Título: Feliciano
Autor: A.M. Pires Cabral
Editor: Tinta-da-China
Páginas: 272
Preço: 16,90€

Em 1885, numa das melhores entradas dos diários dos irmãos Goncourt, Edmond, o único dos Goncourt ainda vivo nesse tempo, conta uma história que Alphonse Daudet lhe contara. Dizia Daudet que, certa vez, uma mulher entrou num autocarro vestida de forma tão enlutada que impelira o homem ao seu lado a perguntar-lhe o que acontecera. A pobre mulher conta então a história da morte dos seus dois filhos, o que gerara lágrimas de comoção em todo o autocarro. De seguida, contara a história da morte de um terceiro filho, o que fizera com que os passageiros perdessem ligeiramente o interesse. Até que, ao contar como o quarto filho fora estraçalhado por um crocodilo no Nilo, todo o autocarro rompe em gargalhadas.

Edmond (isto é, Alphonse através de Edmond) está a apontar aqui para um traço bastante singular da experiência humana. Se a angústia de uma mãe enlutada tem o condão de comover o coração mais empedernido, a partir do momento em que esse luto extravasa a nossa noção de plausibilidade, tornando-nos incapazes de imaginar o que é ocupar essa posição ou de conceber essa dor, deixamo-nos alhear. Se, depois disso, esse sofrimento for ainda mais aumentado, torna-se cómico visto de fora, precisamente porque já é inconcebível que o vejamos a partir de dentro, o que, naturalmente, serviria para tornar ainda mais pesada a cruz que esta pobre mulher se via assim forçada a carregar absolutamente sozinha. Segundo Edmond de Goncourt, Alphonse Daudet contava sempre esta história como um alerta a dramaturgos.

As lágrimas iniciais dos passageiros não eram, então, de empatia, mas de medo. Os sorrisos finais dos passageiros não são, então, de maldade, mas de alívio. No entanto, parece evidente que se um quinto filho morresse à senhora, os passageiros não se ririam ainda mais, mas voltariam, aborrecidos, à sua vida quotidiana.

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Vem isto a propósito do mais recente romance de A.M. Pires Cabral, Feliciano, onde se conta a história de um homem tão desafortunado que a simples narrativa das vicissitudes da sua vida o torna numa personagem cómica. Este Job moderno leva pancada de todos os lados, o que vai diminuindo a empatia dos habitantes da sua vila, que primeiro têm pena, depois acham cómico, mas que rapidamente o deixam de ver como um alerta acerca da inconstância do mundo, para verem apenas um maluquinho incomodativo que gosta de gritar coisas impercetíveis acerca do bispo de Viseu. O acumular de azares de Feliciano tem, por vezes, também esse efeito no leitor.

Feliciano deixa, em vários momentos, bem evidente o talento de A.M. Pires Cabral, que, através da história de um tipo com um azar dos diabos, vai desconstruindo algumas expectativas que temos em relação à escrita de um romance, pondo em causa a confiança que depositamos num narrador que sabemos desde o início ser pouco credível e que ora nos diz que toda esta história é falsa, ora jura a pés juntos que as inúmeras coincidências que se acumulam são verdadeiras, ora diz que é respeitador da ordem, ora inverte a ordem narrativa sem preocupações de maior, sempre através de uma escrita elegante.

Os momentos de maior brilho do romance serão, talvez, a subtil evocação do final de “Confissão de Lúcio” quando Feliciano invoca o cenário que imagina para a sua morte, os folhetins que este escreve e espalha por Trigais ou o comício de apoio ao MFA, em que o protagonista se encontra já num estado avançadíssimo de loucura e é incapaz de dizer coisa com coisa.

Esses momentos são, contudo, por vezes colocados na sombra de outros claramente menos bem conseguidos, como quando o narrador tenta criar suspense à volta da história do gato de Aurora Patuleia, sem no entanto ser capaz quer de deixar esse suspense crescer, quer de o resolver com uma grande história. Também a escolha dos nomes das personagens é exageradamente caricatural (o azarado Feliciano Boaventura, o padre Inácio Bulas, o “severo Professor Hilário”), o que torna em alguns momentos o romance demasiado parecido com uma qualquer sitcom portuguesa dos anos ’90.

No entanto, importa sublinhar uma última incongruência à qual A.M. Pires Cabral é absolutamente alheio e que se prende com a frase em destaque na contracapa, usada em vários sítios para promover Feliciano. Diz-se na contracapa que Feliciano se trata de “um romance picaresco, retrato de Portugal no século XX”. Ora, não é disso que o romance trata. Nem de perto. É verdade que A.M. Pires Cabral vai referindo, uma vez por outra, alguns provérbios populares, é verdade que se vai espaçadamente falando da situação política que culmina no 25 de Abril e é verdade que a aldeia de Trigais vai sendo descrita como uma espécie de aldeia-tipo portuguesa, mas tudo isso parece muito pouco para tornar esse tal “retrato de Portugal no século XX” digno de nota e, acima de tudo, parece muito pouco se comparado com a descrição exaustiva da acumulação de azares de um homem que, precisamente pela singularidade e frequência desses azares, se torna (felizmente) não um retrato de um qualquer traço universal da humanidade, mas uma personagem por direito próprio.

Dito isto, há dois momentos bastante cómicos na segunda metade do romance em que a descrição da vida em Trigais nos faz, efetivamente, soltar um “isto realmente só neste país”. O primeiro acontece quando o padre Silvestre acha que uns papéis espalhados por um homem com uma clara perturbação mental constituem o maior desacato sofrido pela Igreja Católica desde Martinho Lutero, uma extraordinária conclusão semelhante à de alguém que julgue uma flor maior do que uma montanha por ter essa flor demasiado próxima da vista. O segundo acontece mesmo no fim, quando Pires Cabral descreve a atitude dos isolados habitantes de Trigais que, apesar de viverem na miséria e numa situação absolutamente periférica e isolada em relação à civilização, apesar de serem o que mais pode distar de uma qualquer ideia de Império, não deixam de achar a Guerra do Ultramar “perfeitamente legítima”, uma vez que “Trigais não se podia excluir desse desígnio nacional”.

No entanto, se tudo isto existe e tudo isto é triste, nada disto é fado. E quando julgamos que isto permite descrever na exatidão uma qualquer ideia de portugalidade, vem-nos à memória uma frase batida de Sérgio Godinho quando canta que só neste país é que se diz “só neste país”. Só neste país.