Terminou a Web Summit mais “web” de sempre, não tivesse a pandemia de Covid-19 mantido em casa as dezenas de milhar de participantes que se reuniam por esta altura em Lisboa. O evento em modo digital ajudou a que a quantidade de temáticas, oradores e participantes também tivesse acontecido em maior número do que em qualquer outra edição.

Nas quase nove horas de conferências desta sexta-feira falou-se de tudo. A (falta de) diversidade nas empresas, a importância de discutir a saúde mental, o caminho até à igualdade de género, as mudanças na indústria alimentar, as opiniões sobre a política norte-americana, o papel dos denunciantes, o mercado único na Europa aos olhos de Margrethe Vestager, e a startup que venceu o pitch deste ano. Estas foram nove ideias que retivemos no último dia da Web Summit.

Diversidade: “A pandemia atingiu mais aqueles que são menos representados”

Julia Gillard, ex-primeira-ministra da Austrália, e Jeremy Johnson, da Andela, conversaram esta tarde sobre a igualdade no desenvolvimento humano. E houve uma ideia comum: “É inquestionável que a pandemia atingiu mais aqueles que são menos representados, os que têm menos meios para lidar com os desafios”. Apesar disso, acrescenta Jeremy Johnson, devem também ser pensadas as “oportunidades que foram criadas para haver mais igualdade”.

Noutro momento do dia, Noelle Silver, chefe de instrução, ciência de dados, análise e desenvolvimento na HackerU, juntou-se a Cornel West, académico e ativista, e Tricia Rose, professora de estudos africanos na Universidade de Brown, e conversaram sobre dilemas raciais nas empresas tecnológicas — outro foco de desigualdade na indústria. A falta de diversidade nas grandes empresas tecnológicas, refere, é um problema “sistémico”, uma vez que “nas grandes empresas tecnológicas há um quadro de pessoas muito homogéneo”.

Cornel West recordou também que se está a celebrar o aniversário da execução de John Brown, norte-americano que defendeu o fim da escravatura no século XIX. “Se os líderes dessas empresas tivessem a integridade dele, teriam uma ideia mais profunda do mundo que não obrigasse a pensar em juntar pessoas negras nos seus painéis. Fá-lo-iam naturalmente”.

Saúde Mental: “Ler, especialmente ficção, melhora mesmo o nosso estado de espírito”

Em ano de pandemia de Covid-19, o tema da saúde mental foi falado mais do que nunca. Também na Web Summit houve espaço para o debater e apresentar algumas soluções tecnológicas que podem ser uma ajuda. Padmasree Warrior, fundadora e presidente da Fable, uma plataforma de leitura focada no bem-estar mental, foi ao palco principal explicar como é que a tecnologia nos pode ajudar a desocupar a mente e a focar naquilo que é importante.

Padmasree Warrior começou por contar como passou da indústria de veículos elétricos para a criação da Fable. “Quando estava nesta área, pensei em como poderíamos aplicar toda esta tecnologia em coisas que nos importavam realmente”, explica. Ao mesmo tempo, Warrior encontrou “muitos dados que mostravam como a saúde mental estava em declínio”, com problemas como ansiedade e depressão a aumentarem.

Padmasree Warrior criou a Fable, uma plataforma de leitura focada no bem-estar mental.

O objetivo da Fable é precisamente trabalhar a atenção na saúde mental, usando a tecnologia. A leitura, explica, é uma das ferramentas para isso: “Ler, especialmente ficção, melhora mesmo o nosso estado de espírito”. Apesar de hoje muita gente estar focada no exercício físico e num estilo de vida mais saudável, Padmasree Warrior considera que há uma área também importante que deve ser mais abordada: o fitness mental ou cognitivo, ou seja, “a habilidade de tomar decisões, de pensar claramente, de perceber problemas”. “Ainda não usamos muita tecnologia ou pensamos pouco que esta é uma área em que nos devemos focar”, acrescenta.

Também na conversa entre Jason Fried, cofundador e presidente da Basecamp, e Jessi Hempel, editora sénior do LinkedIn, abordou-se o tema do burnout e a possibilidade de o nível esgotante de stress profissional poder estar a aumentar com o teletrabalho. Caso tenha perdido as conferências, fique também a saber que Deepak Chopra, uma referência para a meditação, colocou um avatar a ensinar centenasde pessoas  a gerir o stress do dia-a-dia.

