Para a Casa do Impacto, o hub de empreendedorismo e inovação social e ambiental da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no mundo e no tempo em que vivemos, uma coisa é certa: nem os estratos mais favorecidos da sociedade encontrarão verdadeiro bem estar social enquanto as oportunidades continuarem limitadas a homens, jovens, sem deficiências, brancos, de classes sociais média e média alta.

Há uma ou duas décadas, afirmações como esta podiam soar a demagogia ou lirismo. Hoje, no entanto, a urgência deste aspeto na vida de países, setores económicos e camadas sociais está mais do que comprovada. E não falamos apenas de carências económicas. Fazer com que as oportunidades cheguem a todos os tipos de pessoas e que todos os tipos de pessoas alcancem os lugares onde a inovação acontece, traz vantagens sem limite. Que se repercutem no desenvolvimento de empresas, organizações, sociedades, países e, em última instância ao mundo em que vivemos e que queremos, para nós próprios e para as gerações futuras.

2021, Ano da Diversidade e Inclusão

Um dos temas da atualidade é, em todos os setores de quase todo o mundo, a pandemia e os seus efeitos na sociedade, sobretudo no que compreende o emprego, a violência doméstica, a migração e outros fatores que intensificam as pessoas mais frágeis. Assim, e sempre alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, a Casa do Impacto resolveu fazer de 2021 o seu Ano para a Diversidade e Inclusão. É também uma maneira de fazer, a todos os seus parceiros, uma call to action para a implementação de medidas práticas nesse sentido. Até porque a inclusão tem impacto nos resultados das empresas.

Promover a igualdade é bom para os negócios

A explicação é simples e encontra-se nas conclusões de documentos tão relevantes como um relatório da consultora McKinsey de 2015, que fez uma descoberta capaz de afastar preconceitos e procrastinações no que toca à promoção da igualdade nas empresas: entre 366 empresas públicas, aquelas que estavam num patamar superior de diversidade étnica e racial na gestão tinham 35% mais probabilidade de ter retornos financeiros acima da média do setor. Por outro lado, as que estavam no patamar superior para a diversidade de género tinham 15% mais probabilidade de ter retornos acima da média da indústria.

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Outro destes documentos é a análise global de 2400 empresas, conduzida pelo Credit Suisse. Este estudo trouxe à luz mais uma conclusão fundamental: organizações com, pelo menos, uma mulher na direção geraram maior retorno e maior crescimento. E, como se isto não bastasse, existe todo um conjunto de pesquisas realizadas nos últimos anos a revelar ainda mais benefícios da diversidade no local de trabalho. Podemos, sem sombra de dúvida, afirmar que as equipas heterogéneas são, simplesmente, melhores porque trabalhar com pessoas diferentes de nós próprios desafia-nos a superar as nossas formas de pensar e a aprimorar o nosso desempenho. E sem superação não há transformação. A própria Natureza mostra-nos isso quando a água desenha cursos por entre a pedra, os ramos das árvores brotam depois de podados e os animais percorrem enormes distâncias por terra e ar para procriarem no mesmo local, geração após geração.

Tudo isto é uma verdade diante dos nossos olhos e faz com que a inclusão seja urgente. No entanto, ainda se verifica uma fragilidade considerável a este nível. São necessários projetos, medidas e iniciativas cujo impacto faça evoluir a sociedade, misturando as pessoas em mútua aceitação. É aí que entram a Casa do Impacto e o ecossistema de impacto que já existe neste hub de empreendedorismo social e ambiental. E nem podia deixar de ser assim, numa comunidade para quem a inclusão é parte da normalidade de todo o sistema.

Passar à prática

Na Casa do Impacto, a diversidade é um tesouro e a inclusão tem de se tornar numa prioridade. Ao agregar empreendedores, a Casa já gerou a chamada comunidade de impacto, que partilha, discute, promove a adoção de medidas e aposta no desenvolvimento de projetos com impacto prático e eficaz. É preciso passar à prática.

Há muito a fazer pela inclusão social? A Casa do Impacto começou por chamar desafio a este problema para, depois, promover projetos e viabilizar iniciativas que fazem da inclusão uma prioridade. E, adicionalmente, colocam no mindset geral a noção de que uma sociedade sem inclusão prejudica tudo e todos.

Em pleno ano da Diversidade e Inclusão na Casa do Impacto, está em curso a 6.ª edição do Santa Casa Challenge, um forte instrumento financiador promovido anualmente pela própria Casa do Impacto. Desta vez, o concurso vocaciona-se para o ODS 3 – Saúde de Qualidade, uma área hoje fortemente agravada pela pandemia. O prémio visa encontrar soluções da indústria HealthTech que façam a diferença nesta área e lança o desafio “Como podemos promover uma saúde de qualidade, com especial atenção aos problemas da saúde mental e às necessidades das pessoas em situação de vulnerabilidade?”. Até 05 de abril a Casa vai receber candidaturas de empreendedores, entidades sem fins lucrativos e startups. Os 10 finalistas vão apresentar os seus projetos em sessão pública, dia 22 de abril no Facebook da Casa do Impacto onde serão revelados os três vencedores.

