Um é argentino, outro é português. Um já tinha sido campeão em Espanha e vencedor da Taça UEFA, outro tinha sido campeão em Portugal e não tinha vitórias europeias. Um era mais velho, mais recuperador de bolas box to box mas capaz de ir à área contrária. Outro era mais novo, mais vertical, mais explosivo em velocidade pelos corredores laterais mas com algum golo. Juntos ganharam a Liga e a Taça de Itália em 2000, pela super Lazio que contava com uma autêntica constelação de estrelas. Hoje, duas décadas depois, eram adversários na Liga dos Campeões como treinadores com ideias de jogo muito personalizadas.

Uma bola no poste, um golo anulado, um vermelho, um ponto na estreia: FC Porto empata em Madrid com o Atlético

Diego Simeone e Sérgio Conceição não foram os únicos a assumir uma carreira no banco dessa equipa da formação romana. Nestor Sensini, Sinisa Mihajlovic, Alessandro Nesta, Pancaro, Lombardo (que é adjunto de Roberto Mancini na campeã europeia Itália), Stankovic, Simone Inzaghi e Matías Almeyda também seguiram carreiras com maior ou menor reconhecimento, sendo que ainda houve o exemplo de Pavel Nedved, o Anjo Loiro dessa equipa, que se tornou dirigente da Juventus. Entre tantos nomes que faziam a diferença dentro de campo, o argentino e o português foram talvez aqueles que maior cunho pessoal deram aos seus conjuntos, mesmo que, quando eram jogadores, não fosse esse o caminho apontado.

“Eu tinha a certeza que seria [treinador] mas do Sérgio não esperava tanto. Era teimoso, com um futebol vertical e dinâmico. Gosto de tudo o que ele transmite, a energia e a segurança que tem vindo a dar muito bem à sua equipa”, assumiu o técnico do Atl. Madrid. “Se eu sou teimoso, ele não será menos. Estamos a falar de alguém que conheço. Na altura era um miúdo, tinha 23 anos, estava a pensar em atingir o auge e não em ser treinador. Nessa altura o meu foco era ser jogador de alto nível e mostrar exatamente isso, ele se calhar já pensava no que ia fazer depois de ser futebolista. Ele era mais bitaiteiro no balneário”, respondeu o treinador do FC Porto, traçando também as diferenças na ideia de jogo de ambos.

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“Representamos um clube de gente muito apaixonada mas temos as nossas diferenças. Aquilo que é a dinâmica do jogo pode descrever que são equipas aguerridas mas quem não tiver isso hoje no futebol ou tem uma equipa supertalentosa ou dificilmente consegue ganhar jogos. São equipas diferentes, mesmo sem bola. Nós somos uma equipa mais pressionante na missão defensiva, eles são mais pacientes. Não estou a dizer que não pressionam ou que não têm reação à perda, até têm feito vários golos em transição, mas são mais pacientes em bloco médio-baixo. Com bola, também são equipas diferentes. Mas o princípio base está lá: são equipas ambiciosas, determinadas, não viram a cara à luta e pensam que cada lance pode ser decisivo”, sintetizou Sérgio Conceição a propósito do jogo no Wanda Metropolitano.

Quase num prolongamento do que viria a ser dito depois, Pepe, que voltava a jogar em Espanha contra o Atl. Madrid num confronto onde levava clara vantagem com 13 vitórias e apenas dois desaires num total de 19 encontros quando representava o Real, destacou as mesmas ideias quando confrontado para definir o que é e o que quer o FC Porto da Champions. “O futebol nos últimos dez anos mudou bastante, estar na Champions é bastante exigente. A ambição do FC Porto é sempre lutar e onde quer que vá conseguir a vitória, é com esse intuito que vamos a Madrid. Com respeito pelo adversário mas a dar tudo por esta camisola. Temos que estar no clube e saber o perfil e a exigência que o clube nos pede, a raça, a garra. Estamos a representar a região e o país”, salientara também o central na antevisão da partida.

Era isso que estava em jogo no reencontro com caras conhecidas do clube (Felipe ou Herrera) e da Seleção (João Félix), com essa curiosidade de o avançado português ser titular na equipa espanhola ocupando o lugar que foi de Grizmann na partida anterior frente ao Espanyol em Barcelona. Do lado do FC Porto, três novidades nas opções inicias: Zaidu a entrar para o lugar de Marcano quando tinha sido Wilson Manafá a entrar em Alvalade para lateral esquerdo, Grujic no lugar de Bruno Costa ao lado de Uribe e Toni Martínez na frente com Taremi caindo Corona para lateral direito na vaga de João Mário. Ou seja, um conjunto azul e branco com um 4x4x2 assumido, a fazer subir os laterais pelos corredores e a ter uma primeira linha de pressão sem bola com dois avançados assumidos para condicionar a construção contrária. Pelo menos na teoria, essa seria a vontade dos dragões; na prática, eram as dinâmicas a ditar essa ideia de jogo.

