeh, chefe da Organização de Inovação e Pesquisa Defensiva, mais uma vez expôs a face imunda do regime sionista e a arrogância global.”

A mensagem do chefe do Estado-Maior não variou muito de tom. “A dura vingança aguarda os assassinos”, afirmou o general Baqeri que também atribuiu responsabilidades “ao malvado regime sionista”. Para além disso deixou um alerta: o Irão não vai fazer inversão de marcha. “Os nossos inimigos devem saber que apesar do assassinato deste valioso administrador ter infligido um golpe no complexo de defesa do país, o caminho iniciado por estes cientistas nunca será interrompido”, acrescentou o general.

Também Qalibaf deixou promessa semelhante: “As nossas indústrias em todas as áreas militares, nucleares, de mísseis, etc. irão mover-se ainda mais rapidamente.”

Vários analistas internacionais comparam a importância de Fakhrizadeh com a de Qasem Soleimani, general assassinado pelos Estados Unidos em janeiro passado durante um ataque áereo em Bagdad.

Quem é Qassem Soleimani, o general de elite do Irão morto pelos EUA?

“Havia um paralelo entre os dois em termos de senioridade e de prestígio dentro do Irão, embora fizessem coisas completamente diferentes”, disse Simon Henderson, especialista em Médio Oriente, ao Washington Post.

Entre 2010 e 2012, 4 cientistas nucleares iranianos foram mortos

Fakhrizadeh não é o primeiro cientista nuclear do Irão a ser assassinado. Entre 2010 e 2012 foram mortos quatro outros físicos — Masoud Alimohammadi, Majid Shahriari, Darioush Rezaeinejad e Mostafa Ahmadi Roshan — e um quinto ficou ferido durante uma tentativa de assassinato (Fereydoon Abbasi).

Teerão considerou que aquela série de eventos era uma tentativa de sabotar o seu programa de energia nuclear e acusou Israel de ser cúmplice dos crimes.

Em 2018, o primeiro-ministro israelita identificou Fakhrizadeh como sendo o diretor do programa nuclear iraniano, durante um discurso em que acusou o Irão de mentir à comunidade internacional.

“O Irão mentiu muito”, disse Benjamin Netanyahu em Tel Aviv, num discurso transmitido pela televisão. “O Irão está a mentir descaradamente quando diz que nunca teve um programa de armas nucleares.” Sobre o cientista agora assassinado, Netanyahu frisou: “Lembrem-se deste nome, Fakhrizadeh.”

Mohsen Fakhrizadeh (Foto: Iranian Leader Press Office/Handout/Anadolu Agency via Getty Images)

As palavras do primeiro-ministro israelita estão a ser recordadas pela imprensa iraniana que frisa que Fakhrizadeh foi o único cientista nuclear iraniano algum dia apontado pelo nome por Netanyahu.

Quem era Fakhrizadeh?

General da Guarda Revolucionária Islâmica e professor de física na Universidade Imam Hussein, pouco se sabe sobre a vida de Fakhrizadeh. Até 2018 não havia sequer nenhuma imagem sua disponível publicamente.

No Ocidente, acredita-se que liderou o chamado programa Amad (ou Esperança) do Irão que terminou no início dos anos 2000, segundo a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Desde então, as instalações iranianas são inspecionadas regularmente como parte do acordo nuclear do Irão com os cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU — Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França — e a Alemanha.

Durante o seu mandato, Donald Trump afastou os Estados Unidos do acordo.

O programa Amad teria como objetivo a construção de armas nucleares, embora Teerão sempre tenha recusado essa ideia, garantindo que o programa nuclear tinha apenas fins pacíficos.