Respire fundo. Fizemos uma aula de meditação com o avatar de Deepak Chopra e contamos como foi

Igualdade de género: “Quando líderes mulheres falam sobre sexismo, as pessoas acham que estão a ser queixinhas”

Julia Gillard, a ex-primeira-ministra da Austrália, disse que nunca teve um momento de revelação em que tivesse apercebido que chegaria à liderança de um país. Foi “uma evolução”, algo de que se percebeu à medida que foi crescendo: “Aos 15 anos, não imaginava sequer que estaria no Parlamento, mas dez anos depois, com alguma experiência, dizia que sim. Foi uma viagem de evolução”, resumiu.

Questionada sobre se teve alguma mentoria ao longo do processo, a primeira mulher a ocupar o topo do governo australiano contou que “não tinha uma mentoria em ninguém porque era a primeira [primeira-ministra mulher], não havia mais ninguém com a minha experiência”: “Mas tive uma governadora de Victoria que foi como uma mentora”.

Enquanto discutia o livro que publicou este ano, “Women and Leadership”, Julia Gillard notou que “um dos problemas das líderes mulheres falarem sobre sexismo é as pessoas acharem que essas mulheres estão a ser queixinhas”, como se “não tivessem o direito a falar sobre isso por ocuparem um cargo superior”.

Na obra, a política questionou-se sobre o que permite às mulheres chegarem à liderança. Após entrevistar oito mulheres em contextos completamente diferentes, descobriu algo em comum: todas vinham de uma família que não limitava ou balizava o potencial delas. “Nunca tinham ouvido: “Não podes fazer isso por ser mulher” ou “Deves fazer isto por ser mulher””.

Julia Gillard foi a primeira mulher primeira-ministra da Austrália.

Numa palestra que ocorreu mais tarde, a ex-primeira-ministra da Austrália destacou o perigo do aumento da violência doméstica durante a pandemia e de alguns estereótipos da mulher, sublinhando que surgiram vários “desafios complexos em simultâneo”.

Jeremy Johnson, da empresa de desenvolvimento de software Andela, outro participante na conversa, referiu que “é inquestionável que a pandemia atingiu mais os menos representados, os que têm menos meios para lidar com os desafios”, mas devem também ser pensadas as “oportunidades que foram criadas para haver mais igualdade”.

Jeremy Johnson afirmou ainda que a transição para o trabalho remoto “vai ser uma das ferramentas mais poderosas para ajudar a acabar com a desigualdade”. Sobre a sua experiência em África, onde a Andela tem vários campi operacionais, Jeremy Johnson referiu que ainda existe uma visão errada sobre um continente “que está a ver progressos”. 

“Estamos a ver o mundo a acordar e perceber que devemos encarar África muito a sério e que África merece um lugar à mesa”, refere, acrescentando que muitos países em África “encararam a pandemia muito bem”. “Acho que vamos ver engenheiros africanos a trabalharem com grandes empresas sem terem de sair da sua casa e a pandemia proporcionou isso”, refere ainda.

Comida: “Acham que podem queimar a Amazónia e substituir tudo com vacas? É absurdo”

Patrick Brown, CEO da Impossible Foods, que desenvolve soluções alimentares à base de plantas, explicou que o objetivo da empresa é que os produtos da marca conquistem até mesmo quem não se importa com a sustentabilidade. Nesse caso, devem escolhê-los porque “é bom, nutritivo, saboroso e a um preço razoável”: “Se dependêssemos de quem se importa com sustentabilidade, podíamos desistir agora”.

Os primeiros lugares onde a Impossible Foods entrou no mercado foram os restaurantes. Porquê? O produto já tinha conquistado os chefs de cozinha: “Não há outro produto à base de plantas que se comporte como carne quando se cozinha”.

Patrick Brown descreveu a carne animal como “um sistema químico vivo que, quando se cozinha, muda o perfil de aroma e sabor”. Nenhum produto à base de plantas se comportava assim antes da invenção dos hambúrgueres da Impossible Foods, garantiu.

O diretor executivo da empresa considerou que existem duas grandes ameaças no mundo: “as alterações climáticas e o colapso da diversidade biológica”. “De longe, o maior fator em ambos é o uso de animais para consumo”, acrescenta, sublinhando a necessidade de “nos livrarmos da tecnologia” que permite esse consumo.

“O problema não é que as pessoas adorem carne, o problema é que estamos a usar a tecnologia errada”, defende. Patrick Brown diz que a solução “é produzir comida mais deliciosa, de origem vegetal, esquecer a regulação e deixar os consumidores escolherem o vencedor”.

Brown falou ainda sobre a criação de ruminantes, que considera exagerada neste momento. “Sim, precisamos de ruminantes, mas não podemos cobrir o planeta com vacas. Acham que podem queimar a Amazónia e substituir tudo com vacas? É absurdo”, destaca.