Inspirando cada parceiro e a Comunidade a porem em prática as suas próprias medidas inclusivas, em fevereiro e março deste ano a Casa do Impacto realizou o evento digital “Inclusão Social: da Teoria à Prática”. Foram duas sessões de trabalho em que o tema foi exposto, proposto e trabalhado sob uma dinâmica interventiva. A preparar este evento, houve um contacto prévio e individual com todos os parceiros para enquadrar a iniciativa e antecipar a preparação de matérias. O objetivo — tirar o melhor rendimento da iniciativa – foi amplamente atingido e contou com mais de uma centena de participantes. Posteriormente, vários membros e parceiros fundadores da Casa do Impacto foram convidados a partilhar as suas ideias e as medidas a implementar internamente nas suas organizações, o que, no mínimo, funciona como exemplo a seguir por outras entidades e empresas.

Foi a própria Casa do Impacto que deu o primeiro passo ao reforçar as suas políticas de igualdade e não discriminação, através da alteração dos instrumentos jurídicos que enquadram os seus programas e iniciativas, incluindo duas novas cláusulas que promovem critérios de elegibilidade inclusivos e que funcionam como fator de ponderação das candidaturas admitidas em cada concurso, programa de incubação, aceleração ou investimento.

Destacamos ainda alguns projetos que falam por si e convidamos os leitores a visitarem os respectivos sites.

SPEAK:

É um programa linguístico e cultural cujo objetivo é eliminar a barreira da língua para as populações migrantes. A grande diferenciação é o facto de qualquer pessoa se poder inscrever, tanto para aprender como para ensinar uma língua ou uma cultura. Tudo se passa online, num site intuitivo e de fácil navegabilidade e o efeito final desta interação é a aproximação entre as pessoas. Na prática, esta iniciativa já formou grupos de pessoas em vários países, que se encontram online ou presencialmente, e num intercâmbio de competências, potenciam as qualidades umas das outras.

Pode conhecer e participar aqui: https://www.speak.social/pt/ .

Alinhado com a missão da Casa do Impacto, o SPEAK lançou, ainda, um portal que reúne conteúdos de especialistas e empresas com boas práticas de inclusão: diversityinclusionjourney.com

RESHAPE by APAC:

Promovida pela APAC Portugal, associação dedicada a projetos de apoio à população prisional, a Reshape é uma marca de cerâmica que defende um princípio muito claro: “Toda a gente merece uma segunda oportunidade. Uma oportunidade de redenção. Uma oportunidade de trabalho. Uma oportunidade de fazer parte da sociedade como qualquer outro cidadão.”

As peças Reshape estão à venda online e são feitas por reclusos e ex-reclusos. A marca procura não só oferecer-lhes uma via profissional, como a dignidade de um trabalho. Hoje focada na cerâmica, tem planos para mais ofícios que possam ajudar a comunidade prisional no seu processo de reinserção na sociedade.

Para conhecer melhor a Reshape vá a https://www.reshapeceramics.com/

ASHOKA:

Esta Fundação sem fins lucrativos, independente e apolítica, visa promover mudanças sistémicas por parte da sociedade civil de forma integrada e colaborativa. O fim último é a resolução de problemas sociais e ambientais complexos e, no seu site, contam-se as histórias que já aconteceram, mostrando o seu impacto na mudança e na inclusão social.

As várias iniciativas disseminam a inovação e a criação de soluções nos mais diversos setores, a ponto de cumprirem o sonho de criar aquilo a que os seus fundadores chamaram EACH – Everyone A Changemaker. Promovem, assim, uma sociedade civil consciente, empoderada e ativa na procura dinâmica e colaborativa do bem comum.

Saiba mais em https://www.ashoka.org/pt-pt/country/portugal

Soluções urgentes para mudar o mundo

A Casa do Impacto sabe que não pode ter todas as respostas mas sem dúvida que, neste momento, na Comunidade do Impacto, estão a ser dados passos importantes no sentido de promover, na prática, a inclusão social.

Justamente por saber que há muito trabalho pela frente, a Casa do Impacto prepara caminhos para que cada vez mais startups e projetos possam nascer e desenvolver-se sustentadamente. Para reforçar a qualidade da sua intervenção e aumentar a sua capacidade, a Casa será integrada num novo polo de inovação social em Lisboa, neste momento em construção. Ali, tudo o que se tem aprendido continuará a ser base para uma transformação duradoura e com muito impacto, tanto em termos de inclusão e diversidade como nos demais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas.