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Tornou-se uma moda dizer que algo não tem precedentes. Sempre que acontece alguma coisa extraordinária, um acontecimento ímpar, um momento memorável, dizemos sem grandes papas na língua que não existem precedentes. Mas a verdade é que muitas das coisas extraordinárias, muitos dos acontecimentos ímpares e muitos dos momentos memoráveis têm, de facto, precedentes. Podem não ter muitos, podem ter poucos. Mas até têm. Esta lógica, porém, não se adequa no que está a acontecer atualmente no seio do râguebi internacional. O que está a acontecer não tem, verdadeiramente, qualquer precedente.

Oito antigos jogadores internacionais de râguebi, todos com menos de 45 anos, estão a preparar uma ação legal contra a World Rugby, o organismo que regula a modalidade no mundo inteiro, contra a Federação inglesa de râguebi e ainda contra a Federação galesa de râguebi. O motivo? O falhanço, entendem os ex-atletas, na obrigação de proteger os jogadores dos elevados riscos e consequências associados às pancadas na cabeça durante os treinos e os jogos.

O último Campeonato do Mundo de râguebi decorreu no ano passado, no Japão, e foi conquistado pela África do Sul

Todos estes jogadores receberam o mesmo diagnóstico: demência com provável encefalopatia crónica traumática (ECT), um problema cuja única causa conhecida são repetidas pancadas na cabeça. Mas Richard Boardman, o advogado que representa os atletas envolvidos, explicou ao The Guardian que o assunto é bem mais complexo e que tem conhecimento de cerca de 100 outros jogadores que são “bombas-relógio”, ou seja, que estão já a detetar alguns sintomas à medidas que se aproximam dos 40 anos. Três já foram mesmo diagnosticados com demência e ECT, assim como os oito originais, mas ainda não se juntaram oficialmente ao processo.

Um dos jogadores envolvidos, Steve Thompson, foi campeão do mundo com a seleção inglesa em 2003 e é um dos nomes mais proeminentes da própria geração. Numa entrevista arrepiante, também ao The Guardian, o inglês de 42 anos explica o quão doloroso tem sido viver com o problema que lhe foi diagnosticado e confessa ainda que só queria ser “normal”. “Acabei sem memórias nenhumas, no fim de tudo. Não consigo lembrar-me. Não tenho memórias. Não tenho quaisquer sentimentos. Vejo o momento em que levantamos o troféu do Campeonato do Mundo e vejo-me lá a saltar. Mas não me lembro de nada disso”, revela Thompson, que conta também que sofre com ataques de pânico, mudanças repentinas de humor e os esquecimentos repentinos dos caminhos, dos livros que leu, dos filmes que viu. Ou até do nome da mulher.

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Bobby Charlton e a doença dos campeões do mundo

“Às vezes olho para a Steph. E ela diz que eu fico completamente em branco. E diz: ‘Sou a Steph’. O nome desaparece. Desaparece”, confessa o antigo jogador, que também passou a sofrer de ansiedade e tem momentos em que não consegue controlar a agressividade, que categoriza como “experiências fora do corpo” que “acontecem muito mais vezes” com o passar do tempo. Steve Thompson começou a jogar râguebi aos 15 anos, garante que se pudesse voltar atrás não teria começado e não quer que os filhos pratiquem a modalidade “tal como ela é agora”. E recorda a exigência e a violência dos treinos e dos jogos: treinos e jogos que teve consecutivamente e quase diariamente durante 20 anos.

“Antigamente, até achávamos graça. Se alguém era atingido na cabeça dizíamos: ‘Oh, olha para ele, vai levantar-se num minuto’. A quantidade de pancadas na cabeça que eu tinha nos treinos. Era conhecido por isso. ‘Oh, está só a tirar uma sesta, vai levantar-se num minuto'”, explica, recordando depois os exercícios para treinar os scrums, ou formações ordenadas, os momentos em que os elementos das duas equipas avançam encaixados uns contra os outros. “Há tanta pressão. Ninguém se mexe e estás ali a fazer força, aquele peso tudo a vir contra ti. E de repente, enquanto a pressão alivia, começas a ver a luz, os pequenos pontos brancos, e esqueces-te de onde estás por uns segundos”, lembra Thompson.

Em Inglaterra, na Escócia e na Irlanda do Norte, já ninguém cabeceia a bola até aos 11 anos (e nos Estados Unidos é já desde 2015)

Os oito jogadores que estão incluídos no processo fazem todos parte da primeira geração que jogou toda a carreira enquanto profissional, depois de o râguebi se ter tornado um desporto profissional a meio dos anos 90. O objetivo dos antigos atletas, para além das recompensas pelas consequências que estão a sofrer, pelo impacto nas perspetivas de emprego e pelos custos dos cuidados de saúde que terão de ter nos próximos anos, é implementar uma série de recomendações para mudar a forma como o râguebi é praticado atualmente. Os “15 mandamentos”, como lhes chamam, incluem a limitação de contacto nos treinos, a redução das substituições táticas e várias medidas para melhor a deteção e o tratamento de lesões cerebrais.

Em resposta às críticas, a World Rugby emitiu um curto comunicado. “Sem comentar a especulação, a World Rugby leva muito a sério a segurança dos jogadores e implementa estratégias de prevenção de lesões, gestão e educação com base no conhecimento, na pesquisa e nas provas mais recentes”, podia ler-se na nota divulgada, à qual se juntou a Federação do País de Gales. A de Inglaterra, até agora, ainda não comentou o caso.

English hooker Steve Thompson celebrates

Steve Thompson foi campeão do mundo com a seleção inglesa em 2003, há 17 anos: mas não se lembra de praticamente nada

O impacto das lesões cerebrais no desporto tem sido um dos temas em cima da mesa no último ano. Não só no râguebi como no futebol americano, nos Estados Unidos, mas também no futebol. Os múltiplos diagnósticos de demência em jogadores que atuaram nos anos 50 e 60, com pesadas bolas de pele, têm motivado a preocupação com os jovens atletas que começam a cabecear nos treinos desde muito novos. O caso mais recente de Bobby Charlton, antigo jogador do Manchester United e da seleção inglesa, deixou o mundo inteiro mais alerta para um problema que parece ser transversal a várias modalidades. E Steve Thompson garante que é preciso fazer alguma coisa para inverter a situação — como realizar exames à cabeça de todos os jogadores no início de todas as temporadas.

“Eu não quero matar o jogo. Quero regulá-lo. Todos os anos, se tivermos um carro, precisamos de ir à inspeção. Com o corpo é exatamente a mesma coisa. Se não está a trabalhar, não devíamos estar a fazer o nosso trabalho. É terrível, porque alguns rapazes terão de acabar a carreira aos 22 ou aos 23 anos. Mas confiem em mim: é melhor acabar aí do que chegar onde eu estou agora”, afirma.