Patrick Brown é o CEO da Impossible Foods, a empresa que desenvolve hambúrgueres à base de plantas que sabem como carne.

Noutra conferência, Matias Muchnick, fundador e presidente da NotCo, explicou que atualmente, quando pensamos na indústria alimentar, percebemos que “o sistema está em quebra, está a magoar o ser humano, o planeta, para criar o sistema alimentar de hoje e isso é insustentável”.

A equipa de Matias Muchnick decidiu, então, aprofundar o conhecimento da composição de cada produto e analisar a “interação química entre eles”. Resultado? Criou um algoritmo chamado GIUSEPPE que permite “encontrar as combinações de alimentos baseados em plantas que criam a mesma experiência sensorial, sabor e textura de outras comidas”. O negócio está a desenvolver-se nos Estados Unidos, Chile, Brasil e Argentina e conta com investidores como Jeff Bezos, presidente da Amazon.

Política: Se os EUA falharem, “todos falham”

A política, sobretudo as eleições norte-americanas, voltou a ser um dos tópicos mais falados neste último dia de Web Summit. Andrew Ross Sorkin, colonista do The New York Times, tentou responder no palco principal à pergunta “de dois milhões de dólares” (palavras de Filomena Cautela): Os Estados Unidos são demasiado grandes para falhar? A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo. “Esta frase significa que é algo tão grande que não podem deixar falhar, em qualquer circunstância. Não é que não possa falhar, mas que não vão deixar falhar”. É por esta ideia que muitas vezes “as pessoas sabem que é demasiado grande e vão tomar decisões arriscadas”.

Andrew Ross Sorkin exemplifica, de seguida, o que pretende dizer: “O que aconteceria se toda a gente no mundo decidisse que não iria comprar mais dívida norte-americana? Provavelmente iríamos falhar. Mas depois o que é que acontece a toda a gente, ao resto do mundo? É esta visão de que se falharmos, todos falham”. A grande preocupação, acrescenta, é se, a longo prazo, uma nação como a China se torna maior do que os Estados Unidos em vários aspetos e contribui para a desvalorização o dólar. “O poder pode mudar e aí não seríamos demasiado grandes para falhar”.

Já Alex Stamos, diretor do Stanford Internet Observatory e antigo diretor de segurança de informação do Facebook, falou sobre a segurança das eleições deste ano. A desinformação, refere, continuou a existir, mas de uma forma diferente. “A desinformação tradicional das eleições costuma ser relativa a formas de mentir sobre os mecanismos de votos ou tentar o desincentivo ao voto”. Este ano, revela, houve um fenómeno diferente:  “Sabíamos que havia pessoas que iriam questionar o resultado das eleições”.

Alex Stamos, diretor do Stanford Internet Observatory e antigo diretor de segurança de informação do Facebook, falou sobre a segurança das eleições deste ano

Também Cornel West, académico e ativista, entrou nos ecrãs dos milhares de participantes da Web Summit para dar a sua visão sobre a política norte-americana. Surgiu bem disposto — “o céu está azul” e Joe Bidem está cada vez mais perto –, mas a deixar um alerta: “Temos de nos continuar a fazer ouvir, não podemos adormecer, não podemos ficar apenas satisfeitos com a libertação face a Donald Trump”.

Cornel West é apologista de um esforço para promover diálogo entre democratas e republicanos, mas “às vezes isso é uma possibilidade maior”: “Não é espantoso que haja alguma forma de fascismo em algumas pessoas”. Tricia Rose, professora de estudos africanos na Universidade de Brown, acrescenta que “as pessoas que apoiam Trump parecem de um culto”: “Podem ter encontrado uma infraestrutura social e emocional dos americanos e insistir nesse botão para obrigá-los a investir nisso”, conjeturou.

Também Chris Evan, ator que é conhecido pelo papel que interpretou como o super-herói “Capitão América”, veio à Web Summit falar sobre política, mais concretamente para apresentar o projeto “Starting Point”, uma app baseada em vídeo que ajuda os eleitores a entender melhor os problemas do dia. Chris Evans acabou por confessar: “Estamos cansados da forma como a política está, por isso é que as pessoas lhe viram costas“. “Se temos um site que dá informação justa, equilibrada, livre de preconceitos, isso pode fazer com que as pessoas se interessem mais”, destaca. De seguida, a questão que todos gostavam de saber: Chris Evans alguma vez poderá vir a candidatar-se à presidência dos Estados Unidos? “Espero que não chegue ao ponto de precisar de me candidatar”, responde.

