Título: A segunda vida de Olive Kitteridge
Autora: Elizabeth Strout
Editora: Alfaguara
Páginas: 344
Preço: 19,90€

Já depois do grande sucesso da série Olive Kiterridge, na HBO, chega a Portugal a segunda parte da obra homónima de Strout, que, tendo arrecadado o Pulitzer em 2009, conquistou fãs por todo o mundo. Este regresso à personagem será, assim, esperado pelos leitores, e o que Strout lhes dá é uma linha narrativa fiável para lá do ponto em que já tudo parece ter acontecido.

A expectativa era alta, até porque Olive Kiterridge é uma personagem marcante, algures entre o verdadeira e o detestável. A sua forma direta de dizer parece ter sido desvinculada de todas as regras sociais, a sua agressividade não conta com amortecedores. Ainda assim, tem altos padrões morais, e não os baixa nunca e nunca os trai.

A profunda humanidade dos livros encontra-se nos pormenores dos diálogos, no ressabiamento, na teimosia de quem não dá um passo em frente para resolver entraves. E é isso que temos outra vez, neste segundo romance que parece pertencer ao anterior, no que parece a apresentação bruta de uma segunda vida: o que resta depois do casamento, feito até que a morte separasse, depois do amor, depois da paciência, depois de se deixar de ser capaz de aturar o outro. Quando a vida já não tem futuro, é preciso entender o que ficou para trás, e é nesse ponto que Olive está no início deste romance.

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Viúva, tem o filho criado e longe, um neto que não conhece. Quando parece haver apenas erros e passado, a segunda vida passa por um segundo amor, ou coisa assim. Olive casa com Jack e cada um tem o seu passado e a sua viuvez. Jack, por sua vez, é muito diferente de Henry, o primeiro marido, mas são as diferenças em relação a Olive que criam a clivagem. E, enquanto cria uma vida nova, Olive repensa o seu casamento até à morte, a barreira entre o casal que, aparecendo, parecia intransponível, e a forma como entraram “na velhice com aquele horrível muro alto entre eles” (p. 43).

Quando a si e a Jack, aproxima-os a idade e serem dois velhos às escuras, já sem futuro, só com passado, com os filhos ao longe. E distancia-os tudo o resto: um é conservador, a outra é progressista. Um é pomposo, a outra é honesta. E por isso Olive não aguenta os amigos de Jack e Jack não aguenta os amigos de Olive. Os dele serão emproados, os dela provincianos. E assim, num ápice, aparece a diferença de classes a explicar tudo. Olive responde que “provinciano era ele aborrecer-se por a filha ser gay e que devia ter vergonha de chamar provinciano a quem quer que fosse, se pensava dessa maneira, e que, mais do que provinciano, ó senhor intelectual de Harvard, ele parecia era saído da Idade das Trevas” (p. 167).

Furiosa com Jack, Olive mete-se no carro para ir embora, e sem querer dá por si a imaginar-se a fazer o caminho até à sua casa – a casa que tinha tido com Henry. Só que a casa já não existe, levada pelo tempo, pelas memórias e, de forma mais prosaica, por quem a demoliu pelo terreno. Ainda assim, essa cena mostra em pinceladas a crueza de envelhecer e de se enfrentar o passado como uma coisa morta.

Elizabeth Strout vai ao âmago. Não tem pretensões na prosa, cria personagens sublimes – inesquecíeveis – e apresenta a vida sem pó de arroz. Neste panorama de vida até quase já não haver vida, temos o confronto com o passado, o peso das feridas, a angústia que sobeja do que ficou por dizer, os pesos-mortos que leva quem se deixa vencer pelo orgulho.