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A agência reguladora dos medicamentos dos Estados Unidos, a FDA (sigla para Food and Drug Administration), aprovou esta segunda-feira o primeiro medicamento contra a doença de Alzheimer em cerca de vinte anos — o aducanumab, um fármaco cuja eficácia tem sido objeto de divergências dentro da comunidade científica.

De acordo com a edição norte-americana do The Guardian, a aprovação do medicamento era aguardada com expectativa por médicos, doentes e associações, que ansiavam por uma nova resposta à doença. Todavia, como recorda o mesmo jornal, dois ensaios clínicos que foram levados a cabo em março de 2019 foram interrompidos quando se concluiu que o medicamento não estava a funcionar — e a própria farmacêutica, a Biogen, já assumiu que dificilmente o medicamento melhoraria a memória e a capacidade de pensamento.

Mais tarde, contudo, a empresa voltou a olhar para os dados dos ensaios e concluiu que o aducanumab (comercializado com o nome Aduhelm) tinha a capacidade de abrandar a perda de memória e de capacidade de pensamento — permitindo às pessoas diagnosticadas com a doença de Alzheimer continuar a levar uma vida quotidiana normal durante mais tempo.

Com base nesses pressupostos, a Biogen submeteu à FDA um pedido de autorização, que agora foi aprovado. A autorização da FDA tem, contudo, uma condição: as pessoas a quem o Aduhelm foi administrado têm de integrar a fase 4 do ensaio clínico, que vai permitir aos cientistas continuar a monitorizar a real eficácia do medicamento.

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Mas a decisão não é consensual. Vários cientistas citados pelo The Guardian explicam que a aprovação do Aduhelm pode ser um erro.

“Enquanto médico e investigador na área da demência, com uma experiência familiar da doença de Alzheimer, quero muito ver tratamentos eficazes para a demência. Considero que a aprovação do aducanumab representa um erro grave que só vai ter impacto negativo nos pacientes e nas suas famílias e que poderá atrasar em pelo menos uma década a atual investigação em busca de tratamentos significativos para a demência”, disse ao jornal britânico o académico Robert Howard, da Universidade de Londres.

“Surpreendentemente, a FDA deixou de lado resultados de ensaios clínicos que indicam que o medicamento provavelmente não funciona“, acrescentou o mesmo especialista.

Lembrando que, em novembro do ano passado, a FDA começou por rejeitar o pedido de autorização do medicamento, o The Guardian recorda que alguns dos cientistas responsáveis por essa primeira análise técnica publicaram um artigo dando conta de que não havia provas suficientes de que o medicamento resultasse. Ao The New York Times, um desses cientistas — o académico Caleb Alexander — comparou o novo pedido de autorização à clássica falácia do atirador do Texas: um atirador que primeiro dispara contra uma parede e depois vai desenhar o alvo aos buracos das balas.