Chris Evans, Mark Kassen e Joe Kiani são confundores da A Starting Point

Ambiente e alterações climáticas: a pandemia é resultado do “desrespeito completo”

Jane Goodall, a maior especialista em primatas do mundo, sublinhou que a pandemia de Covid-19, causada por um vírus provavelmente transmitido de um animal para os humanos, é um resultado do “desrespeito completo, a natureza, ao matar animais e comercializá-los, ao obrigarem os animais a conviver com humanos”.

A Fundação Jane Goodall e a Ecosia estão a trabalhar juntas no restauro de reservas africanas e em corredores que as unem, como os rios que foram destruídos pelas alterações climáticas. Jane Goodall acredita que soluções como estas podem permitir trocas genéticas entre chimpanzés, que estão em vias de extinção por perda de habitat.

A primatologista notou que “uma coisa que temos de fazer é proteger as florestas que existem”, não apenas plantá-las”: “Se não tivermos uma melhor relação com a natureza, se a economia não for verde… olhem para aquilo que já fizemos ao planeta”. Jane Goodall defendeu que “as companhias privadas têm esta noção absurda de ter lucros sem fim num planeta com recursos finitos”: “Espero que esta pandemia seja um abanão, porque precisamos de ter uma relação diferente com o mundo natural”.

Ainda assim, não vale tudo. Pieter van Midwoud, da Ecosia, parceira da Fundação Jane Goodall, revelou que chegou a recusar determinados investimentos ou parceria porque as empresas em questão não estavam realmente interessadas no restauro das florestas — apenas queriam estar associadas a uma organização ambientalista para aumentar a sua popularidade.

Jane Goodall é a maior referência no estudo de primatas do mundo. Está a trabalhar com a Ecosia, de Pieter van Midwoud, no restauro das florestas e reservas.

Numa outra conferência, que contou com a participação de Malala Yousafzai, ativista e Nobel da Paz, Lisa Jackson, vice-presidente do Meio Ambiente, Política e Iniciativas Sociais da Apple, afirmou que a missão da Apple é ser neutra em carbono no que toca à cadeia de fornecimento daqui a dez anos. “A ideia é sermos baseados em energias limpas. E queremos que os nossos clientes estejam a carregar os seus dispositivos com energias limpas também”, descreveu.

Para cumprir esse objetivo, a Apple está a trabalhar com organizações mas também com governos, sobretudo nos países onde ainda não houve tanto investimento nesse sentido. “Não podemos separar a justiça das alterações climáticas”, descreveu. 

Já Malala falou sobre a relação entre as alterações climáticas e o empoderamento das mulheres. Sim, estão ligadas. “Mesmo em casos simples. O impacto das alterações climáticas faz aumentar as cheias e quando isso acontece as crianças podem perder as suas casas”, explica. Outro exemplo: “Quando há seca, muitas pessoas têm de andar quilómetros para encontrar água. As alterações climáticas atingem as raparigas mais novas e a sua educação diretamente”.

Por outro lado, explica Malala, “quando educamos e damos poder às mulheres, ajudamos a combater as alterações climáticas, porque são mais independentes a nível económico, são mais resilientes”. “As alterações climáticas podem ter impacto na educação, mas ao mesmo tempo a educação ajuda-nos a resolver as alterações climáticas”, destaca.

Lisa Jackson, vice-presidente do Meio Ambiente, Política e Iniciativas Sociais da Apple; e Malala Yousafzai, ativista e Nobel da Paz.

Denunciantes: “O que Snowden fez prejudicou a proteção dos denunciantes”

No ano passado, os whistleblowers (em português, “denunciantes”) marcaram a Web Summit, quando Edward Snowden abriu o evento com uma entrevista em vídeo. Este ano, o tema também esteve em cima da mesa, com Andrew Bakaj, da Compass Rose Legal Group, e Mark Zaid, cofundador da Whistleblower Aid. E houve uma opinião partilhada por ambos: “Independente do que acreditam com o Snowden, o que ele fez prejudicou a proteção dos denunciantes que seguiram a lei”. Como? “Legalmente, ele não é um denunciante, porque revelou informação sem autorização”, explica Mark Zaid, dizendo, no entanto, que entende o sentimento do público em considerá-lo um denunciante.

Andrew Bakaj acrescenta que o termo ‘whistleblower’ tem uma definição legal” e que “por causa do que o Snowden fez, o termo muitas vezes é confundido”. Já sobre a proteção dos denunciantes, Bakaj considera que não tem sido suficiente. “Acho que podem ser feitas grandes melhorias para proteger os denunciantes de terem a sua identidade exposta”, acrescenta, sublinhando que o âmbito em que as proteções existem “não é tão abrangente como se gostaria que fosse”.

