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Em março de  2020, Diogo Carreiras estava, como tantos outros portugueses, confinado. E inquieto. “Não estava a fazer cocktails e eu gosto muito de fazer cocktails, precisava de fazer cocktails”, recorda. O feitio deste barman alentejano de 32 anos contraria o estereótipo asso- ciado à região. “Não tenho lá muita calma”, confessa.

A falta de calma fê-lo agir. Recuperou, então, uma ideia antiga: enfrascar cocktails e distribuí-los em kits, prontos a finalizar e beber. “No início fiz isto mais como experiência, para mim e para os amigos. Achei que os meus amigos iam consumir muito disto.” Na verdade, os amigos não consumiram assim tanto, reconhece a sorrir, mas isso não o desmoralizou.

Nem podia – afinal, estava desempregado e a fazer pela vida. Depois de três anos no Hotel do Chiado, despedira-se no final de 2019 para se juntar a um novo projeto. Péssimo timing: os sucessivos atrasos nas obras desse projeto, primeiro, e os meses passados em confinamento, depois, fizeram com que fosse dispensado antes de sequer começar.

“Este projeto nasce financiado pelo subsídio de desemprego”, conta. O que recebia mensalmente, cerca de 500€, investia em bebidas e material. Criou então a marca Enfrascados, com ajuda da namorada Joana, a que se refere, meio a brincar meio a sério, como a diretora de marketing.

© Tiago Maya

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A sua experiência nesta matéria não era vasta.Mas também não era nula. “Quando trabalhava no hotel, cheguei a engarrafar cocktails para uns hóspedes levarem para os Estados Unidos. Ensinei-os a preparar o Rosa Maria do Porto, dei as quantidades. E eles voltaram a querer mais”, lembra. Esse Rosa Maria do Porto, uma criação sua, é um dos 12 cocktails que fazem parte do menu do Enfrascados, juntamente com os clássicos Margarita, Negroni, Long Island Iced Tea, Gin & Tonic, Cosmopolitan, Old Fashioned, Moscow Mule, Dark and Stormy, Cuba Libre e Boulevardier, e outro de sua autoria, o Al Fascínio (amêndoa amarga infusionada em limão e alecrim com uísque escocês).

E como é que tudo funciona? Como quase tudo funciona hoje em dia: por email ou através das redes sociais. Os clientes entram em contacto, escolhem o(s) cocktail(s) pretendido(s) – com um mínimo de 24h de antecedência – e Diogo compromete-se a fazê-lo(s) chegar ao destino, pronto(s) a finalizar e beber.

Chega tudo devidamente enfrascado e acondicionado numa caixa que pode trazer ainda aperitivos, fruta desidratada (ou fresca, dependendo do prazo em que o cliente vai consumir ), os mixers necessários e, não menos importante, as instruções. Estas variam ligeiramente entre cocktails e podem ser complementadas por vídeos: “Quando os clientes compram a Margarita, eu envio-lhes um vídeo a explicar como cobrir o rebordo do copo com sal”, exemplifica Diogo.

Ou seja, o cliente só precisa de garantir os copos – mais altos (highball) ou mais baixos (lowball), conforme indicado nas instruções – e gelo. Não se pense, porém, que o gelo é um pormenor. “Uma vez, um cliente disse-me que o cocktail sabia a marisco”, conta. A culpa era do gelo, claro. Segundo o barman, este deve ser sempre o mais neutro possível e, por isso, repousar numa prateleira exclusiva do congelador ou, então, ser comprado.

O negócio tem crescido e Diogo já viu os seus frascos chegarem à Bélgica e à Irlanda. Recentemente, recebeu pedidos de marcas para fazer cocktails especiais para serem utilizados (leia-se: bebidos) em eventos e apresentações virtuais. E ideias não lhe faltam para o futuro: subscrições, kits para pairings gastronómicos, festas e muito mais. Sente, por isso, que o conceito pode sobreviver à pandemia. Mais importante, no entanto, é sentir que os Enfrascados não vão tornar dispensável quem está atrás do balcão. “Não quero sentir que isto vai substituir o barman, porque eu também sou barman e gosto muito do que faço.”

Cinco frascos, cinco cocktails

Dark and Stormy

“Escolhi este cocktail porque é o que bebo todas as noites antes de me deitar”, justifica Diogo, antes de mostrar a preparação do Dark and Stormy, um cocktail que, na verdade, é uma marca registada pela Gosling’s, os maiores produtores de rum das Bermudas. “Tenho usado rum blackspiced [infusionado com especiarias]”, explica. Antes, porém, os clientes devem espremer meia lima e usar a quantidade certa de ginger beer, providenciada numa garrafa de 200ml.

© Tiago Maya

Rosa Maria do Porto

Esta criação de assinatura de Diogo Carreiras vem dos tempos do Hotel do Chiado. Deriva do clássico Old Fashioned, que vemos as personagens de Mad Men beber a qualquer hora mas que, em 2021, vai melhor depois da refeição. “Este é um digestivo. Aliás, quando o pedem, faço questão de explicar se é aperitivo, digestivo ou all-day”, assegura. Ao bourbon (6cl) junta-se uma redução de vinho do Porto, infusionada com limão e alecrim (1,5cl), bitter (2 gotas), raspa de laranja e alecrim fresco.

© Tiago Maya

Negroni

No bar do restaurante Casa Tradição, em Alfama, para o qual também já criou uma base de sangria enfrascada, Diogo prepara-nos este aperitivo clássico de raiz, para demonstrar como não há diferença entre o cocktail preparado e o cocktail enfrascado: gin, bitter e vermute. A mistura já vem feita, basta agitar, adicionar ao copo previamente preparado com gelo, mexer e decorar com raspa de laranja, também fornecida no kit.

© Tiago Maya

Cuba Libre

O clássico celebrizado pela independência e libertação de Cuba após a Guerra Hispano-Americana, com um casamento entre o rum cubano e a cola americana é, como explica Diogo, um “cocktail de montagem, que não vai ao shaker”. Ou seja, os elementos são adicionados à vez, e é isso que acontece também na versão enfrascada: copo alto com gelo, o conteúdo do frasco, o mixer – neste caso uma cola enriquecida com especiarias – e os gomos de lima que devem ser espremidos.

© Tiago Maya

Margarita

Quando definiu os cocktails que iriam constar do menu do projeto, Diogo focou-se nos produtos de qualidade a que tinha acesso e que lhe permitiriam contornar o problema da perecibilidade. No caso da Margarita, por exemplo, usa xarope de limão Giffard e o mixer Supasawa, cheio de acidez, para recriar o tradicional sumo de lima, que equilibra com xarope de agave. De resto, tequila e triple sec, tal como manda a lei.

© Tiago Maya

Artigo originalmente publicado na revista