Até foi o Atl. Madrid a deixar o primeiro sinal de perigo junto de uma das balizas, com uma boa receção após passe a explorar a profundidade para remate colocado e boa defesa de Diogo Costa (5′). No entanto, e já depois de um lance em que Taremi ficou tão surpreendido com uma bola a pingar na área que atirou ao lado, o FC Porto conseguiu colocar o encontro mais a seu jeito, com mais posse, melhor circulação de bola e a tentativa constante de saltar linhas colocando mais em jogo Otávio, Corona a desequilibrar também por dentro e Luís Díaz a dar largura à equipa. Foi desta forma que, em 27 minutos, altura em que Luis Díaz conseguiu uma saída fantástica pela direita, fez um grande passo para a subida de Zaidu no lado contrário mas o lateral não só falhou a tentativa de visar a baliza como se deixou antecipar por Kondogbia.

Sempre que havia paragens no encontro existia uma quase reunião coletiva junto ao banco do Atl. Madrid, com Diego Simeone aos saltos a gesticular como é a sua imagem de marca. Contudo, e se em muitos (ou demasiado) jogos aquilo que os colchoneros têm enquanto potencial individual não ganha depois expressão no plano coletivo em termos de qualidade de jogo, a maneira como o FC Porto estava organizado “secava” tudo o que de bom pudesse surgir para chegar à baliza de Diogo Costa, faltando apenas ao conjunto de Sérgio Conceição a tal verticalidade que o argentino reconhecia ao antigo companheiro nos seus tempos de jogador. Tanto assim era que, antes do intervalo, Rodrigo de Paul substituiu Lemar (36′).

Os treinadores teriam muito para falar ao intervalo, em especial Diego Simeone. Se é certo que a equipa do Atl. Madrid quase nunca foi apanhada em falso nas transições defensivas, fosse pelas pressões adiantadas de Koke, fosse pelo bom posicionamento de Kondogbia, a parte ofensiva era inexistente, sem jogo pelos corredores laterais, com pouca bola nos avançados e uma enorme incapacidade de entrar no último terço contrário em circulação, Do lado dos azuis e brancos, a ideia de Sérgio Conceição passaria pelos caminhos que a formação dos dragões teria de encontrar após a primeira fase de construção para aumentar o volume de jogo ofensivo, aproveitando os movimentos diagonais de Otávio nas subidas de Corona.

Logo no arranque da segunda parte, o FC Porto lançou Wendell na esquerda mas foi pela direita que o golo ficou perto com uma dose de sorte à mistura: depois de uma fantástica jogada coletiva perante a pressão dos espanhóis, Corona picou a bola por cima de Hermoso para Otávio, o luso-brasileiro tentou fazer um cruzamento largo ao segundo poste mas acabou por acertar no ferro, com Oblak a ter apenas tempo de ir anular o lance para Toni Martínez não fazer a recarga (50′). Estava dado o mote para uma segunda parte mais movimentada, com a má notícia para os dragões da lesão de Pepe (54′) e com o risco de Simeone a lançar Griezmann, Correa e Renan Lodi (56′), numa aposta equilibrada uns minutos depois com entradas de Sérgio Oliveira e Vitinha para reforçar o meio-campo e dar outro critério na posse da equipa (65′).

Emoção não faltaria no final, com Diogo Costa a fazer uma fantástica defesa a remate de Correa no único lance em que a defesa portista foi ultrapassada pelo movimento interior de Griezmann a soltar depois na direita (67′) e Taremi a não conseguir receber a bola quando ficaria sozinho na área após jogada estudada com Sérgio Oliveira (73′) antes do momento do jogo, com o iraniano a aproveitar um mau passe de Giménez para pressionar Oblak, marcar num ressalto mas a ver depois o golo anulado pelo VAR por ter batido na mão antes de entrar (81′). Quase no final, no quarto minuto de descontos, Mbemba ainda foi expulso mas o jogo acabaria mesmo sem golos, com os colchoneros quase nulos no ataque.

O FC Porto saiu de Madrid com um empate. Ganhou um ponto, ganhou um guarda-redes com uma estreia europeia na presente temporada fantástica, ganhou confiança para os próximos encontros com uma grande exibição coletiva. Perdeu dois pontos, perdeu a oportunidade de conseguir uma noite de sonho, perdeu Pepe por lesão, perdeu Mbemba por castigo para o próximo jogo. Ainda assim, aquilo que sobra é o ADN dos portistas nas grandes competições, o verdadeiro ADN Champions entre as equipas nacionais.