Uma equipa internacional de cientistas conseguiu recuperar ADN encontrado em dentes de mamutes que viveram há mais de um milhão de anos. Este é o ADN mais antigo do mundo a ser sequenciado.

Os resultados publicados na quarta-feira na revista Nature tiveram por base amostras de material genético pertencentes a dois exemplares de diferentes subespécies, permitindo aos investigadores entender como é que estes mamíferos se adaptaram às condições climatéricas extremas do Pleistoceno (há entre 2,6 milhões e 11.700 anos) e como evoluíram ao longo do tempo até à sua extinção.

De acordo com o artigo científico, os dentes encontrados na Sibéria sugerem que os dois exemplares — denominados Krestovka e Adycha, em referência às regiões onde foram encontradas as amostras,— remontam há cerca de 1,65 e 1,34 milhões de anos, respetivamente.

A análise do material genético mostrou também que o espécime mais antigo pertencia a uma linhagem até agora desconhecida e que deverá ter sido a primeira a aparecer na América do Norte.

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“Isto surpreendeu-nos completamente. Todos os estudos anteriores indicavam que naquela época havia apenas uma subespécie de mamute na Sibéria, o chamado mamute da estepe. Mas as análises de ADN mostram que havia duas linhagens genéticas e achamos que elas podem representar subespécies diferentes”, escreveu um dos autores do estudo, Tom van der Valk, que é investigador no Centro de Paleogenética de Estocolmo.

Segundo os investigadores, o mamute Krestovka supostamente pertence a uma linhagem antecessora do mamute colombiano, que viveu durante a última era glacial nos Estados Unidos e no sul do Canadá e que seria na verdade um híbrido entre o mamute lanudo e essa nova linhagem.

Já o mamute Adycha provém da linha genética que deu origem ao mamute lanudo, que mais tarde se espalharia pelo Alasca e Canadá.

O estudo também forneceu novas pistas sobre a evolução dos mamutes, sobretudo no que se refere à adaptação ao frio. Agora sabe-se que a maioria das adaptações ocorreram lenta e gradualmente ao longo do tempo, e não de forma repentina.

“Cerca de 85% das adaptações identificadas no mamute lanudo já estavam presentes no mamute Adycha, há mais de um milhão de anos, incluindo aquelas relacionadas com o crescimento da pelagem, a regulação térmica e os depósitos de gordura”, descreveu David Díez del Molino, co-autor do artigo, concluindo que aquela linhagem também já estava adaptada ao clima frio.

O desafio maior foi extrair o ADN, contam ainda os investigadores, uma vez que as informações genéticas existiam em pequena quantidade por se terem decomposto em fragmentos, dada a idade das amostras.

Além da degradação das amostras, os cientistas tiveram outra dificuldade: a contaminação por bactérias, fungos e outros organismos. “É muito fácil contaminar [as amostras] com ADN humano, durante o trabalho de campo ou no laboratório”, explicaram.

Agora a equipa espera que este estudo seja um ponto de partida para futuras investigações sobre outras espécies e que permita recuar mais no tempo. Esta foi a primeira vez que se sequenciou ADN de exemplares com cerca de um milhão de anos. Até aqui o material genético mais antigo alguma vez sequenciado era de um fóssil de um cavalo que viveu há entre 560 mil e 780 mil anos no Yukon (Canadá).