Denzel Washington tem uma grande ambição. Filmar as dez peças de teatro que formam o Century Cicle, da autoria do dramaturgo August Wilson (1945-2005). Cada uma delas passa-se numa década diferente do século XX e lida com a segregação e os problemas dos negros na sociedade americana, mas também com os conflitos entre eles, no interior da família, nas suas comunidades e até de gerações. A primeira dessas adaptações foi “Vedações” (2016), ambientada nos anos 50, que Washington produziu, realizou e interpretou. A segunda é “Ma Rainey: A Mãe do Blues”, de George C. Wolfe, estreada na Netflix, com Chadwick Boseman no derradeiro papel antes da sua morte prematura, de cancro, aos 43 anos, e Denzel Washington agora apenas a produzir.

[Veja o “trailer” de “Ma Rainey: A Mãe do Blues”:]

Estamos na década de 20, em Chicago, no estúdio de gravação de uma editora discográfica. A temível Ma Rainey (Viola Davis), aliás Gertrude Pritchett, figura real e pioneira cantora de “blues”, prepara-se para gravar um disco. Acompanham-na o sobrinho, Sylvester, a sua jovem amante, Dussie Mae, e o seu quarteto. Deste faz parte o ambicioso, arrogante e espalha-brasas Levee (Boseman), um trompetista e compositor traumatizado por um episódio de violência racista que viveu na infância. Levee quer singrar por conta própria e é o único que faz frente a Ma Rainey, atrevendo-se mesmo a seduzir Dussie Mae, para mostrar que não tem medo da patroa.

[Veja uma entrevista com Viola Davis e outros membros do elenco:]

É Verão, está muito calor, o ambiente no estúdio é sufocante e a tensão não pára de aumentar. Entre Ma Rainey e o seu deferente agente e o impaciente produtor, ambos brancos; entre Levee e os outros membros do quarteto; e entre este e Ma Rainey. As intenções de August Wilson na peça são transparentes. Denunciar os preconceitos e as injustiças a que estavam então sujeitos os artistas negros nos EUA – no caso, os músicos -, mas também explorar as tensões e os choques entre estes (Levee acha que o estilo de música representado por Ma Rainey está ultrapassado e o público, branco e negro, quer algo de novo, mais agitado e alegre, e que ele é a pessoa certa para lho dar, mas vê-se contrariado por aquela, pelos colegas e por quem manda na indústria musical).

[Veja uma entrevista com Denzel Washington:]

Viola Davis, quase irreconhecível por causa da pesada maquilhagem para a fazer parecer com a verdadeira Ma Rainey, e Chadwick Boseman, monopolizam “Ma Rainey: A Mãe do Blues”, tal como as suas personagens disputam ferozmente o espaço e as oportunidades para exibirem o seu talento e exercerem ou reivindicarem a sua quota de poder. Ela intimidadora numa altiva, vivida e despótica Ma Rainey, que sofre com o calor e os sapatos muito apertados, ele intensíssimo num descomedido, ansioso e inseguro Levee, infantilmente orgulhoso dos seus novos sapatos amarelos, e envolvidos num duelo de vontades e feitios que só pode acabar com a vitória de um deles. E por esmagamento.

[Veja um documentário sobre a verdadeira Ma Rainey:]

São ambos muito bons, bem melhores do que o filme, que se acomoda às limitações próprias das adaptações teatrais ao cinema (cenário único e visualidade tolhida, apesar do prólogo e de um par de cenas de exteriores), e do que a própria peça de August Wilson, demonstrativa nas situações e nos discurso, óbvia na mecânica dramatúrgica e com um clímax demasiado forçado, envolvendo Levee e um dos músicos. É caso para dizer que Davis e Boseman carregam o piano e salvam o espectáculo, acompanhados pela banda sonora subtilmente fatalista do grande Branford Marsalis.

“Ma Rainey: A Mãe do Blues” já está disponível na Netflix