O Chega vai pela primeira vez a votos numas eleições autárquicas e as dores de crescimento que se sentiram no último Congresso podem voltar a fazer mossa. Em causa está, mais uma vez, as acusações de nepotismo de que há muito é alvo o partido e que ameaçaram, de resto, partir o partido na última reunião magna do Chega. Os protagonistas? Outra vez a mesma família Matias.

A saber: Manuel Matias (pai) é cabeça de lista à Câmara Municipal de Almada; José Maria Matias (filho) é quinto na lista à Câmara Municipal de Lisboa; Rita Matias (filha) vai na lista a Alcochete; e Paulo Matias (irmão) segue na candidatura a Benfica no quarto lugar. Além do apelido e das relações familiares, os quatro têm em comum o facto de pertencerem à linha mais conservadora do partido.

As denúncias do alegado nepotismo no Chega arrastam-se há muito. A partir de agosto de 2020, quando o PPV se fundiu ao Chega, o clã Matias começou a ganhar um peso considerável na estrutura do partido para revolta de outros setores do partido. Em Évora, no II Congresso do Chega, Rita Matias, filha de Manuel Matias (ex-líder do PPV), entrou diretamente na direção do partido. Em Coimbra, no III Congresso, houve quem apontasse diretamente o dedo à direção do partido. Desta vez, com o clã Matias a ocupar vários lugares de destaque, voltaram as acusações: o Chega está a ir novamente contra tudo aquilo que prega.

Manuel Matias não compreende as acusações de nepotismo. Ao Observador, o candidato do Chega às autárquicas argumenta que, tal como acontecia no PPV, as ligações familiares são “naturais”. O Chega começou com poucas pessoas, isto é uma característica de todos os partidos de direita, é normal que haja familiares”, argumenta.

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“As pessoas que me acusam a mim de nepotismo adoram BolsonaroTrump Le Pen, que têm filhos, primos, sobrinhos e maridos nos partidos, compara. Matias chega mesmo a falar em “mesquinhez” e a questionar a lealdade ao líder. “As pessoas que atacam são inimigos do Chega e não estão ao lado de André Ventura.”

O ex-líder do extinto PPV, partido que se fundiu com o Chega, faz parte do núcleo duro de André Ventura e foi a aposta da direção nacional para Almada. Pouco tempo depois de ter saído do III Congresso da mesma forma que entrou, sem qualquer cargo. Mas esse não era o plano de André Ventura: o líder do partido ambicionava para Manuel Matias o cargo de presidente da Mesa do Congresso (apesar de nunca ter havido qualquer apoio oficial da direção). O ex-PPV candidatou-se, mas perdeu para Luís Graça, que manteve o cargo que já lhe pertencia. No Congresso ainda houve uma tentativa de adiar a votação para mais tarde, mas a opinião dos congressistas falou mais alto. Matias (e Ventura) saíram derrotados de Coimbra nessa eleição, mas havia mais para festejar.

Ao contrário do pai, Rita Matias saiu do último Congresso numa situação reforçada. Nos bastidores ainda circulou que pudesse chegar a vice-presidente, mas manteve o lugar de vogal na direção e vai liderar a organização de jovens do Chega.

Apesar do destaque que mereceu na reunião magna do partido, os dias seguintes não foram tão positivos. Acabou acusada de ter plagiado excertos de um discurso de Giorgia Meloni, líder do partido de extrema-direita Fratelli d’Italia, durante a sua intervenção no III Congresso do Chega e teve de se justiciar.

Nada que a tenha afastado do centro do partido, com presenças regulares e discursos nos eventos do partido, nomeadamente no Conselho Nacional, em Sagres, em que se atirou à comunicação social. Agora, com as autárquicas à porta, surge na lista do Chega a Alcochete, liderada por Gabriel Mithá Ribeiro, embora em posição discreta.

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Menos discreto é o quinto lugar de José Maria Matias, filho de Manuel Matias e irmão de Rita Matias, na lista à Câmara Municipal de Lisboa. Aluno do Mestrado de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, José Maria escreve artigos no jornal O Sol e começou a aparecer aos poucos no universo do partido. Ativo nas redes sociais, saiu em defesa da irmã e admitiu ver no Chega uma “oportunidade” para trazer para a discussão “assuntos que nunca foram discutidos e que eram tabus, como explicou no canal de YouTube de Luc Mombito, um amigo de longa data de André Ventura e o motorista do líder do partido.

O menos conhecido dos Matias nestas andanças é o irmão de Manuel Matias, Paulo Matias, que surge em quarto lugar na lista para a junta de freguesia. Foi escuteiro em Benfica, disponibilizou-se para integrar as listas para as eleições autárquicas nesta freguesia e é um dos candidatos.

Manuel Matias sai em defesa da família: “A Rita foi eleita em Évora, apresentou uma moção que levantou um Congresso, foi aplaudida de pé. Todos reconheceram o valor e o mérito e foi isso que fez com que André Ventura olhasse para aquela jovem e dissesse ‘eu quero esta jovem ao pé de mim’, não interessa de quem é filha. Não pode ser penalizada por ser filha de quem é, está lá por mérito. O José Maria é um miúdo com mérito, foi com 17 anos para Londres estudar música clássica, convidaram-no para fazer parte de uma lista e aceitou.”

O ex-líder do PPV insiste que “quem ataca a família Matias não é pela competência”, é pela “lealdade ao Chega, ao André Ventura e aos valores que defendem”. “No nepotismo as pessoas são escolhidas pela cunha. Aqui não é o caso”, afirma.

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Nem todos concordam, claro. No III Congresso do Chega, em Coimbra, Pedro Boaventura, militante do partido pelo distrito de Braga, apresentou uma moção onde se queixava da “enorme e completa ‘cunhalização‘ nos lugares nomeados e distribuídos dentro das estruturas, quer seja por serem familiares, por serem amigos, por serem clientes ou mesmo parceiros de interesses, de outros meandros.”

Este militante chegava mesmo a usar o exemplo de Carlos César, presidente do PS, para atacar diretamente a direção do partido. “Tanto falamos e tanto ‘batemos’ publicamente no nepotismo de Carlos César do PS Açores! Ao fazê-lo, nunca poderemos ignorar o que temos dentro de portas do nosso partido, não podemos continuar a fechar os olhos aos vários casos de nepotismo já instalados nas várias estruturas, espalhadas um pouco por todo o País, e aos casos que já se adivinham nos próximos e breves tempos.”

A moção acabou por ser rejeitada por larga maioria e, no momento em que foi anunciada, provocou apupos na sala, com vários militantes a gritarem ‘vergonha’. Mas, na altura, uma coisa ficou evidente: num partido em franco crescimento e não cabem todos nos lugares de destaque, a dança de cadeiras já provoca muita dores de cabeça. Resta saber o que acontecerá nas autárquicas.

Notícia corrigida às 8h47 do dia 6 de agosto com o lugar do candidato Paulo Matias, que vai em quarto e não em sexto lugar como inicialmente estava escrito.