Andrew Bakaj, da Compass Rose Legal Group, e Mark Zaid, cofundador da Whistleblower Aid, falaram sobre o papel dos denunciantes

Mark Zaid, cofundador da Whistleblower Aid, deixou também um conselho para futuros denunciantes: “Não se tornem um, porque é uma situação horrível. Mas nós precisamos deles”. A chave, acrescenta, é que os whistleblowers acreditem na informação que têm. “Não se tornem no vosso pior inimigo, não deem um tiro no próprio pé”. Os whistleblowers “não podem ficar consumidos e começar a confundir o que está a acontecer com eles e o que estão a tentar denunciar”. “As vezes é difícil separarem-se daquilo que estão a tentar denunciar”, alerta.

O mercado único europeu ainda não é o que ambicionava ser

Margrethe Vestager, comissária europeia para a concorrência, considerou que a União Europeia não é o “mercado único” que ambicionava ser — e que, à conta disso, não conseguiu ainda ser o berço de grandes empresas tecnológicas como as que existem nos Estados Unidos ou na China.

Questionada precisamente sobre o motivo de essas gigantes tecnológicas nunca terem encontrado palco na União Europeia, a comissária respondeu sem rodeios: “Falhámos em ter um mercado único”. A razão, prosseguiu, está nas barreiras linguísticas e na fragmentação económica da União Europeia, que reprime o crescimento dessas empresas.

Numa crítica ao trabalho da comissão que a própria lidera, Margrethe Vestager considerou que os reguladores dos mercados “não são suficientemente rápidos” a detetar, castigar e corrigir problemas. O caso contra a Amazon, por exemplo, demorou dois anos para chegar meramente a resultados preliminares e, pelo caminho, abriu espaço a novas investigações. Margrethe Vestager explica que a demora tem a ver com os “milhões e milhões e milhões” de dados que a comissão precisou de investigar, mas que o sistema precisa de ser otimizado.

Margrethe Vestager, comissária europeia para a concorrência

Numa conferência de imprensa que tinha dado ainda antes do arranque da Web Summit no palco principal, a comissária para a concorrência explicou os preceitos descritos na Lei dos Mercados Digitais: “Percebemos que quem se torna muito poderoso começa a fazer as suas próprias regras. Aqui descrevemos as obrigações e deveres dessas empresas. Isto é que pode e não pode fazer caso seja muito poderoso num mercado”.

Margrethe Vestager considerou a Lei dos Serviços Digitais — um conjunto de regras descrito paralelamente à Lei dos Mercados Digitais — “essencial”, “necessária há muito tempo”. Na quarta-feira, a comissária contactou a administração de Joe Biden para iniciar uma parceria na atuação relacionada com a pandemia, alterações climáticas e também com mudanças digitais.

Questionada sobre como pode essa parceria ser ou não minada se as empresas visadas forem americanas, Margrethe Vestager garantiu que “toda a gente é bem-vinda a fazer negócios na Europa”: “Isto não é sobre de onde vens, tem a ver com o que fazes, com o papel que tens no mercado. E os critérios são considerados essenciais”, concluiu, colocando de parte algum tipo de atrito.

Startup vencedora desenvolveu um produto paa gestão hospitalar em África

A empresa vencedora do concurso de startups da Web Summit foi a Lalibela Global-Networks, uma companhia etíope que desenvolveu um produto para gestão hospitalar em África. O sistema, batizado de ABAY-CHR, digitaliza os processos de gestão hospitalar para ajudar a economizar centenas de milhares de dólares em papel por ano para hospitais africanos. O objetivo é conseguir um atendimento mais eficiente dos pacientes em África.

Wuleta Lemma, fundadora da Lalibela Global-Networks

Wuleta Lemma, fundadora da empresa, estava visivelmente comovida quando recebeu o prémio: “Wow, wow, wow”, repetiu ela em lágrimas. “Foram vocês que nos abriram os olhos, não estaríamos aqui se não fossem vocês”. E prosseguiu: “Estou determinada a garantir que mesmo os pobres em África podem obter os serviços que a maioria de nós pode utilizar nos países ocidentais e orientais”.

“Este prémio não é para mim, é para todas as mães e crianças em África a quem as nossas soluções já conseguiram ajudar”, apontou Wuleta Lemma: “Durante esta pandemia de Covid-19, ganhar algo como isto é incrível”.